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STALIN, O FILHO DO RABINO Alexander Contract no final da guerra

STALIN, O FILHO DO RABINO

Depois de se esconder durante dois anos, viaja para os Estados Unidos. Era filho de um rabino. Virou o protegido de Nikita Kruchev, serviu como guarda-costas de Stalin e acabou salvando a vida de Menahem Beguin.



A narrativa da vida de Alexander Contract parece quase inacreditável. Teria este homem realmente feito história ou seria apenas uma lenda efêmera?

A capa de seu livro, publicado em 1991 e muito bem acolhido, faz desaparecer a dúvida, pois traz a famosa foto de um trio de peso, Stalin, Truman e Churchill, na conferência de Potsdam, sendo nitidamente visível, em segundo plano, o jovem judeu Alexander Contract.

Hoje, aos 76 anos, esse homem de voz doce é um eminente angariador de fundos para o Museu de Israel. Podemos reconhecê-lo facilmente nas fotos, mesmo se os cabelos esbranquiçaram e se o seu rosto nobre carrega os sinais da idade.

Na mão esquerda ele usa um enorme anel, com grande placa de ouro gravado com o símbolo do Estado de Israel em azul: um presente de Menahem Beguin, a quem Contract fez sair dos campos siberianos.

"Eu era um verdadeiro esportista, jogava futebol e fazia natação... Meus pais tinham sete filhos e três filhas... Eu precisava sair daquele buraco".

Por ocasião de uma visita dos dignatários do Partido Comunista em 1939, Alexander fazia parte de um grupo de jovens atletas escolhidos para fazer uma demonstração esportiva. Ele percebeu que uma haste metálica onde estava uma bandeira caía perigosamente sobre um grupo de personalidades. "Eu era jovem, então, sem hesitar, mergulhei, atravessei a piscina, peguei a bandeira e desviei para a água a haste que estava quase caindo sobre o banco dos dignatários".

Entre as personalidades presentes, estava Nikita Kruchev, comissário do distrito, e Lazare Kaganovitch, o único judeu da roda de Stalin, na época comissário dos Transportes.

"Eu não me tornei um herói da União Soviética, mas o herói de Kruchev", conta Alexander Contract. Kruchev perguntou ao nadador que favor este gostaria de receber e o rapaz pediu imediatamente uma entrevista no escritório do comissário.

"No dia seguinte, eu o esperei em seu escritório. Ao chegar, disse-me: 'Vamos, entre, vejamos o que podemos fazer por você". Eu respondi: 'Queria me tornar membro do NKVD (comissariado do povo nos assuntos internos, precursor do KGB)."

"Kruchev pareceu espantado pela minha coragem, mas não tardou a sorrir e exclamar 'Mas claro, por que não? Mas você deve primeiro passar por uma fase de treinamento.' "

Assim, o jovem Contract passou meses "aprendendo a manipular uma pistola e a se calar".

Logo depois, Kruchev convocou Contract e mandou-o em missão às estradas de ferro, como agente secreto, dizendo-lhe: "Espione os comissários e me mande os seus relatórios".

Quando a Alemanha invadiu a União Soviética, Alexander Contract, então chamado de Sasha Kontraktu, acompanhou Kruchev a Stalingrado.

Em 1942, após ter-se alistado, Contract ficou gravemente ferido pela segunda vez e foi hospitalizado nos Montes Urais. Kruchev lhe fez uma visita uma semana mais tarde.

Sempre que Kruchev encontrava Stalin, evocava o caso daquele "jovem judeu", afirmando: "Esse menino fala oito línguas, é muito fiel e digno de confiança ... ele está pronto para morrer por nosso país". Eu não estava, mas Kruchev o afirmou! E então Stalin respondeu: 'Traga-o a mim'.

Stalin me interrogou. Eu tremia mas resolvi ser franco e disse: 'General Stalin, meu pai é rabino, eu segui um seminário teológico durante dois anos e meio". Era também o caso dele: sua mãe queria que ele fosse padre.

Na proximidade de seus próprios apartamentos no Kremlin, Stalin escondia seus "jovens secretos" e Contract juntou-se a eles. O homem de aço fez com que esse novo recruta usasse um crucifixo para que ninguém suspeitasse que ele era judeu e o apresentou aos outros sob o nome de Sasha. Esses jovens eram os "olhos e ouvidos" de Stalin. Deviam infiltrar-se silenciosamente pela noite recolhendo informações e o protegendo. Continua Contract : "Comecei a trabalhar para Stalin em 1942 e não tenho uma idéia precisa do que ocorreu na década de 1930. Sei, entretanto, que ele havia eliminado alguns oficiais superiores e portanto sentia-se ameaçado. Por isto contratava jovens como nós (éramos 19), não apenas como guarda-costas, mas também para provar sua comida, espionar os comissários e os dignatários estrangeiros e para o manter sempre informado. A paranóia era um modo de vida na União Soviética".

Como Menahem Beguin entrou nessa história? "Ele se encontrava em um campo de trabalhos na Sibéria. Quando os alemães e os soviéticos dividiram a Polônia, vários poloneses fugiram para a Rússia.

Churchill pressionava os soviéticos para transferirem para a Grã-Bretanha os oficiais poloneses, juntando-os a seus colegas no exército polonês, no exílio, que lutavam ao lado dos britânicos. 'Stalin me disse: Leve dois homens com você, vá aos campos de trabalho nos Urais e na Sibéria, e localize todos os oficiais poloneses que conseguir'. Para facilitar-me a missão, o NKVD me entregou uma lista de "nomes prováveis".

Quando entrei em um dos campos da Sibéria, notei que havia quatro judeus na lista e Beguin era um dos "nomes prováveis" - mas eu sabia que ele não era um oficial polonês, pois antes da guerra, os judeus só poderiam ser simples soldados.

Aproximei-me de Beguin, gritando: 'Você, Menahem Beguin, coloque-se em posição de sentido quando um oficial soviético falar com você!' Em seguida, gritei de novo em direção aos três outros judeus: 'Mexam-se um pouco e juntem-se aos nossos colegas oficiais'. Beguin estava realmente abatido".

"Nossa missão consistia em levar todos os poloneses que pudéssemos encontrar em direção à Ásia Central.

Beguin fez parte do grupo que transferimos para Ashgabat, na República Turcomana. Eram uns 185, no total, incluindo-se uma meia dúzia de judeus que eu havia conseguido infiltrar em seu meio.

Desde que recebemos a ordem, fizemo-los passar a fronteira iraniana para levá-los a Teerã, onde foram confiados à Embaixada Britânica.

Mas Beguin desapareceu. Quando ouvi falar dele de novo, ele já provocava confusão na Palestina. Muitos anos se haviam passado desde aqueles eventos e eu já me encontrava na Alemanha, a caminho da "saída", pois havia decidido ir para o oeste".

No meio tempo, terminada a guerra na Europa, Stalin havia nomeado Alexander Contract para procurador adjunto, a fim de que fosse seus "olhos e ouvidos" no Tribunal de Nüremberg. Com a finalidade de conseguir asilo político nos Estados Unidos, Contract revelou ao presidente norte-americano uma informação ultra-secreta proveniente do escritório de Stalin. Após ter-se escondido por dois anos sob falsa identidade, Alexander Contract acabou deixando a Alemanha de navio, não sem antes ser perseguido por dois agentes especiais de Stalin. Estes tentaram prendê-lo no último minuto, na passarela de embarque, mas tendo sido feridos pela polícia militar americana, fugiram. Nosso herói, então com 24 anos, instalou-se discretamente em Nova York como imigrante, administrando uma pequena tinturaria, pois havia jurado ao presidente norte-americano guardar segredo por 25 anos sobre a negociação que lhe garantiu asilo político.

"Quando fui pela primeira vez a Israel, em 1954, fui visitar Beguin. Ele me reconheceu imediatamente e disse: 'Sem você não estaria vivo hoje; por que me escolheu?'

'Respondi que havia nesse campo quatro ou cinco judeus, que não deviam estar lá. Não haviam cometido nenhum crime e vinham da Polônia. Beguin então me convidou para contar esse episódio em um artigo da imprensa, mas eu havia prometido aos americanos permanecer em silêncio por 25 anos para não causar embaraço aos dirigentes da Segunda Guerra Mundial.

Ele me presenteou com um prendedor de gravata e abotoaduras, esse anel e um talit bordado em prata. Quando se tornou primeiro ministro, convidou-me, junto com minha esposa, para almoçar na Knesset. Depois nos convidou a Camp David para conhecermos o presidente Carter."

Sentado perto do rio, em Tel Aviv, o antigo agente soviético relembra, enquanto gira em seu dedo o anel presenteado por Beguin: "Quando ele morreu, não pude viajar, pois acabava de me submeter a uma grande operação cirúrgica... Sempre tive o maior respeito por esse homem, apesar de muitos judeus americanos o terem menosprezado".