Morashá
Max Liebermann Foto Ilustrativa

Max Liebermann

Um dos maiores pintores alemães do século 20, figura de conquistas extraordinárias e importância pública, teve um papel proeminente em moldar a vida cultural de Berlim. Como judeu, sua influência foi excepcional, mas infelizmente sua brilhante carreira assim como sua vida acabaram sendo destruídas pelo nazismo.

Edição 79 - Março de 2013


Inicialmente um pintor realista, em seu trabalho posterior Liebermann transcendeu a fórmula do século 19 que ditava que o pintor pintasse “o que via”, almejando atingir um reino mais abstrato da “pintura pura”, inspiração essa que, em anos
futuros, valer-lhe-iam o apelido de “o Manet dos alemães”.

Além de pintor e desenhista,  era um grande colecionador, respeitado teórico da arte e escritor. Liebermann foi também um dos fundadores do Movimento da Secessão na Arte. Presidiu, de 1920 a 1932, a Academia Prussiana de Arte. Deter  uma posição de tamanha autoridade somente foi possível a um judeu durante esse breve período, na história da Alemanha moderna. Entre suas principais contribuições está a luta que empreendeu para promover a diversidade e a liberdade nas artes.

Após a tomada do poder pelos nazistas, todas as suas conquistas foram difamadas e, na medida do possível, apagadas da memória coletiva da nação. Seus trabalhos naturalistas e impressionistas, banidos pelos nazistas, em 1933, por serem considerados exemplo do que fora definido pelo Reich como “Arte Degenerada”, foram retirados dos museus e galerias do país. E, durante a Guerra, muitos de seus trabalhos foram destruídos ou perdidos;  mais de um terço deles – principalmente estudos para trabalhos maiores  – não puderam ser localizados depois da 2ª Guerra.

Vida e carreira

Max, segundo filho de Louis e Phillipine Liebermann, nasceu em 20 de julho de 1847 em uma das famílias judaicas mais abastadas de Berlim. Sua família mesclava a tradição judaica com a cultura prussiana e o liberalismo. A fortuna dos Liebermann se consolidara e diversificara na segunda metade do século 19. Da manufatura e do comércio de tecidos, seu avô, Joseph, ampliara os negócios da família. E a partir de 1880, os Liebermann passaram a atuar no setor bancário.

Já multimilionário quando Max nasceu, seu pai, Louis Liebermann, comprou, em 1859, uma propriedade na Pariser Platz 7, à direita do Portão de Brandemburgo, local de grande prestígio no centro cerimonial de Berlim. Desde jovem, Max demostrara não ter interesse pelos negócios da família – queria mesmo era ser artista. Essa vontade enfrentou resistência por parte de seu pai, que acreditava em disciplina, trabalho duro e estabilidade, algo que a vida de um artista não lhe poderia oferecer. 

Antes de deixar o filho trilhar seu próprio caminho, Louis exigiu que ele recebesse uma educação clássica. Ele também frequentou, assim como seus irmãos, cursos de religião judaica, conversação em francês, música, arte, dança e esportes. Seus pais o criaram para ser destemido, honesto e ter condições de desenvolver sua própria personalidade e compreensão do mundo. Instilaram nele um olhar tolerante e livre para a vida, uma empatia e senso de responsabilidade pelo destino dos outros.

Max frequentou o Ginásio Friedrich-Werdesche e lá teve as primeiras aulas de desenho com Eduard Holbein. O talento que se confirmaria no jovem adulto, começa a se fazer ver nos desenhos feitos nesse período. Ao concluir o ginásio, Liebermann decidiu dedicar-se apenas à arte, já contando a essa altura com o apoio financeiro do pai.

Seu primeiro óleo conhecido, “Portrait de Felix Liebermann”, de 1865, mostra seu talento para a arte do retrato. Nele reproduz a imagem do irmão mais novo, concentrando-se na beleza e atitude sensível do jovem. No ano seguinte, 1866, faz seu primeiro curso sério de arte com Carl Steffeck, então o melhor pintor equestre da Alemanha. Com esse mestre ele aprendeu a importância de saber desenhar. Steffeck conseguiu transmitir ao aluno seu interesse nos trabalhos que exibiam observação da natureza e seu entusiasmo pela Escola Holandesa do século 17. Outro aluno desse mestre, Wilhelm von Bode, introduziu Max às técnicas de pintura dos artistas holandeses do século 17, principalmente Frans Hals1.

Dois anos mais tarde, Liebermann sentiu que já aprendera tudo de seu professor berlinense e decide partir para a Academia de Belas Arte de Weimar2. Uma das maiores escolas de belas artes na Alemanha, esta era menos acadêmica e mais progressista do que as demais.

O jovem acabou ficando em Weimar durante três anos. Durante esse período, dois professores exerceram grande influência sobre ele – Charles Verlat e Theodor Hagen. Verlat – um discípulo de Corbert, que favorecia o realismo sobre a pintura histórica e mitológica, era diretor da Academia. Theodor Hagen, apenas quatro anos mais velho do que Liebermann e com quem desenvolvera um relacionamento fraternal, teve uma influência ainda maior na vida artística do jovem. Na primavera europeia de 1871, Hagen leva o amigo para Dusseldorf, e o apresenta a Mihály Munkácsy, pintor judeu húngaro cujas obras realistas tiveram grande impacto sobre Liebermann.

A influência de Munkácsy está presente no primeiro dos grandes óleos de Liebermann, “Meninas depenando gansos” (1872). O realismo presente nessa obra passou a ser uma das principais características de sua arte. Atualmente os estudiosos acreditam que a viagem que ele fez, em 1871, à Holanda, tenha sido também vital para a escolha da temática bem como para sua forma de execução. Quando o quadro foi apresentado naquele ano, em Hamburgo, foi elogiado pela sua técnica e abordagem. Foi a primeira obra que o artista submeteu ao Salão de Paris.

A partir da década de 1870 até o início da 1ª Guerra, Max passava os meses de verão na Holanda, considerando essas viagens uma fonte de inspiração para os temas de seus mais importantes trabalhos, além de lá ter desenvolvido inúmeras técnicas de pintura. “A Holanda foi muito justamente chamada de a terra da pintura, par excellence”, escreveu. “Aqui eu sou um pintor, aqui me transformei em um pintor”. Metódico e dedicado, Max havia criado uma rotina: escolhia um lugar para passar o verão e lá fazia esboços buscando retratar e traduzir de forma simples o que captava.

De volta à Alemanha, usava esses desenhos como base para as pinturas que produziria no inverno, em seu estúdio. Até 1895, os principais temas da obra de Liebermann giravam em volta do cotidiano da vida camponesa nas aldeias holandesas. São dessa época os óleos “Mulher limpando legumes” (1872) e “Autorretrato com Natureza morta na cozinha” (1873), este o seu primeiro autorretrato. Foram os últimos quadros que pintou antes de terminar seus estudos na Academia de Weimar e se mudar para Paris. Escreve: “Até o final de 1873 me considerava suficientemente bem desenvolvido (como artista) para me mudar para Paris”.

Liebermann viveu em Paris por cinco anos, de 1873 a 1878. Como o sentimento anti-alemão era forte após o fim da guerra franco-prussiana (1870-1871), ele tinha pouco contato direto com artistas franceses. Seu círculo de amigos era limitado aos pintores alemães, além de Munkácsy, que se instalara em Paris naquele ano de 1873.

Nessa cidade, ele logo se viu influenciado pela Escola Barbizon de Pintura. Atuante de 1830 até 1870, era assim-chamada pelo fato de seus integrantes se estabelecerem próximo ao povoado de Barbizon. Entre seus expoentes destacavam-se Jean-Baptiste Camille Corot, Jean-François Millet e Théodore Rousseau. A Escola era parte de um movimento que se acerca do Realismo na arte. Seus seguidores haviam abandonado o formalismo e o academicismo para buscar a inspiração de suas obras diretamente na natureza. A paisagem e outras cenas naturais foram sua temática mais recorrente, como elemento protagonista e não como mero pano de fundo. Alguns dos traços mais destacados dessa Escola são a qualidade de suas tonalidades, suas cores, suas pinceladas soltas e a suavidade da forma. Devido a seu interesse em pintar o mundo à sua volta, eles são considerados os precursores do Impressionismo francês.

Ao longo de toda a sua carreira, Liebermann sempre voltava a imagens e ideias dos pintores da Barbizon: o oceano e o litoral, cenas de grupos de ovelhas e vacas no pasto, agricultores perdidos em uma imensidão de terra.
Seus anos em Paris foram proveitosos para desenvolver sua carreira e mesmo nessa fase inicial havia mercado para seu trabalho. Enquanto residiu na cidade suas pinturas foram aceitas no Salão de Arte de Paris.

Apesar da atração da vida cosmopolita em Paris e a grande oferta de temática realista em Barbizon, o interesse de Liebermann pela Holanda continua a se intensificar tanto como fonte de motivos rurais como pela oportunidade de estudar em primeira mão as técnicas pictóricas de Frans Hals. Ainda em busca de temas do cotidiano que pudessem levá-lo a uma exclusiva identidade artística, o estudo inicial para a pintura de um orfanato em Amsterdã deu a Liebermann a reputação de pioneiro do modernismo na arte alemã do século 19.

De volta à Alemanha

Em 1878, o artista regressa à Alemanha, instalando-se primeiro em Munique, onde ficou até 1884. Nos últimos 25 anos do século 19, esta cidade foi considerada igual em importância a Paris devido ao apoio que deu às artes.

Em 1881, Liebermann conheceu Jozef Israelis, o pintor holandês que liderou a Escola de Hague. Os dois desenvolveram uma amizade que se estenderia por toda a sua vida. A representação artística de Israelis de camponeses e gente pobre, pintadas em uma atmosfera suave teve forte impacto sobre Liebermann.

Ele já era um pintor famoso quando volta a Berlim e se casa, em 1884, com Martha Marckwald. Os eventos ocorridos em sua vida pessoal e profissional afetaram a direção de seu trabalho e o levaram à maturidade plena como pintor.

Liebermann acreditava que seria aceito como artista consagrado em sua cidade natal, mas como pintor realista era considerado, de certa forma, um “renegado” no mundo da arte tradicional berlinense. Voltando à Berlim um pouco mais de uma década após a unificação alemã e a criação do Império, Liebermann viu que sua atitude cosmopolita estava fora de sintonia com a identidade cultural germânica – heroica e clássica – que se promovia na nova nação.

Quase imediatamente ele se viu enredado pela política cultural. O artista adotava, às vezes, atitudes contraditórias; num momento estava de braços dados com a comunidade artística de orientação tradicional, para, logo a seguir, provocadoramente apoiar a arte moderna. Sua decisão, em 1889, de ajudar a organizar uma exposição de arte alemã na Feira Mundial de Paris foi recebida com desprezo pelo Governo alemão e seus seguidores.  Liebermann também participou de dois movimentos separatistas no mundo das artes alemães  – Os Onze e a Secessão Berlinense. Em várias cidades alemãs – Munique, Dusseldorf, Weimar, Dresden, entre outras, os artistas tinham iniciado movimentos separatistas cujo objetivo era se distanciar das organizações e exposições de arte controladas pelo Governo. Lieberman presidiu a Secessão Berlinense até 1911. Este grupo, estilisticamente ligado ao Impressionismo, contribuiu para o surgimento e sucesso de uma arte alemã com espírito crítico.

Apesar de ter recebido uma medalha de ouro na Exposição Internacional de Arte, em Munique, por sua tela “Velha senhora com cabras”, levou vários anos para que Liebermann fosse finalmente aceito e reconhecido em sua cidade natal. Em honra de seu 50o aniversário, teve uma exposição individual na Real Academia de Artes e, um ano depois, foi eleito para a Academia com os títulos de Pintor, Professor e Acadêmico.

Em 1892, após a morte de sua mãe, ele transfere a esposa e a filha para a casa de seus pais, na Pariser Platz, e após a morte do pai, dois anos mais tarde, herda a propriedade. A casa se tornou um poderoso símbolo da persona do artista. Liebermann também herdou considerável patrimônio e começa a desenvolver uma das mais importantes coleções de arte moderna de Berlim, tendo o Impressionismo francês como foco central. Entre todos, seu preferido era Manet.

Até então, em sua carreira, Liebermann favoreceu a abordagem artística de Frans Hals, cuja seleção de cores vibrantes eram justapostas com o sépia através de toda a tela.

No entanto, quando começou a colecionar os impressionistas franceses e teve a chance de estudar suas pinturas, ele muda de opinião sobre a autonomia impressionista das cores3. Por volta de 1890, a luz se torna um elemento essencial no trabalho de Liebermann, que começa a trabalhar com pastel, o que lhe permite uma espontaneidade maior do que o óleo.

Apesar de continuar suas viagens anuais de estudo na Holanda, sua temática ganhou um novo frescor. De modo geral, sua obra adquiriu nova abordagem – redução do número de objetos, da luz e do movimento à forma mais simples possível, executados com pinceladas concisas, porém abstratas. Essas mudanças deram a ele um novo ímpeto para desenvolver o que era interpretado, em seu tempo, como uma resposta alemã ao Impressionismo francês. Nas palavras do escritor Julius Elias (1861-1927), “Liebermann foi o fundador do naturalismo alemão e, na época, tornou alemão o Impressionismo francês”. O trabalho “Mulher do Artista na Praia”, de 1895, é um dos exemplos da nova abordagem do artista a seus temas e à execução, usando uma nova paleta de cores mais luminosas.

Em meados de 1890, ele começa a escolher uma temática mais relevante para sua própria vida e se preocupa mais com elementos de luz, atmosfera e cor. Com isso, suas pinturas adquirem qualidades como leveza, reproduzindo a atmosfera e o calor real que delas emana.

Outro exemplo notável do novo estilo de Liebermann é uma série de pinturas do bairro judeu de Amsterdã, que ele fez de 1905 a 1909. Após alugar um quarto que dava para uma rua de grande movimento, ele fazia esboços da multidão, dos judeus no mercado. Em cartas de Amsterdã a um amigo, descreve as dificuldades de pintar os mercados ao ar livre, cheios de vida, nos dias de chuva, e os judeus religiosos que relutavam em se deixar retratar.

Este período mais experimental de sua carreira coincidiu com o aumento de sua projeção como teórico da arte e escritor. Desenvolveu-se, também, como retratista. Enquanto pintava um portrait, ele se concentrava no indivíduo retratado de forma honesta e direta. De 1908 até quase o final de sua carreira, ele pintou mais de 200 retratos por encomenda, em telas a óleo e pastel. Entre seus retratados contavam-se líderes do Governo, empresários e personalidades do mundo das artes e ciências.

Com a eclosão da 1a Guerra, Liebermann não pôde mais viajar à Holanda. Assim sendo, passou os verões europeus de 1914 a 1918 em sua nova villa na costa do grande Lago Wannsee, a qual ele orgulhosamente chamava de “meu palácio”. Com um jardim de sete mil metros quadrados projetados de acordo com suas ideias, o local serviu de inspiração para mais de 200 quadros. Ele pintou as várias áreas dos jardins repetidas vezes, mas a cada uma delas a pintura era diferenciada e muito individual. De certa maneira, aquilo estimulou sua futura experimentação com a luz emanada das cores e a dissolução das formas.

Com o término da 1a Guerra Mundial e a derrota do império alemão, foi estabelecida a República de Weimar em solo alemão. A nova república democrática oferecia a possibilidade de uma sociedade tolerante, com igualdade para seus cidadãos. No entanto, desde o início, a República foi açoitada por uma economia instável, além dos difíceis termos do tratado de paz e de grandes polêmicas entre os inúmeros partidos políticos. Contudo, para muitos judeus alemães, a República de Weimar oferecia novas esperanças.

Em outubro de 1920, Liebermann foi eleito presidente da Academia Prussiana de Artes, uma posição que seria impensável para um judeu no regime do Kaiser. Ele ficou nesse cargo por 12 anos – façanha sem precedente – até ser forçado a sair em 1932, com o título de presidente honorário.

Tempos sombrios

Quando Adolf Hitler foi nomeado chanceler da Alemanha, em janeiro de 1933, muitos judeus acreditavam se tratar de uma situação temporária. Liebermann, não. Por anos tivera que lutar com os membros reacionários antissemitas da Academia e tinha plena consciência de que a atitude dessa gente refletia uma situação muito mais ampla e maligna.
A Alemanha passou rapidamente de uma república para uma ditadura nazista que tinha o antissemitismo como sua principal bandeira. Ele costumava dizer que “seu estomago se embrulhava” ao ouvir os discursos de Hitler e o som das botas negras que marchavam pelas ruas.

Logo no início de 1933, os nazistas iniciaram o processo de arianização e uma das medidas imediatamente implantadas foi o afastamento dos judeus de todas as atividades comerciais, culturais, educacionais e governamentais. A Academia Prussiana de Artes estava sob a jurisdição do Ministério da Cultura e sua diretoria e seus membros eram considerados funcionários públicos.

A Academia divulgou sua nova política: não mais empregaria judeus nem seus descendentes. No dia 7 de maio de 1933, Liebermann, que era então presidente honorário da instituição, deixou de ser membro da entidade. Dois dias após sua renúncia e apenas um dia antes da famigerada queima de livros em praça pública, prevendo o caos e a perseguição que se instalariam na Alemanha, ele enviou 12 pinturas de sua coleção particular para uma exposição na Kunthaus, em Zurique. Na verdade, a mostra na Suíça era um pretexto para salvar parte de seu acervo particular.

Como reação ao isolamento de toda a vida cultural organizada do país, os judeus começaram a criar suas próprias instituições, entre as quais o Museu Judaico, em cuja fundação Liebermann teve importante participação.

Em seus últimos anos de vida, a nova Alemanha forçou-o a refletir sobre o papel que o judaísmo teve em sua identidade. A noção de “Arte judaica” muito o intrigava. Em 1933 ele escreve a Bialik que, à época, vivia em Tel Aviv: “Como um terrível pesadelo, a anulação da igualdade de direitos pesa sobre todos nós, mas em especial sobre os judeus, que, como eu, nos rendemos ao sonho da assimilação... Por mais difícil que tenha sido para mim, despertei de um sonho que vinha sonhando durante toda a minha vida”.

Numa tentativa de chamar a atenção sobre o patriotismo dos judeus alemães, em particular dos 12 mil que morreram lutando pelo país durante a 1ª Guerra Mundial, ele desenha, em 1935, a litografia “Às mães dos 12 mil”. O quadro, que foi financiado por uma organização nacional de soldados judeus, retrata uma mulher ao lado do túmulo de seu filho. Havia a ilusão de que ressaltar a participação judaica durante a guerra de 1914 poderia ao menos proteger os veteranos das medidas antijudaicas promulgadas pelas autoridades.

Uma irrupção de criatividade favoreceram seus últimos cinco anos de vida. Encontrando refúgio em sua casa, em Wannsee, ele pintava enquanto a Alemanha passava por um processo de profunda e trágica transformação. Pintou os jardins que tanto amava e, entre outros trabalhos, fez, em 1932, o retrato de seu vizinho, Dr. Sauerbruch, considerado um dos seus quadros mais importantes do gênero. É desse mesmo período o seu famoso “Autorretrato com pincéis e paleta”, de 1933, que ele doou ao Museu Judaico de Berlim.

Em 1934, pintou o último quadro para uma mostra na Leicester Gallery, em Londres, denominado “O retorno de Tobias”. A obra conta a história de um homem cego que recupera milagrosamente a visão quando seu filho retorna ao lar. A abordagem da volta ao lar e renovação coincide com a sua recém-adquirida crença no sionismo, expressa em uma carta que enviara em 1931 ao prefeito de Tel Aviv, Meir Dizengoff. Os traços indefinidos do artista em seus últimos trabalhos revelam a diminuição das forças e da vitalidade de uma pessoa derrotada tanto pela idade quanto pelo pessimismo.

Liebermann fica cada vez mais deprimido à medida que piora a situação dos judeus alemães. Pouco antes de sua morte disse a um amigo que o visitava: “Eu já não olho mais através da janela deste quarto. Acredite em mim: preferiria morrer hoje a morrer amanhã”. Em 1934, adoeceu gravemente e, três meses depois, faleceu em seu apartamento em Berlim, em 8 de fevereiro de 1935.

Após a morte

Após a morte do artista, sua esposa Martha também foi vítima de perseguição, mas se recusou a emigrar para os Estados Unidos com a filha Kathe Riezler e sua família. Martha não queria deixar Berlim porque seu marido estava enterrado nesta cidade. Quando finalmente decide partir, já era muito tarde... Os judeus já não conseguiam documentos para deixar o país.

Ela perdera todo o seu patrimônio e sobrevivia vendendo os poucos trabalhos do marido ainda em seu poder. No dia 20 de janeiro de 1942, a vila em Wannsee foi confiscada pelos nazistas e usada para hospedar os participantes da famigerada Conferência de Wannsee, reunião na qual foi posta em andamento a “Solução Final para a questão judaica”. Cinco dias depois de ter recebido uma ordem de deportação para o campo de concentração de Theresienstadt, Martha Liebermann suicidou-se com uma overdose de ansiolíticos.

As pinturas de Liebermann – tanto as que estavam nas mãos de colecionadores particulares quanto em museus, foram em sua maioria confiscadas ou destruídas pelos nazistas. Apenas a Galeria Nacional de Berlim, que mantinha em seu acervo quadros datados do final do século 19, que não eram tão “suspeitos” quanto suas pinturas mais modernistas, teve a permissão de colocá-las a salvo e, assim, estas sobreviveram à 2ª Guerra Mundial. Outras obras feitas a partir de 1910, foram consideradas “degeneradas”, sendo incluídas na chamada “Mostra de Arte Degenerada”, realizada pelos nazistas em 1936. Duas foram vendidas em leilões na Suíça.

Com o término da 2ª Guerra Mundial e a divisão da Alemanha, as pinturas de Liebermann começaram o caminho de volta para casa. Infelizmente, porém, até hoje, mais de um terço das obras de Liebermann não foram localizadas, sendo dadas como “desaparecidas”, “destruídas em trânsito” ou “não localizadas”.

Obras que haviam sido salvas foram expostas em museus e outras dadas como desaparecidas foram novamente compradas. Seus primeiros trabalhos, quando analisados dentro de um contexto de socialismo e marxismo, eram muito bem vistos no seio da República Democrática Alemã (ex-Alemanha Oriental). Na então República Federal da Alemanha (Ocidental), ele era admirado principalmente como impressionista. Muitas exposições foram organizadas e muito se escreveu sobre o papel que desempenhou no universo da arte no final do século 19 e início do século 20, voltando a ser visto como um dos principais representantes da história da arte alemã.

Desde o final da década de 1990, seus quadros puderam ser admirados em museus do mundo todo e inúmeras exposições de sua obra foram realizadas na Alemanha e nos Estados Unidos.

Bibliografia
Max Liebermann, from Realism to Impressionism.Coletânea de ensaios, edição Barbara C. Gilbert, Skirball Cultural Center, Los Angeles, University of Washington Press

1   Frans Hals foi um pintor belga, da Escola Holandesa do século 17, dono de um estilo naturalista e uma técnica precursora do Impressionismo, era famoso por retratar a sociedade burguesa dos Países Baixos.
2   Academia de Belas Artes do Grão Ducado de Weimar e Saxônica (Grossherzoglich-Sächsische Kunstschule Weimar)
3   A teoria impressionista da cor se baseia no emprego de cores prismáticas vibrantes e, em vez de formas desenhadas ou esboços, usa o contraste tradicional entre claro-escuro para definir as formas. As pinturas impressionistas são unificadas pela luz e troca de reflexos de cor.