Morashá
O universo judaico de José Gurvich Foto Ilustrativa

O universo judaico de José Gurvich

por por Prof. Reuven Faingold

Falecido prematuramente aos 47 anos, Gurvich possui uma produção artística invejável, repleta de símbolos judaicos. Do interior das coloridas telas do mestre uruguaio, surgem, ao mesmo tempo, um repertório bíblico e um leque de ensinamentos calcados na experiência sionista.

Edição 72 - Julho de 2011


A obra artística de José Gurvich (1927-1974), obtida através de conteúdos profundos e enorme criatividade, é uma arte imaginativa  e surpreendente que, ao longo de toda a sua vida, esteve em constante desenvolvimento. Sem dúvida alguma, trata-se de um grande nome da arte construtivista latino-americana, valorizado cada vez mais no decorrer do tempo.

A vida de Zusmanas Gurvicius, o verdadeiro nome do artista, possui pontos em comum com a daqueles judeus que, durante a ascensão de Adolf Hitler ao poder, em 1933, migraram para as Américas adotando os países do continente como sua pátria. Sua curta trajetória artística nos legou uma obra original, de características muito próprias. A seguir, resgataremos as raízes judaicas presentes na obra do talentoso artista.

Foram vários os pintores que lhe serviram como fonte de inspiração. Entre outros, nomes consagrados como Joaquim Torres Garcia, Paul Klee, Peter Brueghel, Hieronimus Bosch, Lasar Segall, Marc Chagall e Naftali Bezem. A arte de José Gurvich não traz apenas fontes visuais. Serviram-lhe também de referência inspiradora a poesia de Antônio Machado e os contos do escritor Scholem Rabinovitch, mais conhecido como Scholem Aleichem. É inquestionável a influência exercida por esses ícones da cultura mundial na consolidação da arte do mestre judeu-uruguaio.

Gurvich utilizou com freqüência a iconografia judaica. Ele preferia incluir a excluir: somava, incorporava e adicionava elementos. Em sua arte tudo é orquestrado com um espírito local, particular e universal. Suas telas vão-se conectando, entrelaçando, fusionando e interligando a mundos e realidades bem dispares. Seu universo alterna cenas da aldeia na Lituânia, relatos bíblicos, o pioneirismo e a realidade vivenciados no kibutz, mitos, sonhos e anjos. Gurvich produziu uma arte eloqüente através da abordagem do cotidiano, por meio de incursões em universos complexos, penetrando com força no que podemos denominar de “tempo judaico”, um tempo cujas narrativas recriam momentos cruciais da epopéia histórica do povo de Israel.

A poesia do kibutz

O interesse pela cultura judaica demonstrado por Gurvich, a partir de 1955, fêz-se visível quando ainda morava no Cerro, Uruguai, e em suas visitas a Nova York. Ele possuía um rico repertório de símbolos que demonstrava o quanto prezava sua pertinência étnico-judaica, conseguindo retratar as lembranças de Yatsmev, o shtetl na Lituânia de onde provinha e o carinho por sua amada mãe, Chaia Galparaite, uma figura preponderante em sua formação.

A vida simples da pacata Montevidéu, lugar onde cresceu, ficou eternizada em várias de suas pinturas. Tratava-se de uma região densamente povoada por imigrantes judeus do Leste europeu, com os quais o artista teve profícuo contato. Lá também se iniciou a militância sionista socialista de sua irmã menor, Miriam, pela qual nutria profundo afeto. Esta vivência intimamente ligada ao renascer do Povo Judeu se fortaleceu nos círculos marxistas do movimento juvenil Hashomer Hatzair. Esses anos foram decisivos na consolidação do círculo de amizades dos irmãos José e Miriam para o resto de suas vidas.

O amor pelo sionismo surge precisamente na época em que Gurvich programa suas visitas ao então jovem Estado judeu. Em 1954, realiza uma viagem à Europa e, um ano depois, fará sua primeira visita a Israel a convite do Kibutz Ramot Menashé. Ele vive algum tempo nessa aldeia coletivista trabalhando como pastor de ovelhas.

Durante sua estada desenha e pinta telas vinculadas à vida agrícola do kibutz. É a partir dessa primeira viagem que o artista uruguaio vai consolidando sua identidade, intensificando os laços históricos e sentimentos de empatia com o Povo Judeu e com o Estado de Israel. Essa aproximação revela uma arte toda especial, da qual emerge uma relação simbiótica.

Ao retornar a Montevidéu, Gurvich participa das exposições de arte organizadas pela oficina de Joaquim Torres Garcia. Ministra aulas no ateliê do mestre, tornando-se, assim, mais conhecido e passando a expor em Montevidéu e no exterior. Desenha murais em Punta del Este, ensinando sua técnica e aumentando gradualmente o número de seus discípulos.

Em 1960, entre a primeira e segunda viagem a Israel, Gurvich pinta Composição do kibutz com ovos. Nesta obra, produzida em tonalidades derivadas do marrom, laranja e amarelo, o artista segue os passos de Pieter Brueghel, retratando belas cenas campestres. Nela observamos os membros do kibutz trabalhando, estudando e aproveitando as horas de descanso e lazer. O título da obra provém da presença de dois ovos no teto de uma das casas retratadas.

Em 1964 Gurvich viaja pela segunda vez a Israel. De volta a Ramot Menashé, pintou novas telas e reencontrou seu rebanho de ovelhas. Dessa época datam Composição do kibutz com casal (1966) e Chaver1 e chaverá (1966). Antes de voltar a Montevidéu, passa três meses na Grécia. Em Atenas, inaugura uma exposição na Galeria Nacional de Belas Artes, em 1967, com 200 obras, entre esboços, desenhos, pinturas e cerâmicas.

Sua terceira viagem a Israel ocorre em 1969. Poucos meses depois, Gurvich ainda participa da exposição Universalismo Constructivo, no Museu Nacional de Bellas Artes de Buenos Aires. Deste período é a tela O mundo do kibutz, pintada em 1970, onde retrata com detalhes o cotidiano das aldeias coletivas de Israel. Na época, representavam 4% da população do Estado e eram responsáveis por 40% das exportações agrícolas. Para captar o significado dos símbolos presentes na obra, é preciso dividir a composição artística em cinco partes.

Ao centro aparece a produção agrícola do kibutz, representada por uma charrete e uma escada. Na charrete, o artista incrustou cabeças e membros dos responsáveis pelo trabalho produtivo. Na parte superior esquerda surge o chaver kibutz com seu chapéu de pano.
Após árdua jornada, ele se dirige até sua modesta residência. Na janela aberta da casa, encontra-se uma escada de quatro degraus, simbolizando a aliá2.

Na parte superior direita, é possível ver dois judeus com suas longas barbas: um deles segura com suas mãos os rolos da Torá, enquanto o segundo abraça um livro impresso, levando nas roupas duas construções arquitetônicas: um recinto de trabalho pelo qual se estende uma longa escada e uma casa branca com janela, ilustrando a dicotomia kibutziana resumida nos conceitos de “trabalho e descanso”.

Na parte inferior esquerda, uma mulher com lenço na cabeça aparece em pé sobre uma cadeira, erguendo suas mãos e abençoando as velas do Shabat, iniciando-se assim o merecido descanso do kibutznik. Inspirado na arte do pintor e escultor Naftali Bezem, Gurvich retrata a força do judaísmo através da mãe judia. Na parte inferior ao centro e à direita, é fácil detectar a valorização do judaísmo e do sionismo.

Os elementos utilizados são variados. Para retratar o judaísmo, ele escolheu elementos do shtetl, destacando-se uma precária moradia de madeira e um judeu de barba tocando violino, que sobe por uma escada, até uma mesa com toalha branca sobre a qual restou apenas uma chalá, o pão do Shabat. Certamente, o violinista é um elemento importado através dos contos de Scholem Aleichem e das pinturas de Marc Chagall. O sionismo, por sua vez, está simbolizado através dos próprios membros do kibutz, homens e mulheres com seus respectivos kovaei tembel (chapéu de pano de três pontas), um ramalhete de flores e ovelhas.

Episódios bíblicos

Durante o período de quatro anos em que viveu em Nova York (1970-1974), Gurvich desenhou e pintou um número considerável de obras com motivos bíblicos e outras relacionadas com as festividades religiosas judaicas. Recebeu encomendas de colecionadores de arte e, em 1973, foi convidado pelo Jewish Museum para realizar uma exposição retrospectiva de seu trabalho. Infelizmente, ele próprio não conseguiu ver a montagem dessa exposição, pois faleceu prematuramente.

Dentre as numerosas obras inspiradas em episódios bíblicos, é importante mencionar as relacionadas com o patriarca Abraão e sua esposa Sarah e as vinculadas com seus descendentes diretos: Isaac e Jacó. Na Anunciação de Sarah (1969), Gurvich pinta os três anjos sentados junto a uma mesa, apontando com o dedo em direção a Sarah, a primeira matriarca judia, que, aos 100 anos, deu à luz a Isaac. Sarah aparece visivelmente grávida e Abraão chorando de emoção diante da boa notícia de que terá descendência em idade avançada.

O quadro O sonho de Jacó (1970), se inspira no sonho que o terceiro patriarca teve na viagem de Beer Sheva até Harã. Diz a Torá: “E teve um sonho: Via uma escada que, apoiando-se na terra, tocava com o cimo o céu; e anjos de D'us subiam e desciam pela escada. No alto estava o Senhor que lhe dizia: Eu sou o Senhor, D'us de Abraham, teu pai e o D'us de Isaac; darei a ti e a tua descendência a terra em que estás deitado” (Gênese, 28: 10-13).

Duas de suas telas relatam a história de Caim e Abel, os dois filhos de Adão e Eva. Em Caim e Abel (1973), o artista uruguaio pinta o momento em que Caim mata seu irmão ao sentir inveja porque D'us aceitara a oferenda de Abel. Na imagem, D'us é representado por um grande olho. Já na pinturaintituladaMorte de Abel(1973), o corpo sem vida está estendido sobre uma charrete com rodas. Adão e Eva choram o filho assassinado, enquanto Caim foge pelos campos.

As festas judaicas

As festividades do calendário judaico ocupam um espaço significativo na produção de Gurvich. O Shabat é dia de descanso sagrado. Várias são as obras pintadas entre 1973 e 1974 que levam o título desse dia. Na maioria aparece uma mulher abraçada por um anjo, flutuando nos céus e, acima dela, numerosos personagens e objetos. Diante dos vários personagens vemos uma mesa com pães e velas, elementos relacionados com o Shabat

Outras três obras representam as Sheloshet HaRegalim, três festividades de peregrinação do calendário judaico. Na obra Pessach (1973), lembra-se o êxodo dos judeus do cativeiro do Egito. Nesta tela pode-se observar um casal abraçado flutuando no céu e pouco mais longe uma multidão de pequenas pessoas marchando por um estreito caminho. No primeiro plano aparecem homens e mulheres sentados à mesa comendo pães ázimos. A tela Shavuot, pintada em 1973, retrata a época em que se comemora a outorga da Torá ao Povo de Israel no Monte Sinai. A figura de Moshé aparece flutuando no ar, segurando nas mãos as Tábuas da Lei. Finalmente, na tela Sucot (sem data), Gurvich pinta a Festa dos Tabernáculos, na qual os judeus lembram os 40 anos da extenuante travessia do deserto. Aparecem também no registro duas grandes figuras de rabinos com os respectivos Rolos da Torá com objetos de culto judaico – etrog e lulav – nas mãos. Os objetos desfilam na frente de uma precária construção que abriga uma família.

Shtetl e Pogrom

Inspirado na imortal obra do  escritor Scholem Aleichem,  Gurvich abordou a vida judaica nas aldeias do Leste europeu na passagem do século 19 para o século 20, época dominada pelo anti-semitismo. Esse escritor descreveu os desejos e sonhos não realizados daqueles judeus miseráveis e submissos, suas preocupações e as esperanças do atribulado mundo asquenazita.
O artista retratou o espírito trágico inerente à experiência judaica do exílio ou Galut, no óleo Pogrom (1969). Da mesma forma que o fez Lasar Segall em sua tela de mesmo nome (1937), Gurvich recriou sua tragédia pessoal com toda intensidade. Seu pai Jacobo e sua mãe Chaie haviam fugido dos massacres da Lituânia e das campanhas anti-judaicas, das pilhagens, assassinatos e espoliação perpetrados com a conivência dos governos poloneses e russos.

A aldeia, toda construída em madeira, era freqüentemente incendiada pela arraia-miúda e as perdas de vidas humanas e bens materiais era significativa. O desespero dos judeus que sobreviveram à violência dos massacres aparece em seus semblantes – sempre retratados com suas longas barbas, de olhos fechados e levando as mãos à cabeça, choram incessantemente, pedindo socorro uns aos outros. Um indescritível sentimento de sofrimento e dor exprime incerteza em relação ao futuro da comunidade.
 
O shtetl não era apenas um lugar em que habitavam judeus. Para a maioria, era muito mais que um espaço geográfico. Representava um modo de vida voltado para a tradição e os costumes ancestrais, legitimado por símbolos e valores essenciais da sobrevivência judaica através dos tempos. Talvez por isso, Gurvich decidiu colocar na tela Pogrom a mesa do Shabat com duas velas acesas, como que deixando transparecer a mensagem de que nenhum pogrom conseguiria destruir a tradição milenar de Israel.

Nesse óleo, Gurvich deixa claro que o shtetl estava organizado sobre os alicerces da lei judaica. A vida social nessas mini-sociedades era completamente hierárquica, estratificada e patriarcal.
A maioria das vítimas retratadas na tela Pogrom são homens, afinal eram eles os indivíduos mais respeitados da comunidade judaica. A maioria das mulheres, mesmo provedoras do sustento familiar, permaneciam ainda numa situação de subordinação e dependência. Propositadamente ou não, foram pintadas na parte inferior da tela.

No shtetl havia a camada dos estudiosos, incluindo-se rabinos, mestres, juízes e até servidores da comunidade. No entanto, a maioria das famílias obtinha o sustento do comércio e do artesanato. A aldeia judaica mantinha suas tavernas, hospedarias, celeiros de grãos e depósitos de madeira. A tela Pogrom retrata um carroceiro em prantos, segurando uma criança com um braço e, no outro, transportando um pequeno caixão com um cadáver, resultado do massacre. O anti-semitismo também está presente no quadro. Na camisa branca de um judeu sobressai uma estrela de
David, o símbolo da discriminação religiosa durante a Idade Média e, séculos depois, na Alemanha do Terceiro Reich. Afinal, o shtetl sobreviveu nos territórios do Leste europeu até eclodir a 2ª Guerra Mundial, em 1939.

Fortemente influenciado pelo artista plástico Marc Chagall e pelo escritor Scholem Aleichem, Gurvich coloca na tela Pogrom a figura do violinista. Não é o violinista azul de Chagall. Ele é um violinista de idade que deve ter presenciado outros massacres no passado. Aparece no centro da cena para, com sua música, amenizar a tragédia que se abate sobre o shtetl. O violinista de Gurvich, longe de ser um sonhador tipo “Violinista no Telhado”, mais se aproxima àquela figura consoladora diante da dor e do sofrimento que acomete a aldeia.

Palavras finais

O presente estudo, elaborado após visita ao Museu José Gurvich, possibilitou resgatar a simbologia judaica presente na obra deste talentoso artista uruguaio.

A visão artística de Gurvich deve ser estudada como um verdadeiro mosaico de identidades múltiplas, todas indispensáveis para entender a real extensão de sua obra. Entretanto, estas identidades convergem com as várias etapas artísticas vividas pelo artista. As mudanças ocorridas na sua vida pessoal certamente causaram modificações na própria produção artística, e estas, por sua vez, alteraram cada contexto retratado nas suas telas.

É comum dar ênfase à temática judaica do artista e, conseqüentemente, vê-la tão presente na sua arte para sublinhar valores de diversidade e pluralismo. Num mundo globalizado, sua arte contribui para acentuar a real importância das tradições nas diversas comunidades, neste caso específico, a judaica.

Gurvich rejeitou a unicidade da herança judaica. Por isso, tentou resgatar heranças mais complexas que também contribuem para enriquecer e gerar uma dimensão artística mais diversificada. Seus trabalhos coloridos constituem um exemplo ímpar para o pluralismo, ensinando-nos que os diversos momentos da existência de um povo podem e devem ser retratados visualmente, destacando-os positivamente entre as culturas.

Com sua arte construtiva, ele nos ensina que, para viver na Diáspora em sociedades democráticas, não é necessário renunciar às diferenças nem abrir mão da identidade. Ao contrário, a valorização da diferença lhe permitiu ser intensamente judeu e uruguaio. Sua herança artística é um patrimônio de extremo valor que contribui para o permanente enriquecimento intelectual de todos aqueles que apreciam a arte.

Por sua preocupação com a transitoriedade das tradições judaicas no mundo moderno e a sua reflexão sobre os grandes cataclismas da história no século 20, a obra de Gurvich merece lugar de destaque no panorama das artes plásticas da América Latina.

Bibliografia:

Cecato, Valdete, As transições judaicas de José Gurvich. REVISTA 18. Centro de Cultura Judaica. Casa de Cultura de Israel. São Paulo, Ano VI – número 26 – Dezembro 2008/Janeiro-Fevereiro 2009, págs. 22-26.
Cruz, Pedro da, José Gurvich y el Judaísmo: Poética del kibutz. EL PAÍS CULTURAL No. 1073, 25 de junio de 2010. Montevideo, Uruguay.
Haber, Alicia, Gurvich: Rescatando raíces judías con imaginación. Em: Los universos judíos de José Gurvich. Catálogo de la Exposición. Museu Gurvich. Empresa Gráfica Mosca. Montevideo, s.d., págs. 11-13.
José Gurvich. Exposición de Diciembre 97 a Marzo 98, con los auspícios de la Embajada del Uruguay en Argentina. Textos de Fermín Fèvre. Centro Cultural Borges. Buenos Aires, s.d. (Catálogo com excelente bibliografia).
Listur, Silvia, Gurvich, El Judaísmo y los temas universales. Em: Los universos judíos de José Gurvich. Catálogo de la Exposición. Museu Gurvich. Empresa Gráfica Mosca. Montevideo, s.d., págs. 7-9.

O Prof. Reuven Faingold é historiador e educador, PHD em História e História Judaica pela Universidade Hebraica de Jerusalém. Professor titular da pós-graduação no Departamento de História da Arte da FAAP em São Paulo e Ribeirão Preto, é também sócio fundador da Sociedade Genealógica Judaica do Brasil e, desde 1984, membro do Congresso Mundial de Ciências Judaicas de Jerusalém.