Morashá
Doña Gracia Nasi Foto Ilustrativa

Doña Gracia Nasi

A Europa renascentista do séc. 16, os horrores da Inquisição e o poderio do Império Otomano são o pano de fundo Para a vida de Doña Gracia Nasi. nascida em portugal, O destino a coloca, ainda jovem, à frente do império dos Mendes, família das mais ricas e poderosas da Europa renascentista.

Edição 56 - Abril de 2007


"La Señora", como também era chamada, foi uma mulher extraordinária que marcou de forma profunda a história dos judeus sefaraditas. Doña Gracia tanto era respeitada e admirada por seu poder financeiro, cultura e elegância quanto pela firmeza de caráter e compaixão que a distinguiam. Estava sempre pronta a ajudar seu povo e a assegurar a sobrevivência "dos remanescentes de Israel". Desempenhou também relevante papel na vida econômica e política de vários países. Destemida, enfrentou reis e rainhas, não se deixando intimidar por ser mulher nem por seu "sangue judeu".

La Señora viveu em uma época turbulenta e perigosa para os judeus, na Península Ibérica. Sua expulsão da Espanha, em 1492, e a conversão forçada, em Portugal, em 1497, haviam desencadeado um período de muito sofrimento. Os Mendes, assim como milhares de outros judeus, escolheram o exílio à conversão, na Espanha de 1492. Mas, quando pensavam ter encontrado refúgio em Portugal, foram brutalmente forçados a aceitar o batismo, tornando-se "conversos" - anusim, em hebraico. Também chamados de cristãos novos ou, de forma pejorativa, "marranos", os recém-convertidos eram cristãos na aparência, mas judeus fiéis às Leis de Moisés no coração.

Em 1535, após a repentina morte do marido, D. Gracia, além da imensa fortuna dos Mendes, herda a missão de proteger os conversos. Passa a dedicar a vida e grande parte de seu patrimônio a seu povo. Suas vicissitudes se entrelaçam com a dos "remanescentes de Israel", dos quais se torna líder e fonte de orgulho. Enquanto permaneceu na Europa, sua vida foi uma constante fuga e ela só encontra um abrigo seguro quando se estabelece no Império Otomano, onde assume abertamente a fé ancestral de seu povo.

Afirmar que La Señora salvou a vida de milhares de judeus das garras da Inquisição é subestimar seu vital papel. Samuel Uísque, famoso cronista judeu, na obra Consolação às Tribulações de Israel, a chama de "coração" de seu povo. No entanto, apesar de seu povo se ter apaixonado por ela, seu nome esteve praticamente esquecido pelas grandes massas, durante séculos. Nem se tem uma imagem de D. Gracia. A única efígie que se acreditava ser dela, cunhada em uma moeda da época, não lhe pertence - trata-se de sua sobrinha, também chamada de Gracia Nasi. Apenas os acadêmicos conheciam sua vida até que, em 1948, Cecil Roth publica o livro Doña Gracia, of the House of Nasi. Em 2002, uma biografia publicada pela jornalista e escritora Andrée A. Brooks, especialista em História Sefaradita, revelou novos fatos sobre a vida da grande dama e da época em que viveu. Durante seis anos, a autora pesquisou milhares de documentos, em sete países. O resultado foi uma rica biografia intitulada The Woman who Defied Kings, a mulher que desafiou reis.

Infância em Portugal

Doña Gracia nasceu em Lisboa, no seio de proeminente família de conversos, em meados de 1510. Seu pai, Álvaro, era um rico comerciante. A mãe, Filipa, pertencia à outra poderosa família de conversos, os Benevistes. Gracia, assim como a irmã, Brianda, casa-se com um dos irmãos de sua mãe. A história das duas famílias se entrelaça. Em 1492, faziam parte do grupo de seiscentas famílias abastadas de judeus espanhóis que obtiveram permissão para entrar e se estabelecer em Portugal, por tempo indeterminado. Convertidos à força, em Portugal, durante os terríveis acontecimentos de 1497 (ver artigo pág. 44), a família paterna de Gracia adotou o sobrenome cristão "de Luna", enquanto os Benevistes optam pelo nome "Mendes". E assim como milhares de outros conversos, passaram a viver como judeus secretos, procurando preservar sua religião e identidade, apesar da perseguição constante.

Ao ser batizada, Gracia recebeu o nome cristão de Beatrice de Luna, que era obrigada a usar para o mundo exterior e que consta na maioria dos documentos oficiais da época. Mas, como era costume entre os conversos, recebeu o nome judaico de Gracia. Usaria este nome só na intimidade, até chegar às terras otomanas e voltar abertamente ao judaísmo. Apesar de haver milhares de documentos sobre sua vida adulta, não foram encontrados relatos diretos de seus primeiros anos. Extremamente inteligente, Gracia recebera sólida educação e provavelmente também boa formação judaica. Pois, por ocasião da conversão forçada, D. Manuel prometera não devassar, por 20 anos, a vida dos recém-convertidos. Elegante e sofisticada, seus modos eram impecáveis. Uma verdadeira rainha, "ha-Guiveret", como seu povo a chamava, La Señora tinha grande apego ao judaísmo e o fato de ser uma conversa norteou toda sua vida. Não suportando o fingimento que era imposto a seu povo, almejava viver em lugar onde não precisasse manter sua condição judaica em segredo.

A "Casa dos Mendes"

Em 1528, ao se casar com Francisco Mendes, seu tio materno e um dos homens mais poderosos de Portugal, Doña Gracia dá o primeiro passo em direção ao lugar central que ocuparia na história judaica. Francisco constituíra um império comercial e financeiro, juntamente com o irmão, Diogo. Tendo filiais em Lisboa e Antuérpia, onde este último se fixara, em 1512, a "Casa dos Mendes", uma das mais poderosas da Europa renascentista, tinha interesses econômicos em vários países. Concedia também vultosos empréstimos a governantes, entre os quais o Imperador Carlos V, rei de Portugal, e Henrique VIII, da Inglaterra.

A família Mendes nunca abandonou as Leis de Moisés. Documentos emitidos por cortes judaicas se referem a Francisco e a Diogo como "Rabis Anusim", os que conduziam as orações entre os conversos. E era em prol destes que os irmãos trabalhavam, pois tinham profundo senso de responsabilidade por seu povo, um sentimento que não media desafios ou perigos.A organização, extensão e complexidade das operações coordenadas pelos irmãos Mendes e outros conversos contradizem a noção de que os judeus da época não se organizaram para lutar contra as perseguições. Durante anos lideraram os esforços para tentar impedir a instalação da Inquisição em Portugal. Seu rei, afundado em dívidas, visando apoderar-se da riqueza dos conversos, pedira ao Vaticano sua instalação. Como a Inquisição somente podia ser estabelecida através de bula papal, altas somas eram periodicamente enviadas à Cúria romana pelos judeus convertidos. Não era segredo, em Portugal, que a haviam subornado. Mas, cientes de que esta acabaria sendo instalada, montaram e financiaram - a partir de 1531 até meados de 1555 - rotas de fuga para os que quisessem viver em regiões mais tolerantes. Apesar dos perigos que teriam que enfrentar, a simples idéia de apodrecer nas prisões portuguesas ou morrer nas fogueiras inquisitoriais fazia milhares de pessoas optarem pela fuga. Rabi Yeoshua Soncino, erudito do século 16, fez a seguinte afirmação sobre os Mendes: "...Ajudavam seus irmãos de corpo e alma... entendendo ser maior a mitzvá de favorecer os demais do que a de salvar a própria vida".

Em 1535, Francisco morre, repentinamente, deixando sua parte na incalculável fortuna dos Mendes para Doña Gracia e sua única filha, Anna, conhecida por seu nome hebraico, Reyna. A jovem viúva tornava-se, assim, responsável não apenas pelos negócios da família, mas também pelo prosseguimento das atividades clandestinas do marido. Dona de seu destino, passa a tomar suas próprias decisões. Deste privilégio não irá mais abrir mão e, apesar de sua juventude e solidão, decide não voltar a se casar.

A primeira fuga: de Lisboa para Antuérpia

Dois acontecimentos fazem-na ver que chegara a hora de deixar Lisboa. Em 1536, o Vaticano autoriza a instalação da Inquisição, em Portugal. Some-se a isso o fato de o Rei português, querendo apoderar-se da fortuna dos Mendes, tenta levar Reyna para a Corte para casá-la com um cristão-velho e, assim, pôr as mãos na herança da jovem. D. Gracia não perde tempo. Alegando ter negócios na Antuérpia, consegue do Rei a permissão de sair de Portugal, acompanhada da irmã Brianda, da filha Reyna e de Juan e Bernardo Micas (nomes cristãos de D. Joseph e D. Samuel Nasi). Seu cunhado Diogo organiza a fuga. Seria a primeira de muitas.

Aos 27 anos, chega à Antuérpia, onde é recebida de braços abertos. Durante toda sua vida, foi vista como uma oportunidade de ouro, onde chegava, pois, além de todos os negócios que levava consigo, ela própria era um chamariz para que outros conversos, ricos e talentosos, a seguissem. Doña Gracia podia também conceder vultosos empréstimos a governantes e poderosos, e em várias ocasiões, usou esta arma para salvar a vida de milhares de judeus.Na Antuérpia, próspero centro comercial, que integrava os domínios do Imperador Carlos V, Gracia passa a trabalhar com o cunhado Diogo. Em pouco tempo, torna-se uma hábil mulher de negócios e aprende sobre as rotas de fuga, cada vez mais essenciais, à medida que aumentava a pressão da Inquisição.

Em 1538, um ano após sua chegada na Antuérpia, Ercole II, Duque de Ferrara, faz o primeiro contato diplomático com Doña Gracia para convencê-la a viver em seus domínios. Antes de considerar a proposta, ela faz uma exigência: qualquer converso que se estabelecesse em Ferrara teria permissão de voltar à sua fé, com garantias de não enfrentar a Inquisição, no futuro. Ansioso em ter a riqueza e conhecimentos dos judeus ibéricos em seus domínios, o duque concorda. Ferrara torna-se, assim, o único refúgio seguro, na Europa cristã, onde os conversos podiam voltar à sua fé sem temer represálias - isto é, até a morte de Ercole II. A própria Doña Gracia só iria para Ferrara dez anos mais tarde, em 1548.

Na Antuérpia, torna-se mais intensa a perseguição aos conversos e La Señora consegue convencer Diogo a deixar a cidade, mas ele acaba falecendo, em 1543. Conhecedor das habilidades da cunhada, de sua força de caráter e comprometimento com a causa dos conversos, Diogo a nomeia, em testamento, tutora da filha e responsável pela administração de seu patrimônio. No futuro, este fato iria provocar graves desavenças entre ela e a irmã Brianda, esposa de Diogo. Aos 33 anos, Gracia Mendes assume o comando de uma das maiores fortunas da Europa renascentista. Habilmente consegue impedir o confisco dos bens do cunhado pelo Imperador Carlos V e pela rainha Marie.

Mas, endividado, o imperador não pretendia desistir da fortuna dos Mendes e, no ano seguinte, arquiteta casar a jovem Reyna com um nobre cristão. Quando Doña Gracia é convocada pela rainha para tratar da boda, indignada afirma que não haveria casamento algum. Preferia "morta e afogada a filha do que casada com um cristão". Apesar de saber que sua recusa teria graves conseqüências, filha sua não se casaria fora de sua fé.

Logo a seguir, recrudesce a perseguição aos conversos e Doña Gracia decide deixar para sempre a Antuérpia. Mas, não partiu sem antes conseguir a libertação de todos os conversos presos e reaver a alta soma que fora obrigada a emprestar à Coroa, após a morte de Diogo. Tinha melhor uso para o dinheiro do que deixá-lo nas mãos de governantes cristãos. Em 1544, deixa a cidade com a filha, a irmã, a sobrinha, Don José e Don Samuel e seus auxiliares - todos conversos. O destino, Veneza.

A vida na Itália

Após uma viagem longa e difícil pelas estradas da Europa, no final de 1545, Doña Gracia e sua comitiva chegam a Veneza. Na época, viviam na cidade cerca de 1.300 judeus. Para ela, talvez tenha sido a primeira vez em que teve contato com judeus que seguiam abertamente sua fé. Apesar da relativa tolerância dos venezianos, desde 1516 os judeus eram obrigados a viver dentro do gueto. Mas, como os Mendes mantinham a aparência de cristãos, em momento algum lhes foi sugerido viver no gueto ou usar roupas especiais.

De fato, naquela época, contanto que se mantivessem as aparências, pouco importava aos líderes da Sereníssima que, na intimidade, os conversos seguissem as Leis de Moisés. O que importava era o inestimável valor comercial e financeiro que a presença de Doña Gracia trazia à cidade.

Em 1548, quando uma relutante Veneza cede às pressões papais e a Inquisição se instala na cidade, Doña Gracia inicia os planos para sua ida para o Império Otomano. Entretanto, a rivalidade entre as irmãs Gracia e Brianda torna-se briga declarada. Brianda estava decidida a ter acesso à herança do marido e não queria viver com a irmã no Império Otomano. Por seu lado, Gracia considerava a fortuna dos Mendes um legado sagrado, a ser usado para ajudar o seu povo, e, conhecendo os hábitos perdulários da irmã e sua falta de comprometimento com a missão da família, não a quer próxima à fortuna. Brianda, então, toma a terrível decisão de denunciar a irmã ao Senado veneziano. Revela-lhes que ela era judaizante - acusação gravíssima à época - e, como se não bastasse, que pretendia estabelecer-se no Império Otomano, levando consigo toda a sua fortuna.

Mais uma vez Doña Gracia demonstra estar sempre um passo à frente de seus inimigos. Não espera para ser convocada perante o Senado e foge, em 1548, para Ferrara. Ao mesmo tempo, informa ao sultão Suleiman, o Magnífico (1520-1566), sua intenção de viver no Império Otomano. Ao sultão agradava a idéia de ter uma banqueira com tamanha fama internacional em seus domínios. Sua proteção se tornaria um fator determinante para a futura segurança da família Mendes.

Historiadores têm levantado a hipótese de ter sido em Ferrara que Doña Gracia voltou abertamente ao judaísmo. No entanto, os documentos pesquisados por Andrée A. Brooks desmentem a versão. Mas, sem dúvida, foi lá que D. Gracia se torna uma grande mecenas, realizando sua antiga paixão - editar livros. Queria, com isso, preservar o judaísmo para uma geração que perdera contato com sua história, cultura e tradições. Estava determinada a transmitir, às futuras gerações, os conhecimentos necessários para enriquecer a alma.

Quatro importantes obras publicadas na cidade levam dedicatórias pessoais à sua pessoa. Uma é a famosa Bíblia Hebraica, conhecida como Bíblia de Ferrara, publicada em1552. Traduzida para o ladino, a obra vai ser utilizada, nos séculos 16 e 17, por todos aqueles que não sabiam ler hebraico. Em 1553, Samuel Uísque publica Consolação às Atribulações de Israel, onde retrata os trágicos acontecimentos que se abateram sobre os judeus da Península Ibérica e a dedica "àquela que, por sua benevolência, tornara-se credora da gratidão de todos os judeus portugueses".

A partir de 1552, a Inquisição se alastra com mais força por toda a Europa; e, com esta, o ódio em relação aos judeus e conversos. Mesmo a Itália, até então relativamente tolerante, tornara-se perigosa. Doña Gracia sabia que chegara a hora de deixar o continente europeu, para sempre. Volta por um breve período a Veneza, apenas a caminho do Império Otomano. Só consegue seguir viagem com sua filha Reyna, no outono de 1552, graças à intervenção pessoal do sultão Suleiman, que enviara um representante pessoal à Sereníssima com a ordem de acompanhar a comitiva até terras turcas.

Devem ter sido momentos difíceis para La Señora. Além de ter que abandonar tudo o que conhecia para viver em terras estranhas e enfrentar uma viagem perigosa, não conseguira cumprir os desejos de Diogo. Não consegue levar consigo a irmã Brianda nem a sobrinha, Gracia, La Chica. Deixa-as para trás, em meio a grandes perigos. Em Roma,o papa Julio III ordenara que todos os livros em hebraico fossem queimados e estava sendo atendido mesmo em Veneza e Ferrara. Ademais, o Senado a obrigara a entregar à Brianda parte da fortuna da família - aquele legado que, em seu entender, tinha uma missão muito mais nobre.

Doña Gracia Nasi no Império Otomano

Segundo um cronista da época, a entrada de Doña Gracia em Istambul, em 1553, foi majestosa: "...quarenta cavalos e quatro carruagens cheias de criados e damas espanholas". O sultão Suleiman, o Magnífico, exultava com sua vinda, pois tinha consciência dos benefícios econômicos e financeiros em que o fato implicava. Suleiman atendera uma série de exigências que Gracia impusera, entre as quais a permissão de se vestir como desejasse, e não como a lei muçulmana obrigava os outros judeus a se vestir. Esta extraordinária concessão foi estendida a todos os integrantes de sua comitiva.

Um dos primeiros atos da Señora, foi assumir abertamente o judaísmo. Abandona o nome de Beatrice e passa a usar Gracia, seu nome judaico. Curiosamente não adota o sobrenome Benevistes, mas sim Nasi, cujo significado é o de líder secular e político. Doña Gracia se instala em uma suntuosa mansão no Gálata, bairro perto do Bósforo, habitado por judeus e europeus.

Na época, Istambul já era um importante centro judaico. Para os turcos, este povo era uma talentosa minoria; milhares de refugiados ibéricos, atraídos pela tolerância turca, haviam encontrado refúgio no Império Otomano. Muitos fizeram de Istambul seu lar. Antes de 1492, viviam na cidade apenas mil judeus; em 1553, somavam aproximadamente 15 mil.

No início de 1554, chega a Istambul D. José, seu braço direito, que também retorna abertamente ao judaísmo. É circuncidado e abandona o nome de Juan Micas, adotando o de José Nasi. No ano seguinte, ele desposa Reyna. Um dos maiores sonhos de Doña Gracia se realizava - casara a filha segundo as Leis de Moisés.

Seus negócios prosperaram na Turquia e Gracia se torna líder da comunidade empresarial local.Além disso, devido ao profundo conhecimento dos assuntos ligados à Europa pelas informações que recebia de seus agentes, torna-se influente na corte turca. Em pouco tempo, D. José torna-se amigo e conselheiro do sultão, assumindo papel cada vez mais importante nos assuntos internos turcos e na vida dos judeus.

Fontes judaicas da época se referem a Doña Gracia, nesse período, como ha-Guiveret. Do momento em que apeou de sua carruagem, ocupa entre os judeus do Império Otomano, chamados de levantinos, o status de rainha, de líder absoluto, posição jamais ocupada por uma mulher - muito menos, uma conversa. Sua benevolência e amor pelo judaísmo pareciam não ter limites, sempre acudindo aqueles em perigo ou necessidade. Em seu suntuoso palácio alimentava diariamente cerca de 80 judeus carentes, além de sustentar, em Istambul, um lar para os pobres e doentes. Significativas eram as somas que doava para pagar o resgate de judeus capturados pelos piratas, um dos grandes perigos enfrentados por todos os que cruzavam os mares. Fundou escolas em todo o Império Otomano, estimulou a educação judaica e subsidiou a publicação de livros. Tornou-se patrona da vida religiosa de Istambul, além de fundar sinagogas e ieshivot nas cidades mais importantes do Império. De todas as sinagogas que fundou, só a de Ismir, chamada "La Sinyora", funciona até hoje de forma ininterrupta, apesar de sua estrutura ter sido reconstruída.

Em 1554 cumpre o pedido que Francisco lhe fizera em seu leito de morte - ser enterrado em Jerusalém. Traz da Europa os restos mortais do marido e dos pais, enterrando-os no Monte das Oliveiras. Dois anos mais tarde, é abalada pela notícia da morte de Brianda, em Ferrara. Não querendo ver a sobrinha, Gracia, La Chica, casada com um cristão, ela manda D. Samuel, irmão mais velho de D. José, de volta para Ferrara para com ela se casar. Historiadores acreditam que a famosa medalha com o retrato de Gracia, La Chica, tenha sido cunhada por ocasião do casamento. Só no final de 1559 o casal se muda para Istambul.

Tragédia em Ancona

Apesar de viver longe, ha-Guiveret jamais esqueceu os conversos que ainda estavam na Europa. Em 1556, enfrenta Paulo IV - um dos papas mais anti-semitas da história - em Ancona, importante porto italiano.

Quando, em 1555, o cardeal Caraffa, responsável por transformar a moderada Inquisição italiana em um instrumento de terror, é elevado ao Papado, judeus e conversos da Europa sabiam que grande sofrimento os aguardava. Caraffa odiava os judeus e via todo converso como um apóstata. Um de seus primeiros atos foi a criação do gueto compulsório.

Em 1556, ignorando todos os privilégios outorgados pelos papas anteriores, a Inquisição prende 90 prósperos mercadores conversos, em Ancona, acusando-os de serem judaizantes e apóstatas. Se não houvesse "arrependimento", a pena para tal acusação era a fogueira. Antes que algo pudesse ser feito, os presos foram cruelmente torturados. Segundo um observador da época, os motivos financeiros atrás desta manobra eram fortes, pois esta permitiria que o papa e Carlos Caraffa, seu sobrinho, colocassem as mãos nas riquezas dos conversos. Como resultado das prisões, o caos financeiro se apodera de Ancona. Além dos problemas econômicos criados pelo confisco dos bens dos presos, outros conversos, com medo da Inquisição, fogem da cidade, indo para Pesaro. Nenhum apelo feito por cidadãos de Ancona ao papa, para libertar os conversos, foi aceito. Determinada a enfrentar o Papa Caraffa, D. Gracia pede pessoalmente ao sultão Suleiman para intervir. Atendendo o pedido, o sultão intercede junto ao Papa que, surpreendentemente, recusa o pedido de clemência. Nesse ínterim, 65 prisioneiros conseguem fugir, mas nenhum esforço consegue salvar os 25 restantes. Em junho de 1557, 24 conversos são queimados e um se suicida.

Desta vez, porém, em uma atitude sem precedentes, os judeus estavam prontos para revidar e decidem boicotar o porto de Ancona. Um dos mais atuantes e determinados líderes do movimento é justamente Gracia. Segundo Andrée A. Brooks, apesar de não ser a idealizadora do boicote - como vários historiadores chegaram a acreditar - documentos mostram que ela foi um de seus grandes vetores. Não poupou esforços para convencer outros judeus da necessidade de aderir e respeitar o boicote, alertando-os sobre as conseqüências de um possível fracasso. Infelizmente, o boicote não foi bem-sucedido, já que os os judeus não apresentaram uma frente unida.

Vivência em Tiberíades

No final de sua vida, Doña Gracia tenta realizar um sonho acalentado há mais de uma década - criar um "Estado Judaico", um local seguro que servisse de refúgio para todos os judeus. Como a Terra Santa era então parte do Império Otomano, a idéia se tornara plausível. A Señora escolhe Tiberíades para seu projeto, apesar do local estar, como relatara em 1547 um viajante judeu, "deserto e em ruínas". Em 1560, Gracia apresenta ao sultão Suleiman um pedido formal para o arrendamento do local. Foi imediatamente atendida.

Durante séculos os historiadores acreditavam que a alma do projeto havia sido D. José, mas documentos recém descobertos revelam que ela o encabeçara. Concordando em pagar pelo arrendamento mil ducados de ouro ao ano, é nomeada "cobradora de impostos" - posto político que implicava em uma infinidade de direitos legais. Apesar da oposição das autoridades turcas locais, Suleiman via o projeto com bons olhos. Assim, sob a responsabilidade e a autoridade de Doña Gracia, Tiberíades tinha o potencial de se tornar uma província judaica semi-autônoma, onde os judeus poderiam estabelecer-se e viver em segurança.

Sob seu auspícios a cidade voltou a florescer. Ela reabriu e sustentou uma antiga sinagoga perto do lago e uma ieshivá. E, segundo o relato de visitantes, "o deserto dera lugar a um verdadeiro Jardim do Éden".Não se sabe se ela chegou a viver em Tiberíades. Alguns historiadores acreditam que não, pois na época já estava muito doente. Com sua morte, a cidade entrou em um rápido processo de decadência. Provavelmente, devido à violência, os judeus mais proeminentes foram deixando a cidade, que foi reconstruída somente em 1740, por um núcleo judaico.

Não há muitas informações sobre a morte de Doña Gracia ou sobre o local onde foi enterrada. Há somente elogios fúnebres por rabinos e poetas por ocasião de seu falecimento.

Doña Gracia era, de fato, uma mulher rara, com idéias anos-luz à frente de seu tempo. Seu senso de responsabilidade ia além de sua própria salvação. Segundo Uísque, "arriscando sua própria vida para salvar a de seus irmãos", ela "era a mão estendida que resgata os cansados e alimenta os famintos; a fonte de coragem e de estímulo para os pobres e enfraquecidos".

Bibliografia

Brooks, Andrée, The Woman who Defied Kings: The Life and Times of Doña Gracia Nasi