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'Defiance' mostra nas telas a saga dos 'judeus da floresta' Foto Ilustrativa

'Defiance' mostra nas telas a saga dos 'judeus da floresta'

Lançado no final do ano passado nos Estados Unidos, o filme 'Defiance' se baseia no livro da historiadora Nechama Tec, 'Defiance: The Bielski Partisans'.

Edição 64 - Abril de 2009


Baseado na história real dos irmãos Bielski e seu grupo, o filme conta a história do maior resgate armado de judeus durante a 2a Guerra Mundial. Quatro irmãos judeus, Tuvia, Alexander Zisel "Zus", Asael e Aron (este último, muito jovem, na época) - interpretados respectivamente por Daniel Craig, o atual "James Bond", Liev Schreiber, Jamie Bell e George Mackay - após fugir para as florestas da Bielorrússia, formam uma comunidade de 1.200 judeus. Esses homens, mulheres e crianças passaram à História como os "judeus da floresta". Trata-se de uma crônica surpreendente de coragem e sobrevivência, que desafia a noção da passividade judaica durante o Holocausto. O movimento de resistência armada praticado pelos partisans Bielski visava perpetuar o espírito da vida em meio à matança dos judeus da Europa.

Enredo

O filme se inicia em dezembro de 1941, quando a Alemanha invade a ex-União Soviética, rompendo o pacto de não-agressão assinado com esse país, em setembro de 1939. A família Bielski vivia num pequeno sítio, em Stankiewicze, vilarejo próximo a Nowogródek. Antes do início da 2ª Guerra Mundial a região pertencia à Polônia, mas, dentro dos termos do acordo Hitler - Stalin, foi ocupada pelos russos quando do assalto nazista à Polônia. Naquele dezembro, durante a primeira aktion nazista contra os judeus da região, 4 mil judeus foram assassinados, entre os quais o casal Bielski, a primeira mulher de Tuvia e também a mulher e filhinha recém-nascida de Zus. Para completar, Nowogródek foi saqueada pela polícia polonesa a serviço dos nazistas.

Ao voltar para o sítio onde seus pais viviam, Zus e Asael os encontram mortos; somente o irmão menor, Aron, havia conseguido se esconder. Os irmãos decidem escapar para a floresta onde se reencontram com Tuvia. A família era pobre, vivia em uma fazenda pequena, aprendendo assim os truques de sobrevivência fundamentais na floresta. Após obter uma arma de um amigo cristão do povoado, que depois foi assassinado por ser "amigo dos judeus", Tuvia vinga a morte de seus pais e dos outros judeus, matando os homens que tinham levado os nazistas até o sítio dos pais. O natural ódio aos judeus, além da recompensa oferecida pelos nazistas a quem denunciasse um judeu escondido, faziam com que a população polonesa não hesitasse em trair ou matar seus co-cidadãos judeus, às vezes, vizinhos de muitas décadas.

Poucos dias depois, juntam-se aos irmãos Bielski mais 13 judeus que haviam conseguido fugir. Nascia, pois, o grupo Bielski. Mais do que resistir, esses valentes partisans fundaram um assentamento secreto e móvel nas florestas da Bielorrússia.

Além de mostrar a luta diária pela sobrevivência na floresta, o filme revela os dilemas éticos e as diferenças entre Tuvia, o mais velho dos irmãos e líder do grupo, e Zus. Tuvia servira como oficial no exército polonês e acreditava ser mais importante salvar a vida de uma única judia idosa do que matar dez nazistas. Diferentemente de outros grupos que se recusavam a engrossar suas fileiras com idosos e crianças, os Bielski acolhiam e protegiam judeus independentemente de idade ou gênero, principalmente após ter a confirmação dos massacres nazistas perpetrados contra as comunidades judaicas da Europa. Em pouco tempo, a maioria dos integrantes da "comunidade da floresta" era formada por mulheres, crianças e idosos; poucos eram combatentes.

Posteriormente, os Bielski fazem alianças com os outros partisans russos e iniciam o treinamento militar para ambos os sexos, prática pouco difundida mas necessária, pois era a única maneira de, talvez, conseguirem sobreviver. Zus, no entanto, obcecado por vingança, insistia que o grupo devia priorizar a luta contra os nazistas. Após se desentender com o irmão, deixa por algum tempo o acampamento, no que é acompanhado por vários combatentes, juntando-se a partisans soviéticos. A resistência polonesa não admitia judeu algum em suas fileiras e, quase sempre se negava a ajudá-los fosse com armas ou mantimentos. Não foram poucos os casos em que, ao se depararem com um judeu, entregavam-no aos nazistas.

Apesar dos vínculos com os soviéticos, Tuvia mantém uma independência que lhe permite salvar seus correligionários infiltrando seus emissários nos guetos, a fim de convencê-los a se unirem a eles, na floresta Naliboki. Muitos atendem seu chamado e, em pouco tempo, Tuvia se torna um dos principais inimigos do Reich - a tal ponto que Berlim chegou a oferecer uma recompensa de 100 mil Reichmarks por qualquer pista que levasse à sua captura.

Em 1943, os nazistas organizam uma importante operação de "desmatamento" humano na floresta, à caça de todos os grupos partisans da região. Alguns desses grupos sofreram grandes baixas, mas os combatentes-partidários de Bielski fugiram em segurança para uma parte mais remota da mata, onde criaram uma comunidade com sinagoga, escola, sapataria, barbearia, padaria e enfermaria, ou seja, um shtetl igual aos que tinham deixado para trás.

Muitas outras centenas de fugitivos, de todas as idades, de uma forma ou de outra, encontraram o caminho até o acampamento Bielski. Nenhuma pessoa que buscasse refúgio era rejeitada. Em seu momento de pico, 1.230 pessoas integravam o grupo, sendo 70% delas mulheres, crianças e idosos; apenas cerca de 150 realmente participavam em operações armadas.

O grupo Bielski viveu nas florestas da Bielorrússia até a derrota nazista, apenas 49 morreram, quase todos nos ataques. O impressionante nesse movimento de resistência foi que eles preservaram a vida em comunidade, insistindo em que houvesse casamentos, famílias, escolas e celebrações, ainda que em meio aos horrores de um período tão trágico para o povo judeu e para a humanidade como um todo. Este foi o seu triunfo.

Making of

A verdadeira história dos quatro irmãos judeus e seu heroísmo era virtualmente desconhecida do público até que o irmão mais velho, Tuvia Bielski, ditou sua história pouco antes de morrer, em 1973.

A historiadora Nechama Tec usou o material para uma tese sobre aquela comunidade, que passou virtualmente despercebida durante tantos anos e por tantas pessoas. Felizmente não foi o caso do produtor e diretor, vencedor de um Oscar, Edward Zwick e sua produtora Bedford Falls. Usando a tese de Tec como base, Zwick e Clayton Frohman escreveram o roteiro do filme.

Apesar do histórico de sucesso e premiações de Edward Zwick (com Diamantes de Sangue, entre outros), o projeto foi recusado por todos os grandes estúdios de Hollywood. Sem se dar por vencido, o produtor busca financiamento na Europa e, tendo enviado uma cópia do roteiro ao atual "James Bond", o ator Daniel Craig, recebeu um "sim" entusiasmado para o papel de Tuvia Bielski. O ator e os demais membros do elenco, inclusive Schreiber, Joshua Bell (no papel de Asael Bielski) e Alexa Davalos, além dos demais membros da equipe, trabalharam por salários reduzidos em locações geladas na Lituânia, para rodar as principais tomadas externas. No set da filmagem estavam descendentes dos irmãos Bielski. Segundo o produtor Zwick, os descendentes serviram de inspiração para desenvolver os personagens de seus pais e tios. Alguns sobreviventes dos horrores da 2ª. Guerra Mundial visitaram o set durante as filmagens.

A uma pergunta sobre o motivo que o levou a produzir o filme, Zwick respondeu: "Julgo ser importante levar essa história às telas. Durante 50 anos temos dado a ênfase imprescindível aos 6 milhões de judeus que morreram. Mas acredito que ainda esteja faltando uma reparação histórica ou mesmo representativa àqueles que sobreviveram e como sobreviveram. Além disso, a meu ver, há uma falsa impressão de que os judeus iam mansamente à morte e que não houve nenhuma tentativa de resistência, quando, na realidade, eles usaram todas as oportunidades, sempre que surgiam. O filme conta uma dessas histórias de sucesso".