Morashá
Primo Levi, testemunha do absurdo Foto Ilustrativa

Primo Levi, testemunha do absurdo

A experiência vivida pelo homem faz parte de sua história, que acaba por se transformar em testemunho às gerações futuras, como forma de alertar e evitar que os terríveis fatos vividos nunca mais se repitam. Por isso, lembrar o passado é um imperativo, um instrumento identificador.

Edição 57 - Junho de 2007


Memória e esquecimento podem ser impulsos incontroláveis, porque recordamos e esquecemos não o que a moral ou crença espiritual nos impõe, mas o que sugerem nossos neurônios. Se pensarmos no coletivo, podemos imaginar que a memória artificial, criada na recorrência, conduz a uma causa diferente da moral em si.

O Povo do Livro, e também da Memória, há milênios celebra cinco grandes festas e entre elas Pessach, que simboliza a saída do nosso povo do Egito como uma revisitação sentimental - não necessariamente com um sentido de mitzvá, mas para nos lembrar que fomos nós, na primeira pessoa, a sair do Egito. Isto é a memória que, apesar de todas as vicissitudes passadas no decorrer dos séculos, faz com que o povo judeu sobreviva.

Por isso, é necessário que a humanidade nunca esqueça o que foi o Holocausto e só através da memória é possível evitar que tais fatos, que não encontram explicação nem mesmo nas mentes mais doentias, possam repetir-se.

Primo Levi nasceu em Turim, a 31 de julho de 1919, de família burguesa originária da Espanha e com passagem pela Provença. Foi o primogênito do casal Cesare Levi e Ester Luzzati, ambos judeus não praticantes, assimilados na sociedade piemontesa. Conseguiu, apesar das restrições e exclusão aos judeus italianos, impostas pelas leis raciais do governo fascista em 1938, terminar o curso de química no Politécnico, em 1941. Sua irmã, Ana Maria, nasceu em 1921.

Sem ter recebido uma educação judaica em casa - seu pai era engenheiro eletrotécnico, positivista por formação, amante dos livros e só esporadicamente freqüentava a sinagoga, enquanto descurava da educação dos filhos - Primo revela que "se descobriu judeu em Auschwitz, e que só após sua libertação do Lager, campo de concentração nazista, começou a formar uma cultura judaica". Nos anos 70 estudou o iídiche, que tanto ouvira em Auschwitz-Bona - na babel que era o campo, a língua mais falada - que ele, italiano, como todos os sefarditas, não falava, "redest keyn yiddisch, bist nit keyn yid" (numa tradução livre: 'que judeu é você que não fala o iídiche?'), num contato com o judaísmo do Leste Europeu que se transformou numa experiência, ainda que temporária, traumática.

Primo Levi testemunhou até o fim da vida sobre a ambigüidade e complexidade do comportamento do homem, uma catarse que o fez desentranhar de dentro do si um passado à flor da pele, quem sabe, com o intuito de se libertar ao relatar a escola do mal que foi o Lager.

Uma série de circunstâncias o salvou do extermínio nazista e, por mais paradoxal que possa parecer, o ser judeu, ainda que não praticante, e químico de profissão, foram as mais importantes. O primeiro, quando ao ser preso em 1942 escolheu, "por sugestão de um dos milicianos da República de Salò que o prendera se declarar judeu a ser fuzilado de imediato como partigiano".

A segunda, em 1944, quando o campo de Carpi-Fòssoli, em Modena, passou à gestão dos alemães e todos os judeus foram transferidos para Auschwitz III. Em Bona-Monowitz - propriedade privada de empresas, como a IG-Farmenindustrie, e um dos 39 campos que faziam parte do complexo, do qual o mais temível era Auschwitz II-Birkenau, com suas câmaras de gás e crematórios - depois de algum tempo como pedreiro, foi selecionado, em função de sua profissão, para o laboratório industrial da IG e, finalmente, em janeiro de 1945, a escarlatina o fez permanecer na enfermaria.

No momento em que os soviéticos se aproximaram, o campo foi evacuado, com a transferência dos prisioneiros posteriormente massacrados para não deixar testemunhas. Os enfermos foram abandonados à sua sorte.

Seu conhecimento do alemão da época de estudante, ainda que precário, era o bastante para entender as ordens e contra-ordens violentas dos nazistas, ao contrário dos milhares de prisioneiros. Isso porque o jargão utilizado pelos carrascos nazistas estava longe do idioma alemão, mesmo aquele vulgar, já que era uma linguagem criada para servir de meio de comunicação nos campos de concentração.

E testemunhar foi ao que se propôs Primo, ao se perguntar - a exemplo de tantos sobreviventes, "por que eu?", depois da experiência nos campos da morte, em 1945. Mas não testemunhar sobre os seres humanos que foram levados aos infernos pelo homem e de lá não voltaram - os afogados - mas testemunhar dos poucos que, como ele, sobreviveram. "Às vezes, mas não só quando se trata de Auschwitz, me sinto como irmão de Irineu Funes, 'El memorioso', descrito por Borges, aquele que recordava cada folha de cada árvore que vira e que, 'tinha mais lembranças sozinho do que quanto poderiam ter os homens que viveram desde que o mundo existe".

A literatura de Primo Levi é intensa em qualidade testemunhal, tanto no que diz respeito aos seus livros-documentos quanto aos contos, muitas vezes escritos para o jornal "La Stampa", de Turim. Deixando à parte os relatos-documentos, tentaremos identificar as relações existentes, em alguns dos seus contos, com sua judaicidade, com o químico e com o sobrevivente.

Em toda sua literatura percebe-se que, mesmo não sendo praticante, sua condição judaica estabelece um vínculo com a formação - porque a química é natureza, vida, sobrevivência - e em seus escritos, nos contos e poesias inclusive, há, na verdade, um quê de autobiográfico, no sentido mais lato do termo.

Em seu primeiro testemunho, "É isto um homem?", de 1945, ele relata as memórias pessoais muito recentes e vivas de Bona-Auschwitz. O sentido interrogatório do título traz à tona uma pergunta: é justo que o campo de concentração permaneça na memória ou é preferível esquecer tão terrível acontecimento? A resposta aparece no apêndice do livro, a partir de 1976: "Escrevo aquilo que não saberia dizer a ninguém", porque "recordar é um dever". Levi acreditava que toda experiência, ainda que traumática, constitui sempre uma forma de conhecimento.`

Em seu último trabalho, "I sommersi e i salvati" - título de um dos capítulos de "É isto um homem?", pág. 109 da edição italiana de 1989 - intelectualmente, seu livro mais importante, ele expõe sua visão do campo como "uma gigantesca experiência biológica e social", onde os contrários se contrapõem entre bons e maus, astutos e mesquinhos, vis e corajosos, "revelando-se um jogo de afogados e sobreviventes, onde a luta pela sobrevivência é sem trégua" (Belpoliti, M. Primo Levi, pág.160). Onde o que afasta dos prisioneiros a idéia do suicídio, de modo geral - um pedaço de pão, uma porção de sopa aguada a mais, não importa a que preço, e pensar em sobreviver até o dia seguinte é mais importante que fugir através do suicídio.

Nas narrativas, o autor não deixa por menos a memória do judeu, do químico e o testemunho do campo de concentração (71 Contos de Primo Levi, Companhia das Letras; O Sistema Periódico, Ed. Relume Dumará; Último Natal de Guerra, Ed. Berlendis & Vertecchia; Primo Levi, Tutti i Racconti, (org. Belpoliti Marco Einaudi).

É exemplo, entre outros, aquele que engloba os quinze contos de Histórias Naturais, publicado sob o pseudônimo de Damiano Malabaila, em 1966. No conto, Borboleta Angélica, um cientista nazista, busca desenvolver através de pesquisas a potencialidade morfológica implícita no homem; ou em Quaestio Centauris, em que o escritor se revela um híbrido dividido em duas metades: "... sou um anfíbio, um centauro, dividido em duas metades. Uma é a da fábrica como técnico e químico, a outra metade é totalmente diferente da primeira, é aquela na qual escrevo, sou entrevistado, trabalho com minhas experiências passadas e presentes. Sou um cérebro dividido em dois, uma ruptura paranóica". (Conversazione e interviste 1963-1987. Org. Marco Belpoliti, entrevista a Edoardo Fadini. pág. 107, Einaudi,1997). Ou os 21 que englobam Tabela Periódica (ed. Relume Dumará), em que os contos, ainda que tenham por título elementos químicos, dizem: "há toda uma tradição narrativa sobre a vida de médicos ou operários, mas quase nada sobre as aventuras espirituais de um químico", revela em entrevista de 1963 a Pier Maria Paoletti - nem por isso deixa de se relacionar com as origens familiares, vivências pessoais, ambições literárias e outras passadas e presentes, ao mesmo tempo em que, com facilidade, vai do épico ao humorístico, do autobiográfico às divagações antropológicas ou lingüísticas.

Na manhã de 17 de abril de 1987, um corpo cai do terceiro andar do número 75 de um palazzo, no Corso rei Umberto, na capital do Piemonte. Seu dono: Primo Levi, judeu piemontês, químico de profissão, sobrevivente e testemunha do Holocausto e escritor.

Primo Levi, o judeu assimilado de Turim, químico de formação, que sobreviveu à maior catástrofe já imaginada e levada a efeito pelo homem - como eu, tu, ele, para através de palestras e escritos alertar o mundo sobre o mal de que é capaz o homem - suicidou-se, a exemplo de dois outros judeus e sobreviventes, Jean Améry e Bruno Bettelheim, no mesmo palazzo onde viveu toda sua vida.

Sua trajetória não foi em vão, pois, através das palestras e escritos, moldou a personalidade de milhares de nascidos na década de 50 do século passado. É interessante saber e tornar públicas, com a devida autorização, as palavras do jornalista e responsável pelas Relações com o Público da Prefeitura de Turim, professor Paolo Viani, que, ainda criança, nas escolas elementar e média, na Itália, ouviu de viva voz o relato testemunhal do escritor - "Era tarde de sábado, estávamos à mesa com minha família e vi a notícia no telejornal regional do Piemonte. Para mim, órfão de pai desde os doze anos, foi como o apagar-se de uma luz que me indicava o caminho, uma luz que sempre se acende cada vez que releio as páginas de Primo... que, ontem, como hoje, está vivo e presente".

Bibliografia:

Levi, P. 71 Contos de Primo

Levi. Trad. Maurício Santana Dias, Companhia das Letras. São Paulo. 2005

Levi P. Último Natal de Guerra. Trad. Maria do Rosário Toschi Aguiar. Berlendis & Vertecchia. São Paulo. 2002

Levi, P. A Trégua. Trad. Marco Luchesi. Companhia das Letras. São Paulo. 1997.

Levi, P. Tabela Periódica. Relume Dumará. Rio de Janeiro. S/d

Levi, P. Se questo è um uomo. Einaudi. Turim. 1975

Levi, P. Se non ora, quando? Einaudi. Turim. 1982

Levi, P. La chiave a stella. Einaudi. Turim.1978

Levi, P. I sommersi e i salvati. Einaudi. Turim. 1986

Levi, P. Tutti i racconti. Einaudi, Turim. 2005

Levi, P. Opere (2 vol). Einaudi, Turim. 1988

Levi, P. Conversazione e interviste 1963-1987 (org. Marco Belpoliti). Einaudi. Turim. 1997

Levi, P. Il fabbricante di specchi. Racconti e saggi. La Stampa. Turim, 1997

Levi, P. Ad ora incerta. Garzanti. Milão. 2004

Belpoliti, M. Primo Levi. Mondadori. Milão. 1998

Meneghello.L. Promemoria, Lo sterminio degli ebrei d'Europa, 1939-1945.Il Mulino. Bolonha. 1994

Loy, R. La Parola Ebreo. Finegil Editoriale (ed. especial).Roma. 2007

El Último Sefardi/The Last Sephardic Jew - (documentário de Miguel Angel Nieto e Carlos Caparros em Djudeo-Espanyol/Ladino, com legendas em Inglês).