Morashá
Michel Kikoïne Foto Ilustrativa

Michel Kikoïne

O olhar e as cores na obra singular do artista bielorrusso, pioneiro da escola de paris.

Edição 59 - Dezembro de 2007


"Paris foi chamada com justiça La capitale du dix-neuvième siècle(...), mas o século de glórias da nation par excellence estava por terminar, e Paris foi abandonada, sem significação política e sem esplendor social, à vanguarda intelectual de todos os países"1.

Artistas dos mais diversos países circulavam pelo bairro de Montparnasse, em Paris, no início da década de 1910. Em um passado recente, a cidade vira brotar nos ateliês e nos salões de arte 2 novos rumos e idéias para as artes plásticas. Sem perder a forte referência em Cézanne, os Fauvistas simplificavam formas e tornavam as cores mais vivas e agressivas; os Cubistas, por sua vez, levaram a idéia dos blocos monocromáticos de Cézanne e a geometrização da natureza às últimas conseqüências, rompendo em definitivo com a tradição pictórica ocidental.

Nesse contexto, uma miríade de artistas de todo o mundo desembarca em Paris, a cidade da liberdade intelectual e artística. Vinham em busca não apenas desses novos ventos que emanavam das margens do rio Sena, mas também da possibilidade de desenvolver suas formas de expressão livremente e de, talvez, verem aceitos seu trabalho e sua arte.

Esses artistas não foram, no entanto, recebidos de braços abertos, nem tampouco acolhidos com luxo e opulência; não encontraram ali o sucesso fácil - muitas vezes nem mesmo o encontrariam em vida. Porém ali eles existiam - à margem da aristocracia e da alta burguesia, mas estabelecidos nos limites geográficos da cidade de Paris. Do tempo dos Impressionistas até o surgimento do Cubismo, o lugar era Montmartre. Mas no início da década de 1910, o epicentro da revolução artística é Montparnasse.

Os cafés e restaurantes de Montparnasse tornaram-se o grande palco, o ponto de encontro dos artistas, lugar de apaixonadas discussões, trocas de idéias e de muita confusão. Primeiro, a "Closerie des Lilas", os cafés "Le Dome" e "La Rotonde"; e, por fim, o grandioso "La Coupole", foram os mais importantes locais por onde circulavam esses artistas.

Foi nesse ambiente febril que desembarcaram, entre 1912 e 1913, Michel Kikoïne e, em seguida, Chaïm Soutine. Ainda jovens, procuravam espaço para desenvolver sua arte na grande cidade. Kikoïne nascera em 1892, em Gomel, na Bielorrússia, então Rússia. Logo sua família mudou-se para Rechytsa, onde até 1904 ele realizou estudos religiosos. Ainda jovem, tornou-se simpatizante do Bund (partido socialista judeu-russo), e fez-se grande amigo de Chaïm Soutine, um ano mais jovem e também aspirante à vida de artista. Juntos, os dois partiram para Vilna, onde estudaram na Escola de Belas Artes. Sentindo-se distantes da pulsação artística e sem possibilidades de expandir seus horizontes, Kikoïne e Soutine seguiram para Paris - onde já vivia um outro pintor que fora colega e amigo em Vilna, Pinchus Kremegne.

Michel Kikoïne e a 'Escola de Paris'

Ao chegar a Paris, Kikoïne se alojou em uma espécie de habitação para jovens artistas. O La Ruche fora construído pelo escultor acadêmico Alfred Boucher, com o intuito de abrigar aqueles que chegassem à cidade de Paris sem condições de pagar os preços praticados pelos hotéis e pensões. Localizado em Montparnasse, o La Ruche se tornou assim a residência de muitos jovens artistas vindos do leste europeu: Marc Chagall, Jacques Lipchitz, Ossip Zadkine, dentre outros, moraram nesse lugar quase mítico. As condições ali eram muito precárias e os invernos pareciam ainda mais rigorosos; mas a possibilidade de contato e intercâmbio entre esses artistas fez do lugar um pólo significativo no cenário das novas experimentações nas artes plásticas. A respeito de sua ida à Paris, Chagall disse: "Eu aspirava ver com meus próprios olhos o que apenas ouvira falar de muito distante: essa revolução no olhar, essa transformação nas cores, que de maneira espontânea e astuta se fundia com um fluxo de linhas já concebidas. Isso não se via na minha cidade. O sol da Arte então brilhava apenas em Paris"3.

O jovem Kikoïne - assim como Soutine - passou a circular pela Paris de então buscando assimilar ao máximo aquela confluência de idéias e possibilidades. Passava horas no Louvre, observando e redesenhando as pinturas de Rembrandt. Apaixonou-se também por Cézanne, referências que estariam para sempre presentes em sua arte.

Para além dos museus, Kikoïne circulava também pela vida boêmia de Montparnasse, onde tinha contato diário com outros jovens artistas. Logo se converteu em bom amigo de Amedeo Modigliani, artista italiano, judeu de Livorno. Modigliani - que Kikoïne, com sucesso, apelidou de "Modi" - tinha uma grande admiração pela figura "bruta" de Soutine. Até a morte de Modigliani, em 1920, os três - Kikoïne, Soutine e Modigliani - alimentaram uma sólida amizade e, por vezes, viajaram juntos aos arredores de Paris e a Céret, em busca das "paisagens de Cézanne".

Além de Modigliani, Soutine e Kremegne, Kikoïne passou a ter contato com diversos outros artistas em meio à vida boêmia de Montparnasse: Utrillo, que era companheiro de bebedeiras de Modigliani; Jules Pascin, búlgaro que, devido ao seu sucesso financeiro precoce, era o rei das festas; os escultores Ossip Zadkine e Jacques Lipchitz; além de Picasso, Matisse, Kïsling e outros.

Sobre esse período, o crítico de arte André Warnod escreveu, em 1925: "a Escola de Paris existe", referindo-se a esse conjunto de artistas - em grande parte, imigrantes - que, com estilos tão variados, estavam em Paris produzindo a arte que marcaria a modernidade.

Ao longo dos anos, a expressão "Escola de Paris"4 teve usos distintos e, ainda hoje, podem-se encontrar dois significados para o termo. Por um lado, designa os artistas que, entre 1904 e 1939, estiveram em Paris, pais do movimento moderno e das vanguardas. Mas, por outro, refere-se aos artistas que não se vincularam diretamente às vanguardas (Fauvismo, Cubismo, Futurismo), mas que absorveram influências diversas em seu trabalho - sem que suas obras necessariamente se identificassem entre si. Grande parte desses artistas eram imigrantes que já estavam em Paris desde antes da 1a Guerra Mundial. Eles marcaram em definitivo a vida e a produção artística no período da Grande Guerra e, principalmente, no período do entre-guerras.

Kikoïne pintor

A pintura de Kikoïne se constrói balizada em diversas referências na história da Arte: em Rembrandt, Kikoïne encontra a temática das naturezas mortas e dos retratos, incorporando o trabalho cuidadoso com a luz e com a expressão dos retratados - principalmente no olhar. O trabalho com a luz que aparece em meio ao ambiente escuro, tão caraterístico de Rembrandt, prevalecerá nos retratos e naturezas mortas de Kikoïne até o final de sua vida. De Camille Pissarro, Kikoïne traz para sua pintura a luz impressionista e o pontilhismo que, de maneira desordenada e pouco rigorosa, surgirá principalmente nas aquarelas e guaches. As cores dos Fauvistas marcaram definitivamente a geração em que Kikoïne e Soutine se inserem. Mais adiante, em seus trabalhos após a Segunda Guerra Mundial - as marinhas que pinta em La Garoupe, Kikoïne irá buscar referências nas cores e temas pintados por Courbet.

Mas é em Cézanne que Kikoïne tem sua grande referência. Ele fundamenta suas obras nas mesmas vertentes de Cézanne: seus temas são paisagens, naturezas-mortas e retratos; opta pela pintura como sua principal linguagem. E, mais além, inspira-se nos ângulos que o mestre havia construído em seu trabalho - embora Kikoïne tenha ousado ir além, muitas vezes criando ângulos inusitados e "enquadramentos" bastante curiosos.

O caldeirão de Kikoïne, no qual fervem todas essas influências, é o caldeirão da modernidade e, sobretudo, do movimento moderno na arte. Nesse sentido, não há mais espaço para o lento trabalho de admiração da luz - que Monet realizou com tanta destreza algumas décadas antes. Essa é a época da tecnologia que se espalha, do Telefone, do Automóvel e do Avião; todos esses equipamentos que foram responsáveis por tornar a vida social mais veloz e eficaz. No dizer de Proust, "Toda gente vive apressada, e sai-se no momento em que se devia chegar"5. Na pintura de Kikoïne pode-se observar a velocidade e a força das pinceladas - uma de suas características marcantes é o uso da tinta diretamente na tela em branco, sem o esboço a lápis.

Uma característica importante do período moderno é o Movimento. O espaço para as coisas estáticas ficou nas reminiscências do Impressionismo e, mesmo um objeto parado, é observado com o movimento daquele que se encontra atrás da tela. O momento é efêmero, a situação é única, cada visão da natureza passa violentamente - é o tempo da fotografia, que se difunde: a representação do real não mais está a cargo da pintura, pelo menos enquanto mero registro documental. As pinceladas seguras e determinadas de Kikoïne jogam com o movimento dos elementos: o balanço das folhas, o vento, o caminho das nuvens e o olhar fugitivo dos homens e dos animais.

Na composição e na escolha das cores, Kikoïne é muito cuidadoso. Suas cores são preparadas delicadamente e em suas pinceladas notam-se as nuances, mesmo que em cores fortes e gritantes. Como notou Jean Cassou, "Há a presença marcante da alegria nas pinturas e aquarelas de Kikoïne. Ele começava com os marrons: um colorista nato, cheio de talento, não pode ir direto para as cores quentes: ele deve persegui-las."6

Outra característica marcante na pintura de Kikoïne é o modo como ele se sente à vontade com os diversos materiais com que trabalha. Sua necessidade de se expressar através da pintura e do desenho é instintiva e não há preocupações metodológicas que possam restringi-lo, sobretudo no trabalho sobre o papel. Ele muda os materiais com que pinta ao longo do processo, podendo começar com o lápis, passar para o pastel, usar a aquarela, depois um guache e terminar com tinta óleo, assinando com lápis ou com nanquim.

Assim como Chagall ou Soutine, Kikoïne trazia consigo a herança da vida judaica no shtetl7. Para ele, uma paisagem campestre não é apenas uma ninféia ou um conjunto de montanhas, mas é também a vivência cotidiana que dá a dimensão do que ali se representa. Um camponês, uma casa, um animal, um soldado, um homem montado ou um casal namorando, tudo está contido na paisagem - a vida de quem habita a aldeia, muito distante da agitação da grande cidade. Essa é uma contribuição importante que os artistas judeus desse período (Kikoïne, Soutine, Chagall, Mane-Katz) conferiram à pintura: trouxeram o elemento humano simples e camponês para suas paisagens. Essa influência da vida judaica emergia de sua arte, mesmo que - assim como Soutine - Kikoïne tenha sido fundamentalmente um judeu da diáspora, que se pretendia universal na busca pela realização de sua arte.

Kikoïne chega à Paris com as reminiscências do shtetl em seu imaginário, mas a realização disso em sua pintura, a linguagem a que Kikoïne recorre, é construída em Paris. A visão que tem da realidade - que ele transfigura - encontra sua ascendência léxica, por afinidade, em Cézanne e Rembrandt.

A tradição pictórica entre os judeus do leste europeu não era forte. Assim, mesmo Chagall, que manteve em seus temas um forte laço com o judaísmo, teve - como Soutine, Kremegne ou Kikoïne - fortes influências do que acontecia em Paris. Kikoïne se redescobrirá judeu apenas nos tempos difíceis da 2a Guerra Mundial e da ocupação nazista na França. Ele foi mobilizado para a reserva do exército francês mas não chegou a combater. Com a ocupação, Kikoïne se apresentou à convocação dos judeus e, por um certo tempo, usou a 'estrela amarela'. Mais tarde, convencido por seus filhos a fugir, refugiou-se com a família na região de Toulouse, onde permaneceu durante toda a guerra. Ainda assim realizou exposições em galerias particulares, na região.

Em 1950, Kikoïne viaja ao recém-criado Estado de Israel onde, além de pintar suas paisagens, expõe seus trabalhos. Marcado pela viagem, ele passa então a incorporar símbolos do judaísmo em sua arte - e diz ser Israel sua segunda pátria.

Kikoïne retorna a Israel mais duas vezes, em 1954 e 1958. Apaixonado pela beleza das paisagens, diz: "As paisagens de Israel têm dois planos: a terra e o céu. A terra é uma grande massa vermelha. O céu se transforma: cinza, azul ou dourado; na areia brotam os pontos brancos das casas. A natureza israelense me ensinou sobre a pintura mais do que todos os impressionistas juntos"8.

A obra de Kikoïne esteve em constante desenvolvimento e mudança ao longo de sua vida. As fases em que podemos dividir sua pintura são bem demarcáveis e dificilmente as confundimos. Ao chegar a Paris, traz consigo uma bagagem acadêmica, que logo se dissipa em meio à paixão por Cézanne. Até 1920, sua obra buscará ao máximo a identificação com a do mestre Cézanne. A partir de então, mais livre e independente de suas referências, Kikoïne terá uma obra marcada pela violência das pinceladas, a liberdade e firmeza no traço que serão caracterizados como sua fase Expressionista - pela evidente identificação com este movimento. Essa fase se estenderá até o fim da 2a Guerra Mundial, em 1945. A partir de então, suas paisagens trarão uma nova abordagem sobre a natureza: serão compartimentadas em blocos de cores geométricos que se contorcem, e as cores serão mais turvas do que as da fase expressionista. No fim de sua vida, nos anos de 1960, Kikoïne buscará referências em Courbet, pintando marinhas e utilizando mais os tons pastéis. Em seus últimos anos, experimentará também a composição através de colagens.

Com uma trajetória singular dentro de uma geração de artistas muito talentosos, Kikoïne realizou um trabalho intenso e prolífico, que se manteve em constante desenvolvimento ao longo de sua vida. Sua obra permanece sólida e consistente aos olhos do observador nos dias de hoje. Dentre os pioneiros da "Escola de Paris", a obra de Kikoïne ainda permanece semi-encoberta, ofuscada pelos colegas famosos - como Chagall, Modigliani e Soutine. Ainda restrita à França, Israel e uns poucos museus no resto da Europa e no Japão, sua redescoberta parece, no entanto, uma questão de tempo. Não apenas por estar no cerne da produção artística da "Escola de Paris"; mas, sobretudo, pela riqueza e expressividade que se desvenda em cada uma de suas pinturas.

Notas:

1 Arendt, Hannah. "Os Judeus e a Sociedade" In: Origens do Totalitarismo. São Paulo: Cia das Letras, 1989. p. 101.

2 Em Paris, nesse período, aconteciam diversos salões para divulgar o trabalho dos novos artistas, dentre eles o Salão dos Independentes, o Salão de Outono e o Salão das Tulherias

3 Extraído do material de divulgação da exposição "Paris in New York: French Jewish Artists in Private Collections", exibida no Jewish Museum de Nova York.

4 Em francês, "École de Paris".

5 Proust, Marcel. A Prisioneira. São Paulo: Globo, 1998. p. 264.

6 Cassou, Jean. "Michel Kikoïne". In: Vários Autores. Kikoïne (Catalogue Generale). Paris: H. Piazza, 1973

7 Shtetl: Vilas, aldeias ou agrupamentos rurais onde residiam apenas jJudeus, característicos do leste europeu.

8 Kikoïne, Michel. "Rétro-Visions". In: Vários Autores. Kikoïne, les pionniers de l'École de Paris. Paris: Albaron, 1992.Segre, Bruno. Gli ebrei in Itália, Ed Giuntina, Florença, 2001.

João Grinspum Ferraz - Mestrando em Ciências Políticas pela Universidade de São Paulo (FFLCH - USP)

N.R.: João Grinspum Ferraz criou o "Projeto Kikoine" que pretende catalogar as obras do autor no Brasil para pesquisa e futuras publicaçoes ou exposiçoes. O contato poderá ser feito via email: kikoine@uol.com.br ou pelo telefone (11) 9659-5346