Morashá
Alexander Bogen, resistência com armas e tinta Foto Ilustrativa

Alexander Bogen, resistência com armas e tinta

por por Reuven Faingold

Experimentar sons, tatear e sentir o gosto da obra artística ao limite, transbordar tensões e mergulhar nas sensações do mundo à sua volta, todas estas experiências fazem de Alexander Kazenbogen uma figura ímpar. Só um artista que se dispõe a abraçar a arte e respirá-la até seu último suspiro consegue aventurar-se por diversos sentimentos, mesmo que estes sejam momentos de extremo perigo e dor.

Edição 85 - Setembro de 2014


VIDA DE PARTISAN

Alexander (Shura) Katzenbogen (1916-2010) nasceu em Durpat, na Estônia, e cresceu em Vilna, cidade conhecida na história judaica como a “Jerusalém da Lituânia”. Filho de um casal de médicos, pelo lado materno Alexander era neto do rabino Tuvia de Wolkovysk, um erudito da Torá e personalidade destacada entre os 55 mil judeus que constituíam a comunidade de Vilna no início do século 20. Desde cedo frequentou a Universidade de Vilna, aprendendo os rudimentos da pintura e da escultura.

Com 23 anos, no começo da 2ª Guerra, Alexander Bogen, nome que adotou, juntou-se aos “partisans”, guerrilheiros das florestas que circundavam o lago Naroch, localizado nos frondosos bosques da Bielorrússia, a 200 km de Vilna. Ao encontrar preconceito e provocações antissemitas entre os partisans da resistência antinazista (especialmente entre russos, estônios e bielorrussos), Bogen conseguiu formar um seleto grupo de 30 combatentes judeus, denominado “Nekamá”, que em hebraico significa “vingança”.

O objetivo desses judeus era vencer as treinadas forças alemãs da Wehrmacht. O grupo “Nekamá” era responsável por ações especiais, como dinamitar vias férreas por onde passariam comboios repletos de soldados, causar sabotagem nas encomendas de armas direcionadas aos nazistas, contrabandear alimentos e disseminar a informação nos guetos sobre o extermínio em massa de judeus.

Por volta de 1943, durante o atribulado período da 2ª guerra, Bogen serviu como comandante chefe de uma unidade, auxiliando no transporte de judeus do gueto de Vilna antes que fosse totalmente destruído. Foi precisamente nessa época que Alexander Bogen conheceu o combatente Abba Kovner (1918-1987), uma figura central na heroica revolta do gueto de Vilna.

Os dois combatentes tiveram duas formas diferentes de avaliar a maneira em que deveriam lutar contra os alemães em Vilna. Para Abba Kovner, desde o início havia que realizar ataques em grande escala, mesmo que a revolta resultasse em inúmeras baixas, um verdadeiro “al Kidush Hashem” (Santificação em Nome de Deus). Já Alexander Bogen argumentava que a ideia de Kovner era impraticável, pois não havia forma de combater (muito menos de vencer) os nazistas com armas primitivas e escassas. Portanto, seria necessário ir até as florestas para obter armas melhores e poder enfrentá-los. Encerrada a guerra, ambos emigraram da Europa para Israel, cultivando uma forte amizade. Abba Kovner se tornou um grande poeta e, por sua rica obra literária relacionada com o Holocausto, recebeu em 1970 o Prêmio Israel de Literatura.

Entre os anos 1939-1942, Bogen colocou em seus desenhos aquele olhar forte e característico que nascia a partir da simples observação da vida de seus companheiros e colegas guerrilheiros, momentos de tranquilidade de dor e luta. Surpreendentemente, ele achava pedaços de papel largados no meio da floresta, pedaços de embrulhos, outros ainda queimados e pedaços de carvão das fogueiras que utilizava para desenhar.

Seus traços são fluidos e intensos, mostrando quase sempre uma dramaticidade única, revelando, no desenho, pleno conhecimento do uso do espaço. Seu traço forte, muitas vezes nervoso, vai-se unindo às partes mais sensíveis e poéticas. Suficiente lembrar que este artista judeu criou, num ambiente de guerra, sofrimento e sobrevivência, como forma de valorizar ainda mais sua obra.

Encerrada a guerra, em 1945, Alexander Bogen retorna à Universidade e, dois anos depois, completou seus estudos de arte; torna-se professor titular na Escola de Estudos Avançados em Artes de Lodz, na Polônia.

Em 1951, Bogen, sua esposa Rachel (Rela) e seu filho pequeno, Michael, emigram para o jovem Estado de Israel, ainda incipiente. Lá, o combatente sobrevivente continuou seu trabalho como artista e professor na Universidade Hebraica de Jerusalém, inspirando-se em pintores clássicos como Henri Matisse, Marc Chagall e Pablo Picasso.

Entre os anos 1969-1981, assumiu o cargo de “Diretor da Associação de Pintores e Escultores de Israel”. Em vida, recebeu numerosos prêmios: em 1950, o “Prêmio do Governo da Polônia”; em 1961, o “Prêmio Histadrut” (Confederação Geral dos Trabalhadores); em 1962, o “Prêmio do Ministério da Educação”; 1983, o “Prêmio Neguev”, e, em 1992, o “Prêmio Sholem Aleichem”.

Em 9 de abril de 2008 foi inaugurado um “Monumento aos Partisans” na localidade de Latrun, de autoria de Alexander Bogen. Catálogos com suas principais obras foram publicadas pelo Kibutz “Lochamei Haghetaot”, Museu de Yad Vashem e Museu do Holocausto de Washington.

A OBRA “REVOLTA”

Alexander Bogen detém uma produção artística norteada por uma força retirada do próprio âmago, é um artista cru e verdadeiro. Transmite ao apreciador de sua arte algo notável e essencialmente inspirador. Todas estas afirmações aparecem claramente em seu livro “Revolta”, em hebraico, “Mered”, uma obra na qual reflete profundamente sua função de comandante e artista, de lutador e herói da resistência judaica contra os nazistas.

O livro de Bogen traz vários desenhos a carvão, nanquim, gravuras de metal e outras tantas técnicas artísticas, todos eles produzidos no decorrer da 2ª Guerra Mundial. Trata-se de uma artista plástico que não se contentou apenas em acalentar ideais poéticos de liberdade, mas teve um papel fundamental como comandante, combatente e pensador de uma resistência judaica embrionária que surgia nas florestas da Europa.

Infelizmente, a obra “Revolta” não informa as datas de suas gravuras, portanto fica extremamente difícil determinar quando foram realizadas, se durante a 2ª Guerra ou já em Israel. As diversas técnicas e os nomes dos desenhos, sim, aparecem no livro. Além dos trabalhos, existem também trechos literários escritos por colegas combatentes ou pessoas que o conheceram. Nesses textos memoriais fica bem clara a perspectiva de seu processo criativo e a visão de mundo também retratada em sua arte.

Um dos depoimentos mais bonitos a ser lembrado é o do sobrevivente Itzhak Rudnicki, depois conhecido como General Itzhak Arad, Diretor do Museu Yad Vashem, em Jerusalém, entre 1972 e 1993. Dez anos mais jovem que Bogen, Arad confessa: “Durante o Holocausto, Alexander Bogen serviu comigo na unidade militar. Ele foi um guerrilheiro das florestas e um comandante dos guerrilheiros. Apesar de todos os deveres encomendados e as funções a ele impostas, jamais esqueceu sequer por um minuto que era um artista. Nós (os partisanim) nunca conseguimos entender como ele conseguiu, naquelas condições, literalmente a partir do nada, produzir os materiais para seu trabalho. Tudo é um enigma para nós, (especialmente) o que o inspirou a produzir aqueles esboços relâmpagos, mesmo em momentos de perigo ou no meio da ação contra o inimigo”.

VIVÊNCIAS DE CINZAS

O que chama a atenção na arte de Bogen são as precárias condições de trabalho que tinha à sua disposição. Se muitas vezes é difícil criar trabalhos artísticos e deixar fluírem as sensações em um confortável ateliê, ou em algum lugar com uma estrutura física boa, o que dizer de produzir em tempos de guerra, de movimentação e deslocamentos permanentes. Borgen nutria uma vontade enorme de desenhar a partir de suportes simples, sem nenhuma opção de escolha ou ideia preconcebida. Praticamente, criou uma arte própria com base no seu fôlego de batalha, sua aura de desbravador em meio a um caos assumidamente dilacerante.

Outro ângulo que certamente desperta nosso interesse é a cumplicidade de Bogen com o aspecto processual de seus trabalhos, encarando a traumática vivência da 2ª Guerra Mundial em fusão permanente com sua intrínseca expressão pictórica. Ele não se limitou apenas a pintar em momentos de descanso, mas também em situações de confronto e luta. Como já disse Arad, para serem retratadas, muitas dessas situações, “não possuíam o menor respiro de tranquilidade e, mesmo assim, Bogen retirou das profundezas de seu coração artístico força quase tátil para poder transformar aquelas vivências em arte”.

Encerrada a 2ª Guerra Mundial, os trabalhos artísticos de Bogen, a maioria deles expostos no Kibutz “Lochamei Haghetaot” e no “Museu de Arte de Yad Vashem” continuam a evocar traços de maior segurança, vestígios de um olhar sumamente crítico diante da devastação e das atrocidades causados pela guerra. O artista judeu é, sem sombra de dúvida, uma figura que surgiu das cinzas de um conflito, e como tal decidiu repensar e filosofar seu lugar no mundo, codificando sua sensibilidade através de linhas, manchas e, sobretudo, muito suor.

Existe outro depoimento, desta vez do sobrevivente Yehuda Leib Bialer, que nos remete a aspectos centrais da obra de Bogen: “Ele (Bogen) estava imbuído com o espirito de Vilna. Por ela lutou e pelo bem dela completou sua missão artística, enquanto mantinha a fé em seu lado mais humano e judeu.  Além de pintar imagens de homens em situações variadas, ele retratou aquela cidade judaica que não existe mais”.

As telas de Alexander Bogen não evocam somente o “partisan judeu” (perfil similar aos irmãos Bielski), o combatente do gueto (perfil de Mordechai Anilevich, em Varsóvia) ou guerrilheiros em fuga rumo às florestas da Europa. Seus trabalhos, mais especificamente as gravuras, retratam edifícios e fachadas de sua querida Vilna. A forte caracterização da angústia e do sofrimento subsistem no traço caótico dessas representações, pulsando diretamente no cuidadoso olhar do espectador, segurando velhos vestígios de um vilarejo em ruínas com poucos monumentos arquitetônicos que sobreviveram. São prédios e construções que emergem de um emaranhado de linhas como manifestos de resistência e perseverança em meio à destruição ocasionada pela guerra

O artista possui uma plasticidade única e uma posição bem nítida em relação a seu processo artístico, que podem ser facilmente vinculados a trabalhos de outros artistas, como William Kentridge e Lasar Segall. Tanto o lituano Segall como o sul-africano Kentridge sustentam suas obras através de aspectos incisivos de suas vidas para logo desenhar e demarcar suas aflições e paixões em determinado período, gerando experiências artísticas próprias e reutilizando características pictóricas e poéticas em seus trabalhos plásticos, tal qual Bogen fez no período da 2ª Guerra Mundial.

Independente de qualquer tipo de posição política, é inegável que Alexander Bogen tem sido um artista excepcional, infelizmente pouco conhecido dentro do cenário artístico. Tive a grande felicidade de poder estudar sua produção através de trechos do livro “Revolta”; uma obra ímpar tanto pela força de seu nome como pelo seu rico conteúdo.

Durante a pesquisa encontrei uma frase de Alexander Bogen que me marcou profundamente e resume a verdadeira essência de sua arte. Ele escreve: “Recentemente, tenho indagado muito acerca do motivo pelo qual desenho, mesmo havendo combatido dia e noite. Há aqui algo intimamente relacionado com a continuidade biológica. Cada ser humano, cada povo, precisa vivenciar isto uma vez... Ser criativo durante o Holocausto era também uma forma de resistir. Cada homem que se encontra frente a frente com seu inimigo, cruel e perigoso, age de forma pessoal. Assim, o artista tem seu próprio caminho para agir, pois essa (arte) é sua própria arma. Isso nos ensina porque os alemães não conseguiram destruir nosso espírito”.

Alexander Katzenbogen morreu em 2010 e hoje está enterrado no cemitério judaico de Kyriat Shaul, em Tel Aviv. Este artista colocou sua vida em sua arte de forma explícita, sem máscaras, e isso é o que faz dele um verdadeiro sobrevivente, não apenas da 2ª Guerra, mas também do mundo artístico em geral.

BIBLIOGRAFIA
Bogen, Alexander, Revolt. Publicado por Yehuda Leib Bialer, Jerusalém, 1974 
Blater, Janet & Milton, Sybil, Art of the Holocaust. Ed. Pan Books. Londres , 1982
Constanza, Mary S., Living Witness: Art in the Concentration Camps and Ghettos. The Free Press. Nova York, 1982
Norvitch, Miriam, Resistenza Spirituale (Spiritual Resistence 1940-1945: 120 Drawings from Concentration Camps and Ghettos). The Commune of Milan, Milão,1979.

Prof. Reuven Faingold é historiador e educador, PHD em História Judaica pela Universidade Hebraica de Jerusalém. É sócio fundador da Sociedade Genealógica Judaica do Brasil e membro do Congresso Mundial de Ciências Judaicas de Jerusalém.