Morashá
Robert Maguire e a operação Foto Ilustrativa

Robert Maguire e a operação

Piloto-chefe da Operação que levou, em vôos secretos, grande parte dos 50 mil judeus do Iêmen para o recém-criado Estado de Israel, Robert Maguire faleceu aos 94 anos, no dia 10 de junho de 2005, na Califórnia.

Edição 50 - Setembro de 2005


Enquanto David Ben-Gurion lia o texto da Declaração de Independência do Estado de Israel, em maio de 1948, a multidão festejava a realização de um sonho há muito acalentado, mas já se preparava para a guerra.No dia seguinte, logo após a saída dos ingleses de Eretz Israel - os exércitos regulares do Egito, Jordânia, Síria, Líbano e Iraque invadiram o país. No Iêmen, desde a votação da Partilha da Palestina pelas Nações Unidas, em 1947, a situação dos judeus se vinha deteriorando. A população muçulmana local, com o apoio da polícia, deu início a uma série de pogroms; 82 judeus foram mortos e centenas de casas destruídas. A comunidade judaica estava economicamente estagnada, pois a maioria de suas lojas e empresas tinham sido praticamente arrasadas. A situação se complicou no início de 1948, diante da falsa acusação de morte ritual de duas meninas, o que levou a uma explosão da violência. O aumento das agressões e do perigo levou à decisão de evacuar toda a comunidade judaica iemenita para Israel - cerca de 50 mil pessoas - entre junho de 1949 e setembro de 1950. A operação foi simbolicamente denominada de "Tapete Mágico".

Os vôos através de mais de 2 mil quilômetros que separavam o Iêmen de Israel, eram mantidos em segredo para evitar sabotagem. Havia inúmeros obstáculos, entre os quais o ataque das forças egípcias aos aviões e a escassez de combustível. Antes de partir, os pilotos eram avisados de que se fossem forçados a aterrissar em território inimigo, passageiros e tripulantes corriam o risco de ser executados.

A Operação "Tapete Mágico" levou um ano para ser empreendida e constou de 380 viagens, sem registrar perdas. O profissionalismo e a excelência dos pilotos envolvidos no projeto foram fundamentais para seu êxito. Maguire era um deles e Ben-Gurion o chamava de "Moisés irlandês". O escritor Leon Uris nele se inspirou para a criação de um dos personagens do livro Exodus, lançado em 1958.

Desafios constantes

Robert Francis Maguire Jr. nasceu em Portland, Oregon, em 7 de janeiro de 1911. Descendente de irlandeses e britânicos, foi criado dentro dos preceitos da Igreja Episcopal. Seu pai, Robert Francis, era advogado e foi um dos juízes que atuou nos Julgamentos de Nuremberg, após a 2ª Guerra Mundial. Seu interesse pela aviação começou cedo e, ainda na adolescência, aprendeu a voar. Um dia após o ataque a Pearl Harbor, em dezembro de 1941, Maguire alistou-se na Força Aérea dos Estados Unidos. Com o final da 2ª Guerra Mundial, começou a trabalhar na Alaska Airlines, empresa que concordou em transportar os judeus do Iêmen para o recém-criado Estado de Israel.

O contrato para a prestação desse serviço entre o American Joint Distribution Committee - organização judaica americana - e a companhia aérea só foi assinado depois que as autoridades religiosas iemenitas permitiram que a maioria da população judaica deixasse o país. Maguire transportou milhares de judeus da China, do Iraque e do Irã para Israel, antes de ser encarregado da Operação "Tapete Mágico".

Operação "Tapete Mágico"

A perseguição aos judeus do Iêmen começou no século VIII, com o advento do Islã. O fim dessa opressão e a maneira como seriam libertados estão mencionados no livro de Isaías, segundo a qual "eles se elevarão com asas, como águias". Oprimidos durante séculos, ao saber que sua fuga estava sendo planejada, os membros da comunidade deixaram suas casas e partiram, caminhando centenas de quilômetros, carregando livros de reza e suas Torás até alcançar o campo de refugiados em Aden, no extremo sul do Iêmen.

Os vôos da Operação "Tapete Mágico" contaram com a participação de 28 pilotos e eram minuciosamente detalhados. Os pilotos partiam pela manhã, da base em Asmara, na Eritréia, e aterrissavam em Aden, onde embarcavam os passageiros. Após deixar os refugiados em Tel Aviv, os aviões retornavam para passar a noite a salvo, em Chipre. Na madrugada seguinte, recomeçavam tudo, outra vez.

Os desafios eram uma constante no dia-a-dia dos envolvidos na Operação "Tapete Mágico". Para enfrentá-los, eram fundamentais a experiência e a habilidade dos pilotos. Maguire contava que durante uma dessas viagens, acabou o combustível do avião e foi forçado a fazer um pouso de emergência em território egípcio. Quando oficiais aeroportuários se precipitaram para o avião, começou a gritar pedindo ambulâncias, com urgência. Quando lhe perguntaram "para quê", Maguire respondeu: "Tenho varíola a bordo", uma doença extremamente contagiosa, à época. Conseguiu o combustível, partindo para Tel Aviv.

Quando alguns meses após o início da operação, a Alaska Airlines deixou de realizar os vôos, Maguire abriu a empresa Near East Air Transport, alugou aviões e contratou pilotos para continuar a missão. Essa empreitada lhe custaria a carreira, pois contraiu um parasita que lhe atacou o coração, fazendo-o perder a licença de piloto comercial. Passou, então, a trabalhar como gestor de um fundo de pensões.

Os judeus do mundo, no entanto, jamais esqueceram sua contribuição para a salvação de milhares de refugiados. Em 2004, Maguire foi homenageado pelo Centro Simon Wiesenthal, com a outorga de uma medalha de reconhecimento por sua corajosa atuação.