Morashá
VIDA E DESTINO DAS LÍNGUAS JUDAICAS Poster do teatro ídiche

VIDA E DESTINO DAS LÍNGUAS JUDAICAS

O ídiche, assim como o ladino ou judeu-árabe, línguas judaicas com rico passado, ao despontar um novo milênio provocam em nós a pergunta: conseguirão escapar do esquecimento? Antes de responder, vale a pena lembrar seu destino ao longo do século XX.

Edição 29 - Junho de 2000


Na virada do século passado, de uma população total de judeus de cerca de 10 milhões de pessoas, contavam-se sete milhões entre os que falavam o ídiche, cerca de meio milhão que falavam o judeu-espanhol (ou ladino), e pouco menos do que este número que falavam o judeu-árabe. Hoje, já na aurora do novo século, as proporções mudaram completamente. Vamos dedicar-nos, neste artigo, ao ídiche. Pouco mais de um milhão de nossa gente fala, hoje, o idioma.

Em 1900, dos 7 milhões já mencionados, três quartos dos mesmos viviam na Europa Oriental, nas cidades e nos vilarejos, os shtetls, cercados de intenso yidishkait . Esta palavra engloba tudo o que significava ser judeu, quer fosse a prática da religião, o estudo dos textos sagrados, comer a comida judaica tradicional daquela região, viver, sofrer, amar e rir de forma judaica, ou melhor dito, de "forma idiche".

O ídiche havia extrapolado o seu status de dialeto em virtude da emergência dos partidos políticos judaicos. Em 1908, na Conferência de Czernowicz, as cisões se aprofundaram e as correntes ideológicas se afrontaram, ficando bem clara a divisão entre os que defendiam o ídiche e os que defendiam o hebraico, como a língua judaica. A partir dessa conferência, o ídiche passou a ser considerado como uma língua na-cional judaica. Houve um grande renascimento na literatura escrita neste idioma e um extraordinário desenvolvimento da imprensa ídiche.

Em 1925 criou-se o Instituto Científico Judaico, que padronizou a língua, tornando este o idioma de ensino e de cultura judaica, em pé de igualdade com os idiomas dos países que acolheram os judeus em sua diáspora. Estima-se que em 1939 a população judaica chegava a 17 milhões, na Europa, dos quais quase 10 milhões falavam ídiche.

O holocausto, como sabemos, foi um golpe fatal para nosso povo e especialmente para esta língua. Dos 6 milhões que foram exterminados, mais de 5 milhões era idichistas.

Língua forte, resistente como o nosso povo, deixou fortes influências por onde foram estabelecendo-se os que a falavam. Há várias palavras em ídiche que foram completamente integradas no inglês, fazendo parte dos dicionários norte-americanos e ingleses, como shlep (arrastar, fazer algo contra a vontade), shlepper (pessoa desmazelada, mal arrumada, sem posses), chutzpa (atrevimento), gonef (ladrão), bubeleh (vovozinha, bonequinha, queridinha), mavin (sábio), shlemazel (um pobre coitado, sem sorte), shmatte (um trapo, uma porcaria e que, por afinidade, virou sinônimo de roupas baratas, ou confecções, um ramo do comércio ao qual muitos judeus que falavam ídiche se dedicaram) e muitas, muitas outras. Ou até mesmo expressões completas , puramente em ídiche, que foram traduzidas ao inglês, reproduzindo o colorido sarcasmo em que o ídiche é tão rico, e fazem parte do cotidiano do inglês, como "Big deal!" ("grande coisa...") ou "Get lost!" ("Some daqui!").

Lilia Wachsmann