Morashá
Moshe Dayan, o guerreiro da paz Foto Ilustrativa

Moshe Dayan, o guerreiro da paz

Durante a segunda metade do século 20, ele passou para o mundo a imagem de um novo tipo de judeu: valente, determinado e vitorioso. Em 50 de seus breves 66 anos de vida, Moshe Dayan esteve na linha de frente dos eventos que convergiram para a Independência de Israel e a posterior consolidação social, política e militar do país.

Edição 66 - Dezembro de 2009


Hoje lembrado apenas como um general carismático, Dayan foi muito além disso, como um dos arquitetos da paz com o Egito e também como autor de um bem formulado plano de convivência pacífica com os palestinos.

Moshe Dayan nasceu em maio de 1915 no kibutz Degania, a primeira colônia agrícola de caráter socialista implantada na antiga Palestina. Seu pai, Shmuel, oriundo da Ucrânia, foi o líder do pequeno grupo de pioneiros que começou a lavrar a terra às margens do Mar da Galiléia, onde tiveram que superar imensas adversidades e onde a malária, atingindo em ritmo impiedoso homens e mulheres, era parte do cotidiano. A par disso, ocorriam freqüentes confrontações com os árabes da região. O jovem Moshe aprendeu o idioma árabe com fluência e registrou em sua autobiografia: "Meu comportamento com relação aos nossos vizinhos árabes sempre foi positivo e amigável. Eu admirava seu modo de vida, de trabalhar, e os respeitava. Estava certo de que, algum dia, viveríamos em paz ao lado deles". Entretanto, a conjuntura política daqueles dias o obrigou a enfrentar os árabes com pouco mais de vinte anos de idade. Em 1937, por ocasião de um dos intermitentes levantes árabes contra os pioneiros, ele foi designado intérprete de uma força policial escocesa integrante do poder mandatário britânico, que tinha como missão proteger de sabotadores o oleoduto da Companhia de Petróleo iraquiano que atravessava parte do país.

A missão fracassou em termos militares e Dayan logo percebeu o motivo: era impossível combater guerrilhas com táticas de defesa ou ataque convencionais. Dois anos depois, filiou-se à Haganá, o exército clandestino que viria a ser o embrião das Forças de Defesa de Israel. Foi nessa época que conheceu o capitão inglês Orde Wingate, que não era judeu, mas que avultou como um dos mais extraordinários e devotados aliados da causa sionista na Terra Santa. Sem se importar com as advertências de seus superiores hierárquicos, Wingate se torna o mais valioso instrutor da Haganá, valendo-se da experiência que adquirira ao combater rebeldes no Sudão. A rigor, Wingate tornou-se um excepcional mentor para Dayan que, com ele, assimilou dois conceitos militares fundamentais: ter sempre a iniciativa para surpreender o inimigo e dar preferência aos ataques noturnos. Wingate, um nome até agora lendário em Israel, morreu durante a Segunda Guerra combatendo os japoneses na Birmânia, atual Mianmar.

Em 1939, por força de suas múltiplas atividades na Haganá, Dayan foi preso pelos ingleses. Permaneceu dois anos no cativeiro, mas, já conhecido por sua competência militar, foi libertado e engajado em uma tropa australiana incumbida de lutar contra o exército francês, integrante do regime pró-nazista de Vichy, aquartelado na Síria. Ali, durante uma troca de tiros e enquanto mantinha um binóculo colado na face, Dayan foi atingido por um projétil que destruiu seu olho esquerdo de forma irrecuperável. Desde então, passou a usar um tapa-olho que se integraria por toda a vida à sua imagem.

Quando foi criado, no dia 14 de maio de 1948, Israel não possuía forças armadas regulares, mas contava com 30 mil homens da Haganá, já então bem treinados e bem organizados, incumbidos de combater 10.000 egípcios, 8.000 iraquianos, 7.000 sírios, 4.500 jordanianos e 3.500 libaneses, além de outros contingentes menores de países árabes, como o Iêmen. Todos estes contavam com aviões, tanques, milhares de veículos blindados, artilharia pesada de metralhadores e morteiros, cavalaria e infantaria. Seu propósito, conforme alardeavam, era "atirar os judeus ao mar", mas faltou-lhes a necessária coordenação, porque os líderes e os militares árabes daqueles diferentes países não confiavam uns nos outros e cada qual estava mais preocupado com seus possíveis ganhos territoriais quando o Estado Judeu fosse dizimado.

No dia 15 de maio, os sírios desceram as colinas do Golã e iniciaram um ataque com 45 tanques e poderosa infantaria contra o kibutz Degania, justamente onde Dayan nascera. Ele mesmo comandou a defesa do kibutz, conseguindo que os sírios batessem em retirada. Em seguida, Yigael Yadin, chefe do Estado Maior do novo exército de Israel, deu a Dayan o comando de um dos três batalhões que deveriam expulsar, ao sul do país, as tropas egípcias que ocupavam parte do deserto do Neguev. A operação foi bem sucedida, com uma brilhante ação estratégica de Dayan, no sentido de assegurar a posse da cidade de Lydda. Logo em seguida, os egípcios preferiram a assinatura de um armistício em vez de prosseguir em uma luta sem possibilidade de êxito. Sua última missão na Guerra da Independência foi comandar a frente de Jerusalém, quando o setor judaico da capital do país acabara de superar o perigo de uma rendição frente à bem equipada e destemida Legião Árabe da Jordânia. Dayan tinha a intenção de romper a resultante divisão entre as cidades nova e velha, abrindo uma espécie de corredor que garantiria o acesso ao Muro Ocidental e ao Monte Scopus. Entretanto, Ben Gurion desaprovou essa ação e Dayan anotou em sua autobiografia: "Na mente de Ben Gurion a guerra estava encerrada, pelo menos até aquele momento. Ele achava que era mais importante que Israel se concentrasse na realização do sonho sionista, ou seja, no retorno dos exilados à sua pátria de origem e ao renascimento do Estado judaico". Em 1949, Dayan participou das negociações entabuladas na ilha de Rodes, na Grécia, mediadas pelo americano Ralph Bunche, que resultaram em um armistício com os países árabes, exceto o Iraque, com o qual, do ponto de vista formal, Israel até hoje mantém um estado de guerra. Foi a sua primeira, porém longe de ser a última, experiência diplomática.

Em 1952, Dayan foi nomeado chefe de operações do Estado Maior e, no dia 6 de dezembro do ano seguinte, designado comandante em chefe das Forças Armadas de Israel. Seu registro: "Fiquei muito orgulhoso quando me tornei o Soldado No 1 de Israel. Mas, durante a cerimônia, enquanto Ben Gurion me colocava as insígnias, senti muito mais o peso da responsabilidade do que o calor da emoção". De fato, ele tinha amplos motivos de preocupação. Apesar do armistício, os países árabes mantinham posições de hostilidade contra Israel e era difícil conter os constantes ataques terroristas. Dayan convenceu-se de que a violência só podia ser combatida com violência e que se não começassem imediatas retaliações, os árabes ganhariam mais tempo para rearmar suas forças militares. Nessa moldura, passou a ordenar fulminantes operações de comandos em Gaza, no Sinai, contra o Egito, e, ao norte, contra a Síria.

Sua primeira atuação diplomática de transcendente envergadura aconteceu em 1956, quando, acompanhando Ben Gurion e Shimon Peres em uma viagem secreta à França, traçou com os ingleses e franceses o plano da ação que culminaria na Guerra do Sinai, em outubro daquele ano, destinada a garantir a abertura do canal de Suez, meses antes nacionalizado por Nasser, ditador egípcio. Enquanto a França e a Inglaterra se incumbiriam de lançar pára-quedistas na zona do canal, caberia a Israel a conquista do Sinai, tendo como recompensa final a abertura da navegação através do estreito de Tirã, até então bloqueado para o Estado Judeu. No plano elaborado em Paris, caberia a Israel o início das operações militares que serviriam para justificar a intervenção da França e da Inglaterra. Dayan escreveu: "Ben Gurion receava que nós viéssemos a sofrer pesadas baixas na população civil e danos materiais nos primeiros dias da ofensiva, pressupondo que a força área do Egito, equipada com excelentes aviões do tipo Ilyushin fornecidos pela União Soviética, bombardearia Tel Aviv e Haifa. Eu sabia que a gente não entraria na chuva sem se molhar, mas não tinha o mesmo receio, porque, na minha concepção, os egípcios imaginariam que nosso avanço seria mais uma das retaliações limitadas do que uma vasta operação militar. Na medida em que fossemos capazes de ocupar rapidamente o passo de Mitla, conforme conseguimos, estaria aberto o caminho para El Arish e para o restante do território rumo ao Canal". Do ponto de vista objetivo, a Guerra do Sinai foi bem sucedida, mas Israel, França e Inglaterra cometeram o erro de não avisar os Estados Unidos sobre a ação militar que iriam empreender. Tratou-se de um erro de certa forma compreensível, porque os americanos decerto se oporiam àquele plano, como de fato se opuseram, embora os fatos já estivessem consumados.

Por pressão do presidente Eisenhower, Israel retirou-se do Sinai, mas já tendo obtido o direito de navegação pelo Tirã de que tanto precisava. No dia 16 de março de 1957, Dayan comandou a retirada das tropas israelenses até suas fronteiras. Ingleses e franceses saíram dois meses e meio depois.

Em 1958, Moshe Dayan despiu a farda, ao deixar o posto de chefe do Estado Maior e, com 43 anos de idade, como um aluno como outro qualquer, matriculou-se na na Faculdade de Ciências Políticas da Universidade Hebraica de Jerusalém, com ênfase nas questões pertinentes ao Oriente Médio. Escreveu: "Como estudante, pela primeira vez na vida, senti-me livre de quaisquer responsabilidades. Fiquei dois anos na universidade como se estivesse de férias". Contudo, as responsabilidades logo se fariam presentes quando, convocado por Ben Gurion, filiou-se ao então majoritário partido Mapai para integrar a lista que concorreria ao Knesset (parlamento) nas eleições de novembro de 1959. Contudo, em vez de se dedicar à atividade parlamentar, foi nomeado ministro da agricultura, posto que ocupou durante cinco anos. Durante esse mandato aceitou um convite dos Estados Unidos para viajar ao Vietnã e conversar com oficiais americanos sobre a guerra que ali ocorria. O comandante americano, general Westmoreland, pediu a opinião de Dayan de uma forma bem judaica: "Nu, (e então?), quais são suas impressões?" Ele respondeu: "Vocês já perderam essa guerra e ainda não sabem". Ante o espanto do general, completou: "Os vietcongues se escondem em trincheiras cobertas, túneis e, nas cidades, em esgotos. Como é que vocês querem atingi-los, lançando bombas de aviões a 37 mil pés de altura?"

Foi nesse período que Israel começou, conforme suas próprias palavras, "a ser inundado por pedidos de ajuda de consultoria agrícola". Tais solicitações eram oriundas de nações africanas que há pouco tinham conquistado suas independências, além de países como a Turquia, Nepal, Tailândia, Filipinas, Ceilão (hoje Sri Lanka) e da América Latina. Os africanos mereceram atenção especial e, em 1963, Dayan visitou diversos de seus países nas costas leste e oeste daquele continente. Desde então, jamais a diplomacia israelense voltou a atravessar um período tão abrangente e produtivo em suas atividades.

Em junho de 1967, Nasser promoveu um ato de beligerância contra Israel ao ordenar o fechamento do estreito de Tirã à navegação israelense, desafiando o compromisso internacional que assumira no conflito de 1956. Em seguida, exigiu a retirada das tropas das Nações Unidas estacionadas no Sinai, entre as quais um contingente brasileiro denominado Batalhão Suez, que servia como um elemento de contenção entre Israel e o Egito. Ao mesmo tempo, firmou pactos militares com a Síria e a Jordânia. Mais uma vez, os tentáculos da guerra se estendiam sobre o Oriente Médio com Israel ameaçado em três frentes isoladas: ao sul, ao norte e a oeste. A situação era tensa ao extremo no país e a opinião pública se ressentia de uma posição mais decisiva por parte do primeiro-ministro Levi Eshkol. Pressionado pelos acontecimentos, Eshkol nomeou Moshe Dayan ministro da defesa e o mundo inteiro percebeu que a guerra era uma questão de dias ou horas. Ao alvorecer do dia 5 de junho, jatos da força aérea de Israel tomaram o rumo do sul e aniquilaram todos os aviões da força aérea egípcia, ainda estacionada em sua base central perto do Cairo. Era o início da Guerra dos Seis Dias. A estratégia de Dayan foi pouco diferente daquela da ocupação do Sinai onze anos atrás: mobilização veloz e surpreendente de três divisões dotadas de tanques, infantaria e artilharia vindas de diferentes direções. Uma delas, a comandada pelo general Ariel Sharon, que deveria neutralizar as defesas egípcias localizadas em Um Katef e Abu Ageila, cumpriu sua missão com maior rapidez. Em apenas dois dias o exército de Israel não mais podia ser interrompido na direção do canal de Suez. Apesar da inevitável derrota egípcia, a rádio do Cairo transmitia a cada instante a seguinte mensagem: "Há vinte anos nosso povo espera por esta batalha. Os exércitos árabes têm um encontro marcado em Israel". Em Bagdá, a rádio oficial exclamava: "Morte, morte aos judeus!"

Em Tel Aviv, a população só foi informada dos acontecimentos trinta minutos depois da espetacular incursão da força aérea. A rádio Kol Israel interrompeu sua programação normal e fez um comunicado quase lacônico: "Nossas forças de defesa terrestre e aérea iniciaram nesta manhã uma ofensiva contra o Egito".

Seguiram-se canções populares e marchas militares incluindo uma interminável repetição da trilha do filme "A Ponte do Rio Kwai". Em meio à sessão musical, ouviu-se a voz de Moshe Dayan: "Soldados das Forças de Defesa de Israel, a partir deste momento, nossas esperanças e nossa segurança estão em suas mãos!" Naquela altura, somente três quartos das reservas do exército haviam sido mobilizadas. Mais uma vez a música foi interrompida, transmitindo códigos que correspondiam àqueles que deveriam vestir suas fardas: "trabalhadores de Sion", "homens do trabalho", "janela aberta", "corrente alternativa" e "bons amigos". Toda a logística se desenvolveu exatamente de acordo com o planejamento feito por Moshe Dayan ao tempo em que tinha sido chefe do Estado Maior. Em menos de 48 horas, 235 mil cidadãos israelenses se haviam transformado em uma força combatente. Às dez horas da manhã do dia seguinte, os serviços de inteligência de Israel conseguiram captar uma conversa telefônica entre Nasser e o rei Hussein da Jordânia, durante a qual ambos acertavam os últimos detalhes para a ofensiva contra Israel. A voz de Nasser foi ouvida com clareza: "Temos que fazer um anúncio conjunto, eu, você e os sírios. Vamos dizer que estamos sendo atacados por aviões americanos e ingleses. Vamos enfatizar este aspecto e dizer o mesmo para as nossas populações". Em Jerusalém, o governo tomou a iniciativa de contatar o rei Hussein por telefone. Foi-lhe dito que Israel não tinha a menor intenção de guerrear contra a Jordânia e pediu ao rei que este se mantivesse alheio ao conflito. Hussein respondeu que também não nutria animosidade contra Israel, mas que tinha assinado um pacto com Nasser e não poderia voltar atrás. Visto este episódio em retrospecto, constata-se que se Hussein tivesse atendido ao apelo de Israel, a Margem Ocidental não seria atacada e, hoje, não existiriam territórios ocupados. Quando, no quinto dia da guerra, as tropas de Israel ocuparam a cidade velha de Jerusalém e chegaram até o Muro Ocidental, foram logo seguidas por Moshe Dayan que ali mesmo declarou: "Regressamos ao nosso lugar mais sagrado. Daqui jamais sairemos".

Ao fim da guerra vitoriosa, estendida até as colinas do Golã, enquanto os israelenses e os judeus de todo o mundo eram um só júbilo, Moshe Dayan estava preocupado. Na frente interna, ele se ressentia das pessoas que haviam sido contrárias à sua nomeação para o ministério da defesa, antes da Guerra dos Seis Dias: "Preciso tomar cuidado porque estarão contra mim e vão-se valer do menor deslize que porventura eu venha a cometer". Na frente externa, entendeu que, tendo sido desprovidos de sua força militar, os árabes passariam a enfrentar Israel na arena internacional com desdobramentos imprevisíveis. Julgava, inclusive, que como a vitória correspondia à derrota dos armamentos que os russos haviam dado ao Egito, alguma perigosa ação da União Soviética recairia contra Israel. Teve razão nas duas suposições. Apesar de tido como herói nacional, depois da guerra viu-se envolvido em sucessivos embates políticos. Quanto à União Soviética, o anti-semitismo patrocinado pelo Kremlin assumiu proporções assustadoras.

A rigor, a ação de Dayan após o conflito foi tão importante quanto tinha sido durante os eventos militares. Assim que os canhões e rifles silenciaram, deu ordem para que fossem removidas todas as barreiras que até então marcavam a divisão da cidade de Jerusalém. Anotou: "Na mesma hora passei a sofrer pressões do ministério do interior, afirmando que eu estava sendo por demais apressado. Diziam que os israelenses seriam massacrados quando se aventurassem a percorrer o mercado e as vielas do setor árabe da cidade. Nada disso aconteceu. Um curto período de tempo mostrou que eu estava certo". Além disso, Dayan aboliu quaisquer restrições para as movimentações de pessoas. Um cidadão árabe, fosse ele habitante da Cisjordânia ou morador de Gaza, podia deslocar-se para qualquer parte de Israel sem ter que pedir permissão. Outra medida de Dayan que ele mesmo classificou como a mais significativa e revolucionária: a política das pontes abertas. Essa medida garantia a livre circulação de pessoas e produtos entre Israel e os países árabes. A ponte Allenby, a leste de Jericó, atendia as necessidades das populações de Jerusalém, Belém, Hebron e Gaza. A ponte Damia atendia os habitantes de Nablus e Jenin. Ele insistia na tese segundo a qual os árabes não deveriam sofrer contenções por causa da vitória de Israel. Dayan escreveu: "Fui feliz em viver para testemunhar que as pontes abertas serviram para que árabes e israelenses pudessem estar mais próximos uns dos outros. Eu sabia que uma vez em contato conosco, nossos vizinhos não passariam a nos amar ou admirar. Mas, pelo menos, perceberiam que seria possível viver ao nosso lado". Depois da guerra, Dayan constatou que, apesar de ser ministro da defesa, não tinha um escritório no prédio do ministério, porque, até então, Eshkol era o primeiro-ministro e também o responsável pela defesa. Todos que trabalharam ao seu lado nessa época, atestam a cordialidade de Dayan. A porta de seu gabinete estava sempre aberta para quem quisesse falar-lhe. Mantinha sobre a mesa de trabalho uma cesta de frutas, que oferecia aos visitantes e subordinados. Sua atividade no ministério era intensa. Aos domingos pela manhã comparecia à reunião do gabinete. Segunda-feira, reunião com os membros do Estado Maior. Terça e quarta-feira percorria instalações militares e os territórios (que ele chamava de administrados, em vez de ocupados) para conversar com os árabes. Quinta-feira, reunião no Partido Trabalhista. Sexta-feira, reunião interna do ministério. Além disso, freqüentes visitas ao Knesset para responder aos deputados sobre assuntos relativos à defesa do país. Aos sábados, dedicava-se a organizar sua vasta coleção de objetos antigos, fruto de suas incursões como arqueólogo amador. Em uma dessas ocasiões, após descer numa caverna na região de Azur, foi soterrado por uma avalanche de lama. Por pouco não morreu, ficando internado no hospital Tel Hashomer durante 25 dias, apesar de os médicos em vão terem julgado necessário mantê-lo em tratamento por mais uns dois meses.

Na madrugada de 6 de outubro de 1973, dia do Yom Kipur (Dia do Perdão judaico), Moshe Dayan foi acordado por um oficial da inteligência que lhe informou que os egípcios lançariam um ataque contra Israel às quatro horas da tarde daquele mesmo dia. Dayan ordenou a convocação de seu Estado Maior e que o aviso fosse transmitido para a primeira-ministra Golda Meir. Antes do alerta, ele já havia tomado uma série de providências, umas certas, outras duvidosas. Embora suspeitasse de ações belicosas por parte da Síria e não do Egito, havia ordenado uma reduzida mobilização militar. Oficiais lhe apresentaram um plano para uma ação preventiva contra a Síria, mas ele desaprovou com receio de que isso pudesse prejudicar as relações com os Estados Unidos. Encaminhou uma mensagem à Casa Branca pedindo que os americanos dissuadissem a Síria e o Egito de qualquer hostilidade. Ordenou a evacuação de mulheres e crianças que estivessem em localidades próximas à fronteira com a Síria.

Apesar dessas medidas, ele sabia que levaria de 24 a 48 horas para mobilizar todas as reservas do país. Às 2h45m da tarde, veio a informação de que ocorria um ataque conjunto do Egito, ao sul, e da Síria, ao norte. Anotou: "Naquele dia, nossos inimigos souberam aproveitar duas expressivas vantagens: a iniciativa de atacar e a supremacia de forças". À noite, os egípcios já haviam cruzado o canal de Suez e os sírios haviam descido boa parte das colinas do Golã. Mesmo assim, o chefe do Estado Maior, general David Elazar, apresentou a Golda e ao gabinete um relatório, se não otimista, pelo menos pouco pessimista. A avaliação de Elazar não tinha base na realidade e Dayan pressentiu isso. Foram horas dramáticas e quase catastróficas, nas duas frentes. A um certo momento, Dayan simplesmente não sabia o que fazer e, ademais, sofria de um início de colapso nervoso ignorado por todos. No segundo dia, ele mesmo foi para a frente do Golã, onde tudo levava a crer que os sírios seriam vitoriosos. Dayan mandou que a força aérea se deslocasse do sul para o norte, a fim de bombardear os tanques sírios. A operação fracassou. Nos dias seguintes, foi por força de um verdadeiro milagre que os israelenses conseguiram deter o avanço sírio e reassegurar a posse das colinas do Golã.

Ao sul, o general Ariel Sharon tomava as medidas que resultariam na autêntica salvação de Israel: a travessia do canal de Suez, na direção do Egito. Entretanto, seu plano encontrou forte oposição no Estado-Maior, onde a idéia de Sharon foi tida como louca. Contra ele estavam o general Bar Lev, ex-ministro da defesa, o general Elazar, chefe do Estado-Maior, o general Shmuel Gonen, responsável formal pela frente sul e muitos outros oficiais de alta patente. Colhi do próprio Sharon um depoimento no qual ele me revelou que quase brigou fisicamente com Bar Lev por causa do assunto da travessia. Quando tudo parecia perdido, Dayan, já recuperado, entrou em cena e deu força total a Sharon, aprovando sem restrições o plano da passagem do canal. Esta foi a sua última, decisiva e acertada atuação militar. Por sabedoria e intuição, percebeu que sem uma ação inusitada e surpreendente, conforme sempre acreditara e colocara em prática, Israel perderia a guerra do Yom Kipur.

Em 1977, depois de quase trinta anos de domínio do Partido Trabalhista, Menachem Begin, líder do Likud, foi eleito primeiro-ministro. Sua decisão de convocar Moshe Dayan para ocupar o posto de ministro das relações exteriores surpreendeu a todos, dentro e fora de Israel. Nessa função, ele se revelou um diplomata de alta categoria, empenhando-se em aprofundar o relacionamento entre Israel e os Estados Unidos, único país que ele realmente considerava como aliado de Israel. Foi fundamental sua perspectiva do futuro e a assessoria em assuntos de segurança nas negociações de paz com Sadat, mediadas pelo presidente Jimmy Carter. Depois de batalhar dois anos contra um câncer, Moshe Dayan faleceu no dia 15 de outubro de 1981. No último parágrafo de sua autobiografia, lê-se: "Nós temos que aprender a viver e a lutar na difícil realidade política do nosso tempo. Mas, a maior obrigação é ir de encontro à nossa própria visão de moldar um estado pioneiro, uma sociedade criativa que floresça dos frutos de seu trabalho, um estado corajoso, pronto para lutar até a morte para se defender, um povo com idéias e ideais se esforçando para alcançar seu propósito histórico e nacional: o renascimento da nação judaica em sua Pátria".

Zevi Ghivelder é escritor e jornalista

Bibliografia:

Dayan, Moshe, Story of my Life, Steimatzky Agency, Israel, 1976.