Morashá
ISAAC BASHEVIS SINGER Foto Ilustrativa

ISAAC BASHEVIS SINGER

Ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 1978, é considerado o maior escritor em língua iídiche do século XX. Testemunho inestimável de uma cultura em desaparecimento e grande contador de histórias.

Edição 33 - Junho de 2001



Combinando sensibilidade psicológica sutil, profunda simpatia com as excentricidades do folclore judaico e uma infalível percepção do heroísmo da vida cotidiana, trouxe para o mundo de língua inglesa o ambiente vibrante do judaísmo polonês antes do Holocausto e forneceu uma imagem dessa humanidade e de sua cultura, insuperada até hoje.

A trajetória singular de Singer inicia com uma infância e juventude muito pobres mas estimulantes, intelectualmente, na Polônia, no seio de uma família brilhante. Passa depois pelas lutas e dúvidas do imigrante solitário em Nova York, em meados dos anos 30, até chegar ao ápice da fama literária. Atravessa as contradições deixadas por um pai místico e uma mãe racionalista, a competição com o irmão mais velho, também escritor, e uma infância solitária e negligenciada, fatores que fizeram com que ele encontrasse na ficção refúgio e compensação. A solidão crescia, alimentada pela consciência de que seu público de língua iídiche, para quem escrevia e em quem se inspirava, estava-se extinguindo. Anos de depressão e problemas de relacionamento com o irmão, a irmã e o filho denotam uma personalidade bem diferente da imagem do avô simples, transmitida aos leitores de língua inglesa. A voz ingênua do representante da cultura folclórica judaica era também a de um artista sofisticado e de um crítico ácido. Figura extremamente complexa, atormentada por suas contradições e por um profundo sofrimento pessoal, soube transformar seu fardo em maravilhosa literatura, impregnada de compaixão.

Isaac Bashevis Singer, o escritor que transmitiu a vida judaica da Europa Oriental ao público de língua inglesa, convenceu seus leitores que ele personificava a essência do tradicional yidishkait, o mundo da Torá, do shtetl, das leis e rituais judaicos. Em parte, com razão, já que fora criado num lar repleto de religião e estudos, e também, na pobreza característica do judaísmo polonês.

Histórico familiar

Singer nasceu em 14 de julho de 1904. Seu pai, Pinkhos Menachem era um chassid seguidor do Rebe de Ratzymin. Era o rabino extra-oficial da rua Krochmalna, onde moravam. Pessoa calorosa e gentil, era amado e respeitado por sua congregação, mas foi um pai distraído e ausente.

A mãe, Basheve, era uma mulher inteligente, cujo preparo intelectual era incomum entre as mulheres de seu meio. Era uma racionalista, tudo tinha sua lógica, seu rationale. Basheve era filha do rabino de Bilgoray, que liderava uma comunidade de 10 mil judeus e era um mitnagued, um oponente do chassidismo. Se o pai era sereno e otimista, a mãe era severa e fria. Era uma mulher melancólica e depressiva, que se refugiava avidamente na leitura. Singer dizia de seus pais que “seriam um casal combinado se ela fosse o marido e ele a esposa. Até fisicamente cada um parecia mais talhado para o papel do outro”.

Em termos tradicionais, a ambos faltava uma adequação completa a seus respectivos papéis. O lar dos Singer era sombrio e sem alegria. Mas os três filhos reverteriam na literatura a expressão de sua frustração pela falta de calor humano e de atenção.

Isaac tinha uma irmã e um irmão mais velhos, Hinde Esther e Israel Yehoshua, e um irmão mais novo. De Israel Yehoshua (1893-1944), Isaac diz: “Ele não foi para mim um irmão; eu via nele meu mestre, meu professor”. Israel Yehoshua, dez anos mais velho, foi seu herói e modelo, cujo exemplo ele imitou até na escolha da carreira e na opção pelo secularismo. Carismático e rebelde, mas responsável, era quem tomava as decisões na família. Ele introduziu Isaac nos círculos literários de Varsóvia e o salvou do nazismo, facilitando sua emigração para os Estados Unidos.

A irmã, Hinde Esther (1891-1954), treze anos mais velha, era a figura menos valorizada da família, rejeitada pela mãe e incompreendida pelo pai. “Sofria de histeria e de uma leve forma de epilepsia. Às vezes parecia possuída por um dibuk”. Hinde Esther era dramática, emotiva e representava a única fonte de calor e carinho para a família inteira.

Histórico pessoal

Nas obras de Isaac Bashevis Singer se destaca uma combinação única de sofisticação, ingenuidade, solidão, desamparo, tenacidade e charme, que invadem seu trabalho. Essas qualidades são o resultado do lar singular dos Singer. Originam-se na rua Krochmalna e nas cidadezinhas de Radzimin e Bilgoray, onde o menino Isaac testemunhou os conflitos entre tradição e modernidade, masculino e feminino, depressão e entusiasmo, entre razão e misticismo.

Diferentemente de seus irmãos, ele começou a contar sua história somente depois que todos, inclusive os irmãos, haviam morrido. Por isso, seus retratos são menos mordazes e mais elegíacos.

Isaac crescia como uma criança solitária e introvertida que gostava de observar o mundo mantendo uma distância de segurança. “Meus pensamentos, que não eram iguais aos dos outros meninos, tornavam-me orgulhoso e solitário”. Em meio à dura realidade, a ficção começa a insinuar-se como único meio de salvação e consolo.

Aos treze anos, seguiu a mãe e o irmão menor para Bilgoray, onde vivia a numerosa família materna. Apesar da solidão e da estagnação do lugar, onde seu único prazer era a leitura a que se dedicava com voracidade, Bilgoray lhe forneceu ricas impressões emocionais e físicas, e uma paisagem interior que não o abandonaria nem após meio século de vida nos Estados Unidos.

No início da década de 20, já com dezoito anos e incapaz de agüentar mais um dia em Bilgoray, Isaac se mudava para Varsóvia para ficar com o irmão mais velho, Israel Yehoshua.

“De todos os problemas de que eu sofria na juventude, a timidez era talvez o mais grave e o mais engraçado. Eu me sentia envergonhado e não sabia realmente de que. Era minha roupa? Era meu cabelo ruivo? Ou era o fato de não conseguir ganhar um tostão, de não ter uma profissão, uma educação formal, de não saber falar polonês como se deve?”

Em Varsóvia, o irmão introduziu Isaac no Clube dos Escritores em Iídiche, que logo se tornaria sua casa e sua escola: “Um centro de idéias, aspirações, teorias, fantasias, sonhos”, em que todas as correntes e ideologias coexistiam. No clube, Isaac, a quem faltou uma educação secular formal, devorava os textos, desde Tolstoi a Spinoza, Thomas Mann, Cabalá, Platão. Lá também fizera amizades que o acompanhariam pelo resto da vida. Nesses anos, investia em sua formação como escritor. Sua maneira de escrever era de contador de histórias. Suas histórias tinham tanta força, que às vezes ele mesmo as confundia com a realidade. Sua compulsão para escrever derivava de sua infelicidade: “Eu não podia ser o tipo de judeu que meus pais religiosos queriam que eu me tornasse; também não podia e não queria tornar-me um não-judeu...”

Ele começou a publicar sob o nome de Yitshok Bashevis, com que seria conhecido por seu público de leitores em iídiche. O uso do matronímico indica sua escolha pela identificação com o racionalismo materno.

No clube, Isaac teve suas primeiras experiências amorosas e conheceu Ronye, com que teve seu único filho, Yisrael. Bashevis era incapaz de assumir o papel de marido e pai – continuava atormentado e infeliz. Sua preocupação emocional resultou na produção de sua primeira obra realmente importante: “Satã em Goray”, publicada em 1935. Ambientada no século XVII na Polônia, época de violentos pogroms e do surgimento do falso messias Shabetai Zvi, é a história de Rekhele, uma infeliz moça histérica e epiléptica, como sua irmã Hinde. Se acreditava que fosse possuída por um demônio. A experiência afetiva da moça consiste em ser abandonada e rejeitada. A história é um trabalho elaborado sobre a insanidade e desequilíbrio emocional.

América

Em 1935, a vida profissional de Bashevis parecia estar decolando, enquanto a vida pessoal ficava mais complicada. Era para seu filho, Yisrael, um pai muito mais ausente do que fora o seu próprio. Como em ocasiões anteriores, a salvação veio novamente do irmão mais velho, Israel Yehoshua, que na época vivia em Nova York, depois que sua obra “Moshe Kalb” fora adaptado com sucesso para o teatro. Este mandou chamar Isaac, arranjou-lhe o visto e um emprego na revista “Yidish Forverts”. Bashevis deixava para trás a mãe e o irmão menor, que nunca mais ia rever, e o filho, de quem ficaria separado durante vinte anos.

Sua chegada a Nova York, em maio de 1935, precipitou-o em uma crise de declínio e desespero que ameaçava incapacitá-lo. Ficou com um bloqueio e não conseguia mais escrever. Numa carta a um amigo, dizia: “... em Nova York vejo mais claramente que na Polônia que não há literatura iídiche e que não há para quem trabalhar...” e “... a literatura iídiche é a mais desnecessária... Nós temos absoluta liberdade; não temos leitores...”

Bashevis continuaria afundando na solidão e na depressão: “Eu passava o dia inteiro na cama”. Apresentava fastidiosos sintomas psicossomáticos.


No verão de 1937, finalmente Isaac encontrou sua futura mulher, Alma. Não podia achar uma mulher com quem tivesse menos em comum. Vinha de um lar completamente assimilado, em Munique; filha de um rico comerciante, recebera uma boa educação e desenvolvera um gosto para literatura embora não falasse uma palavra de iídiche e fosse completamente estranha ao mundo que populava o imaginário de Bashevis. Era casada, com dois filhos. Nem era tão boa dona de casa, mas sua devoção era tenaz e o casal continuou inseparável desde o casamento, em 1940, até a morte de Isaac, em 1991. Alma dizia: “Eu senti que devia passar o resto de minha vida ao lado dele, portanto tinha de abrir mão do meu casamento e dos meus filhos, o que representava uma decisão muito difícil e terrível de se tomar. Mas, às vezes, tem-se que agir e eu nunca me arrependi”. Em 1943, Bashevis voltou à tona publicando dois ensaios inteligentes e criativos: “A respeito da literatura iídiche”, análise literária e cultural brilhante que marcava o fim do bloqueio do autor. Nos anos a seguir, a verdadeira força de sua energia criativa ia-se manifestar. Bashevis se sentira investido da missão de fazer reviver o passado de seus pais e avós. Seus personagens falariam na enorme variedade de dialetos poloneses, discutindo seus conflitos sobre D’us, a comunidade e suas próprias almas judias. Mais tarde diria: “Eu estava até preparado a nunca ser traduzido, a nunca me tornar conhecido, a permanecer um escritor iídiche”. O ano de 1945 fora qualitativamente muito rico. No “A Família Muskat”, Bashevis imortalizava um mundo à beira da aniquilação, captando suas lutas, fraquezas, inconsistências e nobreza. A história é repleta de insinuações autobiográficas e familiares, e é dedicada à memória do irmão Israel Yehoshua, vítima, no ano anterior, aos cinqüenta anos de idade, de um infarto fulminante. Era uma premonição profética sobre o fim do judaísmo da Europa Oriental, focalizando sua atenção sobre a perda de valores e de moral.

No mesmo ano, Bashevis publicou três breves histórias: “O pequeno sapateiro”, “Gimpel, o tolo” e “A sexta-feira breve”, que destacam o clima e a atmosfera do shtetl, que nutriu o imaginário de Bashevis durante sua estadia em Bilgoray. O clima nas três histórias é lírico e repleto de ternura. Abba é um modesto sapateiro. Seus sete filhos vivem em Nova Jersey, onde continuam a tradição profissional da família. Quando a Polônia é invadida pelos nazistas, os filhos conseguem tirar o pai da Europa e trazê-lo para perto deles. Abba se sente como o patriarca Jacó, quando chega ao Egito para encontrar seu filho José. Nota com orgulho que seus filhos preservam as tradições judaicas e observam os ritos dos antepassados. A mensagem de Bashevis é que Hitler – como o faraó – não conseguiu destruir a tradição e a resistência dos judeus, e que o judaísmo da Europa Oriental podia ser transplantado ao solo americano.

“Gimpel, o tolo” é ambientada na era pré-moderna. Gimpel é enganado e ridicularizado por todo mundo, mas com sua ingenuidade, acaba levando a melhor porque sua fé é inabalável: “Eu resolvi que ia acreditar em tudo o que me diziam. O que há de bom em não se acreditar? Hoje você não acredita em sua mulher; amanhã você começa a duvidar do próprio D’us”. A verdade é subjetiva e a fé é superior à dúvida: “... mais eu vivia, mais entendia que não havia mentiras. O que não acontece na realidade é sonhado à noite. Acontece para um se não acontece para outro, amanhã se não hoje, ou daqui a um século se não o ano que vem”.

“Uma breve sexta-feira” é ambientada numa pequena aldeia fora do tempo. É a história de um alfaiate e de sua fiel esposa, que vivem unicamente para servir a D’us e para se amar e respeitar um ao outro. Das tarefas a que se dedicam com amor, a preferida é o preparo do Shabat. Num Shabat, fizeram sua refeição como de costume e foram dormir. Começaram a sentir um certo peso. A esposa ficou preocupada que algo estivesse queimando no forno, que eles não podiam apagar no dia do descanso. Mas o marido a convenceu a não abrir a janela para que a casinha não ficasse gelada. Na mesma noite o casal morreu asfixiado. Reencontraram-se unidos na sepultura como haviam sido em vida. Um anjo de D’us desceu para guiá-los ao paraíso. A mensagem de Bashevis é que mesmo que o judaísmo da Europa Oriental tenha desaparecido, sobrevive com seu amor e santidade no mundo da memória, onde brilha eternamente.

De Bashevis para Singer

Nos anos seguintes, a maior mudança na vida de Singer foi o ingresso no mundo da tradução para o inglês. As conseqüências seriam enormes e levariam, quase trinta anos depois, ao Prêmio Nobel. Durante a trajetória, Bashevis, com sua língua afiada, seus conflitos, seu gênio áspero, se transformaria gradualmente em Isaac Bashevis Singer, ou simplesmente, Isaac Singer, um curio-so senhor vegetariano que gosta de alimentar os pombinhos e que personifica com serenidade e gentileza os valores eternos do judaísmo leste-europeu. A primeira obra a aparecer traduzida em inglês foi a “Família Muskat”, em 1950, que logo se tornou um best-seller. Seguiu-se dois anos depois “Gimpel, o tolo”, magistralmente traduzida por Saul Bellow, publicada em uma prestigiosa revista, também um grande sucesso. No início dos anos 60, dois outros livros foram traduzidos: “O Mágico de Lublin” e “O Escravo”. Neles os protagonistas descobrem o significado da atração pelo mundo não-judaico. O próprio Bashevis se sentia intrigado pelo ambiente que o envolvia e era aceito por este, pelo menos superficialmente. Ao mesmo tempo, estava psicologicamente a mundos de distância do seu novo meio e se sentia dolorosamente deslocado.

Os críticos e a imprensa em língua inglesa não sempre compreenderam plenamente Singer. Por exemplo, em “Yentl, o rapaz da Yeshivá”, não entenderam que dizia respeito ao desejo feminino de estudar em um ambiente que frustrava este tipo de aspiração em uma mulher. Talvez fosse uma homenagem às mulheres de sua família ou até uma reprodução da confusão de gênero a que presenciou, que se estendera durante várias gerações em sua família.

Por sugestão de uma de suas tradutoras, Singer se dedicou, com igual talento, a escrever histórias infantis. Entre elas, se destacam “A cabra Zlateh” e “O sonho de Menaseh”. Menaseh é um órfão e sua maior aspiração é poder se reunir a seus pais de quem se perdera. Um dia descobre um palácio mágico onde encontra sua família. Na primeira sala encontrou todas as roupas que algum dia tinha usado em sua vida. Na segunda sala descobriu todos os brinquedos que tivera. Na terceira sala, todas as bolhas de sabão que já soprara. Na quarta sala, todas as vozes que já ouvira. A quinta sala era reservada a todas as historinhas que já lhe tinham contado. Na sexta sala eram preservados todos os seus sonhos. Na sétima sala Menaseh encontrou seu futuro.

A história é uma fantasia tocante sobre a capacidade do ser humano de reter seu passado especialmente por meio dos sonhos, das palavras e das histórias: tudo continua vivo e nada se perde no tempo.

No início dos anos setenta, Isaac Bashevis Singer não se identificava mais com Ytzhok Bashevis, o escritor iídiche áspero que precisava se destacar do irmão. Nem precisava mais distanciar-se de seu pai, que aparece como uma figura admirável e exemplar. Os dois estavam mortos há tempos. Singer podia cultivar uma imagem nostálgica, repleta de calor humano e de sentimento tão cara a seu público. Se afirmava como o cronista da vida dos imigrantes e a testemunha de um mundo em via de desaparecimento.

O Prêmio Nobel

Em 5 de outubro de 1978, Singer foi agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura. A Academia Sueca citou no anúncio: “... sua melancolia redentora, seu senso de humor, sua clareza de visão livre de ilusão (descreve) o mundo e a vida do judaísmo leste-europeu tal eram vividos em cidades e aldeias, na pobreza e na perseguição, impregnados de uma piedade sincera e ritos que combinam fé cega e superstição – sua língua era iídiche – língua de gente simples”.

O prêmio comemorava o trabalho de uma alma nostálgica e humilde que representava fielmente o belo mas trágico mundo de uma sociedade profundamente moral e pia, cruelmente extinta pelo holocausto nazista.

Singer recebeu o prêmio com modéstia: “Ontem eu era um escritor iídiche, hoje sou agraciado com o Nobel, amanhã serei um escritor iídiche. Sou grato (pelo prêmio), mas ao mesmo tempo sinto pelos escritores maiores do que eu que não o receberam”. No mundo de língua iídiche, o prêmio foi recebido com alegria: o iídiche alcançava dignidade aos olhos de um público de não-judeus. “Eu não sou o único vencedor do prêmio. Compartilho-o com todos meus leitores e com todos os amantes da língua iídiche”.

Na outorga do prêmio, assim soava o discurso de Singer perante a Academia Sueca: “... reconhecimento da língua iídiche – língua de exílio, sem terra, sem fronteiras, não sustentada por nenhum governo. (...) O ‘gueto’ não era apenas um local de refúgio para uma minoria perseguida, mas uma grande experiência de paz, auto-disciplina e humanismo. Eu fui criado no meio dessa gente” e “não tenho vergonha de admitir que pertenço àqueles que acreditam que a literatura é capaz de abrir novos horizontes e novas perspectivas – filosóficas, religiosas, estéticas e até sociais. Na história da literatura judaica antiga não havia diferença entre o poeta e o profeta... Freqüentemente cultivo a idéia que quando todas as teorias sociais entram em colapso e quando guerras e revoluções afundam a humanidade nas trevas, pode surgir o poeta para nos salvar. (...) De meu irmão e mestre Israel Yehoshua Singer eu ouvi, quando criança, todos os argumentos que os racionalistas colocaram contra a religião. De meu pai e minha mãe ouvi todas as respostas que a fé em D’us pode oferecer aos que duvidam e buscam a verdade. Em nossa casa, as questões eternas eram mais atuais que as últimas notícias no jornal. Apesar do meu desencantamento e do meu ceticismo, acredito que as nações do mundo tenham muito para aprender desses judeus”. Disse também que com o dinheiro do prêmio compraria uma nova máquina de escrever com caracteres iídiches, porque a dele, de 40 anos atrás, se recusava a funcionar quando não gostava do que ele escrevia. Singer insistia que continuaria a escrever também depois do Prêmio Nobel: “Que outra coisa teria para fazer um homem da minha idade?” Nos treze anos que transcorreram entre o prêmio e sua morte, em 1991, apareceram dois romances em inglês, um deles “O Penitente”.

Ele já estava com setenta e quatro anos ao receber o Nobel. Seu público crescia especialmente porque sua obra começava a ser produzida por outros meios de comunicação, teatro, cinema e televisão, com a participação ativa do autor. Singer desaprovou a versão cinematográfica de Yentl, feita por Barbara Streisand. A adaptação de “Inimigos, uma história de amor”, por Paul Mazursky, foi um grande sucesso cinematográfico de crítica e público.

Alma, que nos primeiros vinte e cinco anos de casamento foi a provedora da família com seu emprego na loja de departamentos Lord and Taylor, foi uma mulher exemplar quando chegou a hora de cuidar do marido doente. Em seus últimos anos de vida, Singer foi vítima do Mal de Alzheimer. Perdeu a memória e até a capacidade de reconhecer membros da família.

Isaac Bashevis Singer faleceu em 1991, aos 87 anos de idade. Seu filho, israelense, Yisrael Zamir queria que ele fosse enterrado em Israel, para que seu túmulo fosse homenageado por iidichistas, intelectuais e turistas, mas Alma recusou e o enterrou em Nova Jersey. Alma Singer faleceu em 1996.


Bibliografia:
Janet Hadda, “Isaac Bashevis Singer – a life”: Oxford University Press. New York, 1997.