Morashá
Roman Vishniac Foto Ilustrativa

Roman Vishniac

Considerado um dos grandes fotógrafos do século 20, Vishniac se tornou famoso por suas pungentes imagens da vida dos judeus na Europa Central e Oriental antes do Holocausto.

Edição 66 - Dezembro de 2009


Para o mundo judaico e os historiadores, ele foi quem documentou os últimos dias do judaísmo do Leste europeu.

Para os biólogos, foi um dos maiores peritos em microfotografia; alguém que conseguia capturar imagens de células vivas onde outros apenas conseguiam enxergar tecidos mortos. Para a arte da fotografia, foi um artista eclético, renomado por suas contribuições à fotografia tirada com lapso de tempo. A verdade é que Vishniac foi, acima de tudo, um homem conhecido e admirado por seu respeito pela vida; um humanista, que amava seu povo e se orgulhava de suas raízes judaicas.

"Graças a ele", escreveu Elie Wiesel "sabemos que um mundo que foi estilhaçado pôde sobreviver à sua própria morte… Roman ilumina tudo o que veio antes, tudo o que resta de um passado muito longínquo, tudo o que precedeu a tragédia deste século que, agora, chega a seu término". Apesar de boa parte do enorme acervo de fotos de Roman Vishniac, cerca de 16 mil fotografias, tiradas na Europa da década de 1930 ter-se perdido durante a Shoá, as duas mil imagens que sobraram constituem um inestimável tesouro sobre a vida judaica daquele continente, no período que antecedeu a 2a Guerra. Parte desse material foi publicado nos EUA em 1947, na obraPolish Jews (Judeus poloneses), e, em 1969, no livro Life of the Six Millions (A vida dos seis milhões). Em 1983, Vishniac publicou A Vanished World (Um mundo desaparecido), que se tornou um dos mais importantes documentos fotográficos sobre a vida judaica na Europa Central anterior ao Holocausto.

Sua vida

Roman nasceu em 1897, em Pavlosk, pequena cidade de veraneio, próxima a São Petersburgo, na casa de campo de seus avós. Ele e a irmã, Katja, cresceram em Moscou. Na época, viver na cidade era um "privilégio" concedido a poucos judeus considerados "úteis". Os Vishniac faziam parte dessa minoria privilegiada, pois seu pai, Solomon, era um abastado fabricante de guarda-chuvas; e a mãe, Manya, era filha de um próspero comerciante de diamantes. A fascinação que sentia tanto pela fotografia quanto pela biologia teve início ainda criança. Tinha apenas sete anos quando ganhou de presente da avó um microscópio. Decidiu acoplá-lo a uma câmera e conseguiu fotografar a pata de um inseto, aumentando-a 150 vezes. Era sua primeira microfotografia. No entanto, como ele mesmo revela no prefácio de A Vanished World, apesar do grande envolvimento com a fotografia, seu maior interesse, desde cedo, era a história de seu povo e de seus ancestrais. O avô e os pais lhe contavam sobre o sofrimento e a discriminação impostos aos judeus que viviam na "Zona de Residência", ou "Território do Acordo", criado no final do século 18 pela Czarina Catarina. Contavam-lhe sobre seu bisavô, um dos mais proeminentes homens de Slonim, muito conhecido por ajudar seus correligionários necessitados.

Roman recebeu uma educação primorosa, foi educado em casa, por tutores e professores, até completar dez anos, passando, então, a freqüentar uma escola particular até os 17 anos. Possuía uma mente eclética; falava vários idiomas e tinha grande interesse pelas artes, assim como pelas ciências. Apesar do sonho do pai de vê-lo ingressar nos negócios da família, Roman queria tornar-se professor e ser um acadêmico.

Em 1914 passou a freqüentar o Instituto Shanyavsky, em Moscou (atualmente uma universidade), onde cursou medicina, fez doutorado em zoologia e se tornou professor-assistente de biologia. Lá teve a oportunidade de trabalhar com o biólogo Nikolai Koltsov, um dos precursores da genética moderna.

Estava ainda na faculdade quando, logo após o início da 1ª Guerra Mundial, o governo russo acusou todos os judeus da "Zona de Residência", que viviam perto do front, de espionar a favor da Alemanha. O governo então ordena que fossem deportados para o interior da Rússia. Milhares foram postos à força em trens de gado sem água ou alimento. Ao chegarem ao local pré-determinado, não havia moradia nem emprego a esperá-los. "Centenas de milhares foram afetados e milhares morreram", conta Vishniac, que, com alguns outros jovens judeus, começa a arrecadar fundos junto à comunidade para ajudá-los.

Berlim

Após a Revolução Russa de 1917, os Vishniac deixam Moscou juntamente com os Alexandroff, conhecidos comerciantes de diamantes e pais de Luta, com quem Roman se casou nessa mesma época. Eles fogem para a Letônia e, em seguida, para Berlim, assim como o fizeram centenas de judeus da Europa Oriental, em busca de refúgio na Alemanha no período pós-revolução. Estabelecem-se em Berlim, em 1918, então considerada o centro mundial da cultura e das ciências.

Lá, seu pai tenta inutilmente envolver Roman em diferentes negócios, até que finalmente ele concorda em gerenciar o edifício que pertencia à sua família, onde morava com a mulher - isto porque era uma ocupação que lhe deixaria tempo livre para se dedicar à sua verdadeira paixão: a fotografia. Com Luta, Roman teve dois filhos - Mara e Wolf. Em Berlim ele freqüenta a Universidade Humboldt, onde fez o doutorado em Arte Oriental.

Roman testemunhou o anti-semitismo tomar conta da Alemanha na década de 1930. A legislação anti-judaica, os inflamados discursos e o ódio nazista eram para ele provas de que um futuro sombrio aguardava seu povo. Começou a tirar as imagens que um dia o tornariam famoso, por encomenda do American Jewish Joint Distribution Committee.

Na década de 1930, quando a Polônia enfrentou o desemprego em massa em decorrência da Grande Depressão, o endêmico anti-semitismo polonês aumenta sua virulência por incitação do Partido Endecja, que passa a organizar demonstrações, pogroms e boicotes econômicos contra os judeus. Além disso, o governo excluiu a população judaica de qualquer ajuda governamental. Os judeus dos shtetls e dos guetos foram duramente afetados e, para socorrê-los, o Joint lança uma campanha de arrecadação nos Estados Unidos. Era necessário ter imagens que retratassem a situação. Então, o representante da entidade em Berlim consulta Roman sobre a possibilidade de viajar pela Europa Oriental para documentar a realidade da vida nos shtetls. Roman aceita o trabalho que iria mudar sua vida. Ao chegar, fica profundamente tocado por aqueles homens, mulheres e crianças, que, apesar da opressão e da miséria, mantinham-se fiéis a D'us e a Suas leis. Mesmo após concluir a encomenda do Joint, continua a viajar durante cerca de quatro anos entre Berlim e o Leste europeu, no período de 1935 a 1939.

Nenhum de seus amigos se dispôs a acompanhá-lo; pelo contrário, tentam dissuadi-lo. Diziam-lhe que os judeus religiosos não queriam ser fotografados e que eram muitos os perigos que teria que enfrentar. Além do mais, argumentavam que "um homem com uma câmera era sempre suspeito de ser espião". Após 1933, quando Hitler assumiu o poder na Alemanha, sua atividade torna-se ainda mais perigosa. Os judeus se tornam alvo de todo tipo de violência física e psicológica e, em 1935, após serem decretadas as Leis de Nuremberg, foram privados de todos os direitos básicos do cidadão. Os nazistas chegaram a proibir um judeu de apenas portar uma câmera fotográfica, o que dizer, então, de fotografar... Roman estava entre os poucos que acreditavam não serem ameaças vazias as afirmações feitas por Hitler em seus discursos sobre a "necessidade" de uma "solução final para o problema judaico".

Em seu livro A Vanished World, Roman se indaga "Por que o fiz? Uma câmera escondida para registrar um estilo de vida de pessoas que não desejavam ser capturadas em filme pode ser estranho para a maioria das pessoas. Seria uma loucura total entrar e sair de países onde eu arriscava minha vida, dia após dia? Qualquer que fosse a pergunta, a resposta era sempre a mesma: aquilo tinha que ser feito. Eu sentia que o mundo estava prestes a ser lançado nas trevas alucinadas do nazismo e o resultado seria a aniquilação de um povo que não tinha porta-voz para registrar seu sofrimento... Eu sentia que era meu dever assegurar que aquele mundo que desaparecia não desaparecesse totalmente". .. Não consegui salvar meu povo; apenas salvei sua memória".

Determinado a retratar aquele mundo, durante quatro anos Vishniac foi de província em província, de cidade em cidade, até os shtetls mais longínquos da Polônia, Lituânia, Letônia, Hungria, Checoslováquia. Com uma Leica ou uma Rolleiflex escondida em seu cachecol ou espreitando através da casa de um botão do casaco, conseguiu tirar 16 mil fotografias, muitas das quais sem que ninguém percebesse. Através de suas lentes capturou ruas e mercados, gestos e movimentos, expressões de esperança e de desespero. Retratou mulheres, crianças brincando ou estudando no cheder, homens trabalhando nos campos ou andando nas ruas dos guetos ou estudando textos sagrados. Retratou o mundo chassídico e os centros de estudos, as sinagogas e os rabinos. Em seu diário anotava a história por trás de cada imagem. Entre uma viagem e outra voltava para Berlim para revelar as fotos em sua câmara escura e contava para a família sobre a viagem, os judeus que encontrara e conseguira fotografar.

A partir da noite de 27 de outubro de 1938, o Terceiro Reich inicia a deportação de milhares de judeus poloneses que viviam na Alemanha, para a região de Zbaszyn, na Polônia. Como o governo polonês se recusara a reconhecer sua cidadania e a aceitá-los de volta, eles viviam à espera de alguma solução, amontoados em estábulos, sem alimento ou assistência. Devido ao frio e às terríveis condições sanitárias, muitos adoeceram e 68 morreram. O representante norte-americano na Liga das Nações exigiu em plenário que algo fosse feito. O embaixador polonês afirmou que o relatório era uma "invenção judaica".

Roman decidiu documentar as condições em que os judeus viviam em Zbaszyn. Entrou facilmente, juntando-se a um grupo de recém-chegados e ficou dois dias fotografando. Registrou tudo o que viu. Sair foi mais difícil, mas ele sabia que tinha que sair rapidamente com as imagens. Tentou duas vezes, sem sucesso. Mas, na terceira tentativa, conseguiu. Apesar da total escuridão, pulou, durante a noite, do segundo andar de um dos barracos. Ele se recorda de ter rezado agradecendo a D'us. Quando as fotos de Roman chegaram a Genebra, o irado representante polonês esbravejou: "Quem tirou essas fotografias?"

No dia 7 de novembro, durante a Kristallnacht, em Berlim, Roman fotografa e filma a terrível noite. Ainda em seu livro A Vanished World, ele conta que se vestiu de nazista para poder fotografar. Após os terríveis acontecimentos daquela noite, ficou claro para ele e toda a sua família que a Alemanha deixara de ser um lugar seguro para os judeus. Em sua viagem seguinte à Europa Oriental, Roman consegue escapulir para a França, onde pretendia esperar pela família. No verão de 1940, Roman reencontra seus pais em Nice, mas ao retornar a Paris é preso pela polícia de Vichy, que o interna em um campo de deportação em Clichy, território francês. Quando da rendição da França à Alemanha, Roman consegue escapar e chegar à fronteira espanhola, atravessando Portugal. Não podia mais esperar por sua mulher e filhos em território francês. Seus pais, no entanto, ficaram na França. Sua mãe morre no ano seguinte, em Nice, e o pai passa a guerra escondido em Clermont-Ferrand, tomando conta de grande parte dos negativos que Roman escondera sob o assoalho e atrás das molduras de quadros. Das 16 mil fotos que tirara durante as viagens, apenas duas mil foram salvas; o restante foi confiscado ou destruído.

Naquele mesmo verão de 1940, Luta e os filhos, Mara e Wolf, também deixam a Suécia, e após atravessar a Europa chegam em segurança a Lisboa, instalando-se em um dos inúmeros hotéis usados pelos refugiados. Os próximos acontecimentos parecem ter saído de um filme hollywoodiano. Wolf contou a seu filho que, certa manhã, juntamente com sua mãe e irmã, entrou em um elevador e viu o seu pai que saía do mesmo. Incrédulos, se abraçaram, chorando, imóveis, no saguão do hotel.

Mais uma vez, a sorte sorriu para Roman e sua família, pois conseguem obter um visto para os Estados Unidos. Ao embarcar para a América, Roman leva alguns negativos escondendo-os no forro das suas roupas; outra parte foi "contrabandeada" por seu amigo Walter Bierer, através de Cuba.

Nova York

Os Vishniac chegam a Nova York no dia 1º de janeiro de 1942. Iniciava-se um novo capítulo em sua vida. Roman procura trabalho, dessa vez como fotógrafo retratista. O começo foi difícil, pois, apesar de poliglota - falava alemão, russo, iídiche - não falava inglês. Mas logo seu talento foi reconhecido e ele passa a retratar personalidades como Marc Chagall e Albert Einstein. A fotografia que tirou de Einstein, em 1942, além de ser um dos seus mais famosos trabalhos no gênero, era a fotografia preferida pelo cientista.

Uma vez nos EUA, Roman Vishniac tentou desesperadamente expor seus documentários fotográficos, pois tinha a esperança de que as imagens poderiam chamar a atenção do mundo para o que estava acontecendo aos judeus na Europa. Quando seu trabalho foi exposto no Teachers College da Universidade de Colúmbia, em 1943, Vishniac escreve para a então primeira-dama Eleanor Roosevelt, pedindo-lhe que visitasse a mostra, mas ela não foi. Ele também enviou algumas fotografias para o próprio presidente Franklin Roosevelt, recebendo apenas um agradecimento protocolar. Longos anos se passaram antes que o mundo se interessasse pela sorte dos judeus retratados por Roman.

Sua vida conjugal com Luta não foi fácil nos EUA e, finalmente, em 1946, eles se separaram. No ano seguinte, ele se casou com Edith Ernst, com a qual viveu até o dia de sua morte.

Nos Estados Unidos, Roman retoma a carreira de biólogo, dedicando-se principalmente à fotomicroscopia e fotomicrografia, a técnica fotográfica para obtenção de imagens ampliadas por meio de poderosas lentes ópticas. Ele era considerado uma espécie de "gênio" na área. Criou métodos de coloração usando luz polarizada para penetrar em certas formações das células, melhorando, assim, o detalhe da imagem. Seus trabalhos em microfotografias publicados nas revistas Life e Time o tornaram conhecido do público.

Em 1957 foi nomeado membro associado de pesquisas do Colégio de Medicina A. Einstein; em 1961, assumiu a cátedra de biologia educativa; e na década de 1970 foi nomeado Professor de Criatividade na Cátedra Chevron do Instituto Pratt, onde também lecionou Filosofia da Fotografia. Ainda ensinava Religião e outros temas judaicos, Arte Russa e Oriental.

Durante três anos consecutivos, recebeu o prêmio Best-of-the-Show da Associação de Fotografia sobre Biologia de Nova York. No ano de 1971 seus trabalhos científicos e suas imagens da década de 1930 sobre as comunidades judaicas foram expostos em uma grande exposição nessa mesma cidade. Em 1983, Vishniac publica seu famoso livro a Vanished World, que já mencionamos acima. Todas em preto e branco, suas fotos são incrivelmente profundas e realistas. A obra é aclamada por críticos e público.

Segundo Edward Steichen, fotógrafo, pintor e curador de museus norte-americanos, "Vishniac retornou de suas viagens à Europa Oriental, na década de 1930, com uma coleção de fotografias que se tornou um importante documento histórico. Registrou os últimos momentos de alguns seres humanos pouco antes de serem exterminados pela brutalidade da fúria nazista. Seu trabalho revela um sentimento raro e profundo de compreensão e amor de um filho pelo seu povo. Suas fotografias estão entre os melhores documentos de um tempo e lugar. São judeus lutando no dia-a-dia, estudando textos religiosos, caminhando com dificuldade, algumas vezes sentados com o olhar fixo, raramente uma sombra de um sorriso, o olhar desconfiado através de uma janela ou em salas de aula abarrotadas. Pode-se quase sentir a textura dos casacos e dos xales, das pontas dos dedos..."

Já doente, Roman mostrou seu acervo fotográfico das célebres viagens a Marion e Elie Wiesel, contando-lhes a história de cada imagem enquanto reviam os dois mil negativos guardados em seu apartamento, em Manhattan. Pediu a Marion que o ajudasse a publicar mais um livro. Muito enfraquecido, veio a falecer em Nova York, em 2 de janeiro de 1990, antes de terminar o livro.

Mas, Marion Wiesel se sentiu compelida a publicar esse livro póstumo, como escreveu no prefácio do Editor no livro To Give them Light (Para lhes dar luz), "E um belo dia ele se foi. E a promessa tinha que ser cumprida".

Bibliografia:

Vishniac, Roman, A Vanished World

Wiesel, Marion, To Give Them Light

Encyclopaedia Judaica, Roman Vishniac, Second Edition, Vol. 20

Artigo publicado no site do UJA, Roman Vishniac Remembered, Ethan Vishniac recalls his grandfather's adventurous spirit, http://www.jewishhamilton.org