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Stanley Fischer: o professor dos professores Foto Ilustrativa

Stanley Fischer: o professor dos professores

por Stanley Fischer: o professor dos professores

Aos 70 anos, é considerado um dos mais importantes presidentes de Bancos Centrais ainda atuantes no sistema financeiro mundial. Seu currículo é extraordinário, com uma longa lista de realizações acadêmicas e profissionais. Economista brilhante, é um dos pais da Nova Economia Keynesiana1.

Edição 83 - Abril de 2014


A favor da abertura de mercados, Fischer possui ampla experiência em lidar com economias em crise. Seu grande conhecimento de Economia e sua inteligência rara lhe permitem destrinchar os assuntos mais complexos. No seio da comunidade financeira mundial é respeitado tanto por seu trabalho acadêmico quanto por sua atuação na área de políticas econômicas. Como um dos principais economistas do Fundo Monetário Internacional (FMI), ajudou a conduzir a economia global ao longo da crise financeira mundial de 1997-1998, que atingiu a Ásia, América Latina e Rússia. Posteriormente teve um alto cargo no Citigroup e, de 2005 a 2013 foi presidente do Banco de Israel, sendo considerado, no país, uma espécie de super-herói.

Calmo, cordial e objetivo, Fischer é cuidadoso e  analítico em situações de crise, mas, sempre que lhe pareceu necessário, demonstrou a coragem de tomar decisões controversas e arriscadas.  Apesar de seus extraordinários dons intelectuais, quem o conhece afirma que não é pretensioso, mas homem humilde, dono de uma capacidade singular de ouvir aqueles que não concordam com ele.

Ensinou durante muitos anos nas mais renomadas universidades e é respeitado e amado pelos seus ex-alunos. Entre outras importantes instituições de ensino, foi professor e diretor do Departamento de Economia  do  MIT (Massachusetts Institute of Technology,  Instituto de Tecnologia de Massachusetts), em Boston.

Detentor de dupla cidadania, americana e israelense, em janeiro deste ano de 2014 foi nomeado, pelo presidente Barack Obama, vice-presidente do Federal Reserve dos Estados Unidos. Sua indicação deve ser confirmada  pelo Senado. Segundo o presidente dos EUA, ele é  “uma das mentes principais e mais experientes em política econômica, no mundo”. Se confirmado no cargo, Fischer substituirá Janet Yellen, atual presidente do Banco Central dos EUA. Trabalharão juntos para garantir a recuperação e o crescimento da economia americana.

Sionista confesso, tem uma profunda ligação com o Estado Judeu. Quando foi chamado a ajudar o país,  fez aliá com a esposa Rhoda, com quem teve três filhos,  e dedicou anos de sua vida a Israel.

Sua vida

Descendente de uma família lituana, Stanley Fischer nasceu em Zâmbia, em 1943. Passou sua infância em Mazabuka, uma cidade no nordeste da Rodésia – atual Zâmbia, onde sua família gerenciava uma loja de produtos diversos. Era difícil a vida na África Central. A casa na qual cresceu, que ficava atrás da loja de seus pais, não tinha água corrente e a energia elétrica era pouca. Quando ele tinha 13 anos, os Fischer se mudaram para o sudeste da Rodésia, atual Zimbábue.

Fischer tornou-se membro ativo do movimento sionista juvenil Habonim e visitou Israel pela primeira vez em 1960, num programa de liderança juvenil. Estudou hebraico no Kibutz Magaan Michael. Para Fischer e Rhoda Keet, então sua namorada e com quem viria a se casar, a viagem marcou o início de um profundo comprometimento com Israel.

Fischer foi introduzido nas teorias de John Maynard Keynes2 durante um curso de Economia no ensino médio. Decidiu estudar essa ciência. Segundo ele, foi “fisgado” ao tomar conhecimento de que, durante a Grande Depressão de 1929, “o mundo como o conhecíamos quase desmoronou” e que foi salvo pelas ideias de Keynes.

Formação acadêmica

Fischer estudou na London School of Economics de 1962-1966, obtendo o bacharelado e o mestrado em Economia. Em seguida, estudou em Boston, no MIT, então na vanguarda do desenvolvimento de uma abordagem rigorosamente matemática da Macroeconomia. Obteve seu doutorado em 1969 e, no  ano seguinte, começou a trabalhar como assistente do professor de Economia na Universidade de Chicago. 

Interessante notar que, em sua carreira, Stanley Fischer transitou em ambos os lados das duas principais vertentes no campo da teoria econômica – ensinou na Universidade de Chicago, conhecida por sua defesa dos livres mercados e laissez-faire econômico, e no MIT, onde os acadêmicos defendiam a teoria econômica keynesiana e a da intervençãodo Estado na economia.

Fischer retornou, em 1973, para o MIT como professor associado do Departamento de Economia. Em 1976, naturaliza-se americano. No ano seguinte, tornou-se professor de Economia. Foi professor visitante na Hoover Institution, em Stanford, e na Universidade Hebraica de Jerusalém. Durante duas décadas foi membro do Conselho de Governadores da Universidade Hebraica.

Considerado o professor dos professores, ao longo de sua carreira acadêmica elemoldou algumas das mais brilhantes mentes do universo econômico. Muitos de seus alunos se transformaram em economistas proeminentes, chegando, alguns, a presidentesde vários bancos centrais. Entre seus alunos estão o ex-presidente do FED norte-americano, Ben Bernanke, o presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi, o ex-presidente do Conselho Nacional de Economia na gestão de Barack Obama, Lawrence Summers, e Greg Mankiw, assessor econômico do ex-presidente George W. Bush, entre muitos outros. Bernanke sempre considerou Fischer, orientador de sua tese no MIT, um dos professores mais influentes que teve.

Ao longo de sua carreira Fischer publicou várias obras; entre elas: Macroeconomics, em parceria com Rudi Dornbusch, e Lectures in Macroeconomics, com Olivier Blanchard. Frequentemente usados como livros-texto em universidades americanas, as duas obras tiveram um papel-chave na mudança do estudo da Macroeconomia. 

Formulador de políticas econômicas

Fischer começou a se envolver na política econômica em 1985. O então secretário de Estado dos EUA, George Shultz, o convidara para ajudar o governo israelense a lidar com uma inflação de três dígitos, reservas cambiais que minguavam e um lento crescimento econômico. Juntamente com seu colega Herbert Stein, Fischer conclui que os problemas econômicos israelenses eram o resultado de gastos excessivos do governo. Sugeriu cortes drásticos nas despesas governamentais, ressaltando que tal redução também diminuiria a dependência do país de ajuda externa. Shimon Peres, então Primeiro Ministro, seguiu as diretrizes  de Fischer e a economia israelense melhorou drasticamente. A inflação despencou de 450% para 20% no decorrer de um ano. Segundo Peres, atual presidente de Israel, “Ninguém poderia ter-nos orientado melhor”.

De 1988 a 1990 foi economista-chefe do Banco Mundial. Lá teve a chance de trabalhar e lidar com um leque maior de políticas econômicas. Durante sua permanência à frente do Banco Mundial, concentrou-se na importância da criação de um ambiente macroeconômico estável e instituições financeiras sólidas como elementos-chave para atingir objetivos de longo prazo, como crescimento e desenvolvimento econômico. Por ter crescido numa região pobre do mundo, sempre se interessou pelo desenvolvimento econômico dos países.

Ao deixar o Banco Mundial, Fischer retornou ao MIT e à vida acadêmica e, em 1993, tornou-se diretor do Departamento de Economia da instituição. Deixou o cargo no ano seguinte, quando se tornou Vice Presidente do FMI, o segundo cargo em importância na instituição. Ao longo dos sete anos seguintes, teve que lidar com as crises econômicas enfrentadas, entre outros, pelo México, Rússia, Argentina e Turquia, além de vários países da Ásia. No Brasil, teve uma atuação muito próxima ao então ministro da Fazenda, Pedro Malan e a equipe e ministério do governo de Fernando Henrique Cardoso, com grande influencia nas decisões sobre a politica econômica no país. Também esteve envolvido no aconselhamento às “economias em transição” – ou seja, as economias dos países do antigo bloco soviético – no tocante ao ritmo e tipo de reformas que deveriam implementar para a transição do comunismo ao capitalismo.  Deixou o FMI em 2001. Seu mandato chegara ao fim sem que se tivesse concretizado sua aspiração de presidir a instituição.

No ano seguinte, aceitou a vice-presidência do Citigroup, sua primeira atuação no setor privado. Deixou a instituição em 2005 e, em maio daquele ano, tornou-se presidente do Banco de Israel, instituição semelhante ao Banco Central brasileiro. Ficou no cargo até 30 de junho de 2013.

Stanley Fisher em Israel

Desde a sua primeira visita ao país, em 1960, ele sempre teve uma profunda conexão com Israel, costumando visitar o país anualmente.   Ele diz gostar das celebrações pelo Yom Haatzmaut, pois o que mais o toca é “o fato deste país existir!”. 

Durante um ano lecionou na Universidade Hebraica de Jerusalém. No final da década de 1970 foi consultor do Banco de Israel e, como vimos acima, em 1985, um dos arquitetos do plano de estabilização da economia do país. Ao longo dos anos continuou prestando consultoria a autoridades israelenses, à distância. No final de 2005 recebeu a surpreendente oferta para assumir o cargo de presidente do Banco de Israel. Houve quem estranhasse a oferta, pois Fischer não era israelense, mas apenas judeu. 

A decisão de mudar para Israel não foi fácil, disse certa vez em uma entrevista a uma emissora do país. Seus três filhos e vários netos viviam nos EUA. Mas resolveu aceitar o convite e, em 2005, ele e a esposa fizeram aliá. Antes de emigrar para Israel, estudou hebraico, pois queria a certeza de possuir a fluência necessária para não ter que utilizar o inglês para se expressar. Em Israel, tanto no exercício de sua função como em conversas privadas e entrevistas à imprensa, usou exclusivamente o hebraico.

A situação econômica que Fischer encontrou no país, em 2005, era bem melhor do que a vigente em 1985. A inflação era baixa e o país se recuperava de uma recessão. Quando, em outubro de 2008, estourou a crise mundial, Fischer cortou a taxa israelense de juros um dia antes de uma política similar ser adotada pelo FED, pelo Banco da Inglaterra e pelo Banco Central Europeu. Fischer se sobressaiu como dirigente máximo do Banco Central de Israel. São dele os créditos por ter salvado a economia do país durante a crise financeira global, pois a economia israelense praticamente se manteve estável durante o difícil período. Fischer guiou a economia do país através da  crise, com pouco dano, enquanto os Estados Unidos e Europa se digladiavam na esteira dos problemas.

Ele adotou uma série de medidas para estimular a economia interna, em que se incluíam o enfraquecimento do shekel para manter a competitividade das exportações. Enquanto outros países ainda lutavam contra recessões profundas, Fischer elevou as taxas  de juros em Israel em 2009, sinalizando ao mercado que o país já superara a crise.  Sua atuação foi fundamental para que Israel fosse aceito pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Ainda em 2010, a Lei do Banco de Israel foi aprovada pelo Knesset.

Para Fischer, esta foi uma de suas principais realizações, pois essa lei aumentou a autonomia do Banco em determinar a política monetária ao passo em que diminuiu os poderes de seu presidente, criando um Comitê Monetário com sete membros.

Naquele ano, ele foi eleito pela revista Euromoney o “Presidente  de Banco Central” do ano.

Sua gestão à frente do Banco  não esteve livre de controvérsias.  A principal queixa era a de que,  para ajudar os exportadores israelenses, ele manteve o valor do shekel relativamente baixo, reduzindo as taxas de juros e comprando tantos dólares que as reservas de Israel chegaram à colossal soma de US$ 70 bilhões. Os investidores só conseguiam obter um retorno significativo nas aplicações em imóveis. Consequentemente, o preço dos imóveis disparou, tornando-os inacessíveis para a maioria da população israelense, principalmente os jovens.

Fischer anunciou que se afastaria  da função em 30 de junho de 2013, dois anos antes do término de  sua segunda gestão de cinco anos. Na ocasião o jornal Haaretz disse que marcava a partida de um “super-herói” que servira admiravelmente não apenas como Presidente do Banco Central, mas também, por vezes, como o “ministro não oficial do exterior da Economia de Israel. Era Fischer que acalmava os investidores estrangeiros, assegurando-lhes que a economia estava em boas mãos”. 

Dirigentes de bancos centrais,  devido à natureza de seu trabalho, em geral não são populares.  Esse não é o caso de Fischer. Nenhum dos que o antecederam no cargo gozou do reconhecimento e total confiança que ele teve, nem do governo nem do público. Ele conta que quando corria na praia,  em Israel, as pessoas o paravam para lhe dar conselhos de como se desincumbir à frente do Banco de Israel. Após renunciar, disse estar comovido pelo carinho dos israelenses, que, ao reconhecê-lo, costumavam agradecer-lhe pelos serviços prestados ao país.

Ao término de sua gestão em Israel, ele se mudou para Nova York.  Ao partir, revelou que sentiria falta do povo de Israel.

Sobre a paz

Para Fischer, os principais desafios econômicos de Israel são acelerar o crescimento e diminuir a pobreza. Enquanto esteve à frente do Banco, abordava a questão da paz com os palestinos e outros países árabes através de uma visão econômica.  Como economista, ele acredita que Israel poderia beneficiar-se muito com a paz; que o país poderia ser um dos líderes da economia mundial se a paz fosse de fato estabelecida no Oriente Médio.

Em 2007 chegou a afirmar:  “Com seu dinamismo e criatividade, a economia israelense poderia crescer muito mais rapidamente se conseguíssemos firmar a paz com nossos vizinhos. É claro que podemos crescer mesmo sem avançar em relação à paz, mas, com a paz,  em vez de ter um crescimento de  4% a.a., o país poderia crescer a taxas de 5% - 6%. E em uma ou duas décadas, Israel seria uma das economias mais avançadas do mundo”. Explica Fischer que  Israel paga, de juros, cerca de duas vezes a média do que pagam os países da OCDE, devido aos  prêmios de risco. Mesmo com um nível razoável de dívida, é um dos países que paga o mais alto prêmio de risco, no mundo, sobre seus  títulos de dívida, em virtude da instabilidade geopolítica.  A diferença equivale a um terço do orçamento da Defesa.

Apesar de que o percentual do  PIB gasto com a Defesa ser o  mais baixo em 50 anos, caindo de quase 30%, no início da década de 1970, a apenas 6% - mesmo assim,  é o maior entrave no orçamento,  ano após ano. Ele acrescenta que se Israel pudesse direcionar alguns pontos percentuais de seu PIB a outras causas, a qualidade de vida poderia melhorar de forma significativa.

 A serviço do povo judeu

Fischer é a prova de que um  judeu pode chegar ao topo da sua carreira e ser um sionista fervoroso, sem perder o respeito e a admiração  de seus colegas. Com seu exemplo, mostrou que um judeu pode servir  o Estado de Israel e seu povo,  mesmo tendo crescido e sido educado fora de Israel. Quando foi chamado para servir o Estado, Fischer utilizou toda sua experiência e anos de  estudo e se dedicou, por oito anos,  ao Estado de Israel. Abrindo mão  de muito e, com total senso  de dever, dedicou-se ao seu povo. Seu exemplo pode encorajar outros judeus, com carreiras bem-sucedidas e posições de destaque, a irem a Israel, por alguns anos, e enriquecerem o país com seu talento e suas realizações.

1 A nova economia keynesiana é uma corrente de pensamento econômico nascida nos anos 1980.
2 Maynard Keynes (1883-1946), economista britânico de grande influência apoiava a intervenção do governo na economia e o aumento do consumo público para evitar o desemprego.