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CLINTON, UM AMIGO DE ISRAEL Foto Ilustrativa

CLINTON, UM AMIGO DE ISRAEL

Em dezembro de 1981, ao lado da mulher Hillary e instado por seu amigo e mentor, o pastor W.O. Vaught, o jovem Wiliam Jefferson Clinton visitou a Terra Santa.

Edição 47 - Dezembro de 2004


O casal passou a maior parte da viagem em Jerusalém, onde percorreu os lugares santos cristãos, o Muro Ocidental e a mesquita de Al-Aqsa. Depois, visitou a região da Galiléia, a cidade de Jericó e subiu até o alto da colina de Massada, onde os judeus resistiram a um longo cerco do exército romano e onde, na iminência da derrota, preferiram a morte a se tornar escravos. Conforme relata em seu recente e importante depoimento histórico, uma autobiografia de 900 páginas há pouco lançada nos Estados Unidos e também no Brasil (Editora Globo), essa viagem o marcou profundamente: "Voltei valorizando mais a minha fé, com grande admiração por Israel e, pela primeira vez, com alguma compreensão a respeito das aspirações palestinas. Foi o início da minha obsessão por ver a reconciliação de todos os filhos de Abraão".

Em dezembro de 1989, já governador do estado de Arkansas, Clinton lamentou a morte de seu amigo Vaught, vencido por um câncer, e lembrou-se de uma conversa mantida anos antes com o pastor. Vaught lhe disse que queria abordar três assuntos. O primeiro se referia à moralidade da pena de morte. O segundo, preocupação pelos ataques que Clinton sofria por sua posição quanto ao direito de escolha na questão do aborto. O terceiro item o surpreendeu: "Acho que um dia você será candidato à Casa Branca e será um bom presidente. Mas, há uma coisa, acima de todas as outras, que você não pode esquecer: D'us nunca o perdoará se você não apoiar Israel". Clinton escreve: "Ele acreditava que D'us queria os judeus na Sua terra, a Terra Santa. Ele disse que a solução para os problemas deles tinha de incluir a paz e a segurança de Israel".

Durante os oito anos em que ocupou a Casa Branca, Bill Clinton sempre teve em mente as palavras daquele seu mentor espiritual e foi sempre com esse espírito que tentou mediar o conflito entre israelenses e palestinos. Em 1993, ele cumpria o primeiro ano de mandato, quando recebeu um telefonema de Itzhak Rabin, dando conta do bom resultado alcançado pelas reuniões secretas mantidas em Oslo com representantes da Organização pela Libertação da Palestina.

Foi marcada para o dia 13 de setembro uma cerimônia nos jardins da Casa Branca, a partir de um otimismo generalizado segundo o qual a OLP abdicaria de quaisquer atos futuros de violência o que, na verdade, jamais chegou a acontecer - e reconheceria o direito de Israel à existência, o que também até hoje não foi cumprido porque permanece inalterada a cláusula do estatuto palestino que propõe a destruição do Estado Judeu.

Clinton julgava que tanto Rabin quanto Arafat deveriam comparecer à solenidade porque suas presenças reforçariam o compromisso pela paz. De início, Rabin mostrou-se relutante, mas acabou cedendo aos apelos do presidente americano. Na autobiografia, Clinton admite que se tratava de um procedimento arriscado, porque Rabin e Arafat não estavam seguros quanto às reações que enfrentariam em suas frentes domésticas, e conclui: "Ambos demonstraram visão e coragem consentindo em comparecer e discursar". Clinton escreve que, na noite anterior à cerimônia, foi deitar-se às dez da noite, mas acordou às três da madrugada. Pegou a Bíblia e leu todo o Livro de Josué: "Isso me inspirou a reescrever um trecho do meu discurso e a usar uma gravata azul com chifres dourados, que lembravam os usados por Josué para derrubar as muralhas de Jericó, que seria devolvida aos palestinos".

Pouco antes do evento, alguém lhe informou que Arafat viria vestindo seu inefável uniforme com a kefiah na cabeça e um revólver na cintura. Clinton advertiu que não o admitiria armado na Casa Branca. Em seguida, os palestinos discordaram em serem chamados de "delegação palestina": queriam o rótulo "OLP". Israel acedeu. Entretanto, o ponto mais sensível era sobre o aperto de mãos. Rabin disse que o faria somente se, de fato, fosse necessário. Clinton insistiu e Rabin chegou a lhe responder rudemente: "Tudo bem, tudo bem, mas sem aquele beijo que os árabes costumam dar no rosto". Neste particular episódio, a narrativa de Clinton é saborosa: "Eu sabia que Arafat tentaria beijar Rabin depois do aperto de mãos. E eu sabia que se Arafat não me beijasse, não beijaria Rabin também. Meu assessor Tony Lake disse que havia um jeito de escapar do beijo e passamos a um ensaio. Quando estendi a mão para Tony e parti para o beijo, ele colocou a mão esquerda sobre meu braço direito, na altura do cotovelo, impedindo que eu continuasse. Ensaiamos mais algumas vezes para ter a certeza de que o rosto de Rabin ficaria intacto".

Antes de chegarem ao jardim, houve um momento em que Rabin, Arafat e Clinton ficaram sozinhos. Arafat estendeu a mão para cumprimentar Rabin, que disse secamente: "Lá fora". Clinton prossegue: "Depois da assinatura do acordo, Arafat estava à minha esquerda e Rabin, à direita. Apertei a mão de Arafat e apliquei o ensaiado bloqueio. Depois, apertei a mão de Rabin e abri os braços para aproximá-los. Arafat estendeu a mão para Rabin, que ainda estava relutante. Por fim, quando Rabin estendeu a dele, a platéia irrompeu numa salva de palmas.

O mundo inteiro celebrou, salvo os radicais que protestaram no Oriente Médio, preferindo a violência, e manifestantes em frente à Casa Branca que viam em tudo aquilo um risco para a segurança de Israel". Infelizmente, o tempo acabou provando que os adeptos da violência se sobrepuseram ao Acordo de Oslo, ameaçando cada vez mais a segurança de Israel, tal como previsto pelos manifestantes.

É claro que, àquela altura, não era este o cenário que Bill Clinton avistava no horizonte e ele ficou emocionado quando Rabin pronunciou em seu discurso: "Dizemos hoje a vocês, em voz alta e clara, basta de sangue e de lágrimas!" Bill Clinton encerrou a cerimônia referindo-se aos descendentes de Isaac e Ismael, ambos filhos de Abraão, desejando-lhes Shalom e Salam. Depois da cerimônia, Clinton e Rabin tiveram um encontro a portas fechadas.

Rabin disse ao presidente que havia implementado o Acordo de Oslo porque tinha chegado à conclusão de que os territórios ocupados já eram dispensáveis para a segurança de Israel e que enfrentar palestinos revoltados, como acontecera na primeira intifada, tornava o país mais vulnerável. Esse conceito solidificou-se em sua mente durante a primeira Guerra do Golfo, quando o Iraque disparou mísseis contra Israel, evidenciando que porções de terra eram inúteis numa época de armas sofisticadas de longo alcance. Rabin acrescentou que um entendimento com os palestinos poderia, inclusive, levar à paz com a Síria e Clinton escreveu em seu livro: "Eu o admirava antes mesmo de conhecê-lo, mas naquele dia vi a grandeza de sua liderança e de seu espírito. Jamais havia conhecido alguém como ele e estava decidido a ajudá-lo no seu sonho de paz".

No ano seguinte, Clinton compareceu à solenidade de assinatura do tratado de paz entre Israel e a Jordânia e, depois, rumou para a Síria, onde conversou com o presidente Assad. Disse-lhe que esperava dele um gesto semelhante ao de Anuar Sadat quando este foi a Jerusalém, "mas foi como se eu estivesse falando para a parede". De Damasco, seguiu para Israel, relatou aquela impressão para Rabin, discursou no parlamento e fez uma visita ao Yad Vashem, o Museu do Holocausto.

Às três e meia da tarde do dia 4 de novembro de 1995, um assessor de Clinton o informou de que Rabin havia sido baleado durante um comício pela paz, em Tel Aviv. Meia hora mais tarde, recebeu um telefonema pelo qual ficou apenas sabendo da gravidade do ferimento do primeiro-ministro israelense. Para aliviar a tensão, o presidente americano foi para o jardim sul da Casa Branca e ficou dando tacadas de golfe sem direção. "Depois de quinze minutos, vi a porta do Salão Oval se abrir e Tony Lake descer o caminho de pedra na minha direção.

Pela expressão de seu rosto, percebi que Itzhak havia morrido. Durante o tempo em que trabalhamos juntos, Rabin e eu tínhamos criado uma relação íntima, marcada pela franqueza, pela confiança e por uma notável compreensão das nossas posições políticas e processos mentais. Nossa amizade havia sido moldada pelo convencimento mútuo de que estávamos envolvidos numa luta grandiosa. Eu sempre soube que Rabin estava arriscando a vida, mas não conseguia acreditar na sua morte e, então, eu não sabia o que poderia fazer no Oriente Médio".

Clinton relata que ficou muito comovido, durante o funeral, ao ouvir as palavras da neta de Rabin: "Vovô, você era o pilar de fogo diante do acampamento e, agora, somos apenas um campo abandonado no escuro - e está tão frio". Quando falou, o presidente americano fez referência ao fato de que naquela semana os judeus de todo o mundo estudavam o trecho da Torá em que D'us ordenou a Abraão o sacrifício de seu filho Itzhak. Quando o patriarca se dispôs a obedecer a ordem divina, D'us poupou a vida do menino. E Clinton concluiu: "Agora, D'us testa nossa fé de forma ainda mais terrível ao nos tomar o nosso Itzhak. Mas, a aliança de Israel com D'us, pela liberdade, pela tolerância, pela segurança e pela paz, essa aliança há de prevalecer. Shalom, chaver".

No desenrolar de sua autobiografia, Bill Clinton faz um relato minucioso sobre as conversações realizadas entre Arafat e Benjamin Netanyahu, então primeiro-ministro, quando Israel concordou em se retirar de parte da Cisjordânia em troca de um empenho palestino no sentido da segurança. Foi nessa ocasião que Clinton teve um encontro a sós, pela primeira vez, com Ariel Sharon. Conversaram por mais de duas horas, o presidente mais ouvindo do que falando: "Sharon não era totalmente desprovido de simpatia pela causa palestina. Ele queria ajudá-los economicamente, mas era contra sair da Margem Ocidental por questões de segurança, assim como não confiava que Arafat combateria o terrorismo. Ele era o único representante da delegação de Israel que não apertava a mão de Arafat. Gostei de ouvir Sharon falar de sua vida e de suas opiniões e, quando terminamos às três da manhã, eu compreendia melhor o seu pensamento".

Na etapa seguinte, Clinton, Netanyahu e Arafat passaram uma noite em claro até chegar a um acordo sobre a questão dos prisioneiros palestinos em Israel, distinguindo os criminosos comuns dos presos por crimes contra a segurança. Afinal, Israel concordou em ceder mais terras na Cisjordânia, uma passagem segura entre Gaza e a Margem Ocidental, e ajuda financeira. Em contrapartida, Arafat se empenharia ao máximo para conter as ações dos terroristas, um compromisso que não conseguiu cumprir.

O envolvimento seguinte de Clinton com o Oriente Médio foi logo no início de janeiro de 2000, quando um novo primeiro-ministro israelense, Ehud Barak, levou para a Casa Branca sua impaciência com as evasivas de Arafat. E pedia ao presidente que intermediasse uma negociação com a Síria, que acabou acontecendo e dela nada resultou, embora Clinton tivesse constatado que as duas partes tinham pontos em comum. E percebera algo ainda mais importante: que a disposição inicial de Barak para negociar uma possível devolução das colinas do Golã havia esmorecido, porque ele receava uma forte reação da população israelense e sentia a necessidade de ganhar mais tempo. Clinton: "Dizer que eu fiquei decepcionado, seria eufemismo. Barak era novato na política e eu achei que ele tinha sido muito mal aconselhado". Mesmo assim, a conferência prosseguiu com a redação de uma minuta de paz, mas quando seus termos vazaram para a imprensa, provocando contrariedades tanto em Damasco como em Jerusalém, tudo fracassou.

Para Clinton, os momentos mais dramáticos de sua participação na crise do Oriente Médio começaram no dia 11 de julho de 2000, na cúpula de Camp David. A insistência para a reunião partira de Barak, que via a possibilidade de obter o apoio da opinião pública israelense se lhe pudesse apresentar um plano de paz que efetivamente garantisse a segurança do país. Arafat chegou evasivo para o encontro. Ele se sentia enfraquecido depois da abertura de Israel na direção da Síria e da retirada unilateral do sul do Líbano. Sua posição inabalável era no sentido de obter a totalidade da Cisjordânia e de Gaza, soberania sobre o Monte do Templo e Jerusalém Oriental e o direito de retorno dos refugiados palestinos.

Clinton ficara impressionado com as equipes de negociadores dos dois lados: "Eram todos patriotas, inteligentes e trabalhadores e pareciam genuinamente querer um acordo. A relação entre os dois grupos era bastante satisfatória". Ele relata que o mesmo já não acontecia com Arafat e Barak. Ambos estavam em salas próximas à do presidente, mas não se falavam. Barak, segundo o presidente, não queria se encontrar sozinho com Arafat porque fazia todas as concessões e não obtinha uma resposta na mesma moeda. Neste particular, o depoimento de Clinton é fundamental para uma real compreensão histórica no tocante ao que aconteceu em Camp David: "Barak era brilhante e corajoso, e estava disposto a avançar na questão de Jerusalém e dos territórios. Mas, ele tinha dificuldade em ouvir as pessoas e quando fazia suas melhores ofertas, esperava que elas fossem logo aceitas. Já os palestinos queriam cortesias que colaborassem para a confiança e muita barganha. Esse choque de culturas dificultou minha tarefa".

No sexto dia da conferência, Clinton insistiu junto a Arafat para que desse uma resposta às concessões de Barak sobre Jerusalém e a devolução dos territórios. Na manhã do oitavo dia, o presidente formalizou para Arafat a proposta detalhada de Israel: 91 por cento da Cisjordânia, uma capital em Jerusalém Oriental, soberania sobre os bairros cristãos e muçulmanos da Cidade Antiga e as vizinhanças externas, autoridade para planejamento, zoneamento e imposição da lei na parte oriental da cidade e custódia, não soberania, sobre o Monte do Templo. Arafat, conforme Clinton textualmente escreve, torceu o nariz e recusou a oferta. Àquela altura, o presidente teve que deixar Camp David e partiu para uma reunião do Grupo G-8, no Japão. Voltou no décimo-terceiro dia, quando soube que Arafat só aceitava a palavra "soberania". O presidente partiu para a fórmula de uma "soberania custodial", mas Arafat permaneceu na negativa. Clinton: "Encerrei as conversações. Foi frustrante e profundamente triste. Publiquei uma declaração dizendo ter concluído que o fracasso se devera às dimensões políticas, religiosas, históricas e emocionais do conflito".

No final de dezembro daquele ano, Bill Clinton tornou a se empenhar para colocar israelenses e palestinos numa mesa de negociações, desta vaze na Base Aérea de Bolling. O presidente reiterou os termos da proposta israelense, inclusive concedendo a pretendida soberania sobre o Monte do Templo, enquanto Israel teria soberania sobre o Muro Ocidental. Ficou estipulada a independência de uma nação palestina não-militarizada, mas com controle de seu espaço aéreo. Quanto aos refugiados de 1948, estes deveriam ser acolhidos no estado palestino, sem excluir a possibilidade de Israel absorver parte deles. Era um acordo que a Casa Branca julgava justo. Clinton narra que imediatamente Arafat começou a tergiversar e não abria mão do direito de retorno dos palestinos, ao mesmo tempo em que parecia confuso e sem pleno domínio dos fatos. Clinton: "Talvez ele fosse incapaz de dar o salto final que o faria passar de revolucionário a homem de Estado".

Clinton e Arafat voltaram a se encontrar pouco antes do fim do mandato presidencial: "Arafat agradeceu-me por todos meus esforços e me falou do grande homem que eu era". Clinton respondeu: "Eu não sou um grande homem. Sou um fracasso e o senhor fez isso de mim".

Durante o tempo em que trabalhamos juntos, Rabin e eu tínhamos criado uma relação íntima, marcada pela franqueza, pela confiança e por uma notável compreensão das nossas posições políticas e processos mentais.