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A MECENAS DA ARTE MODERNA Peggy Guggenheim, em Paris, 1924. Foto de Man Ray

A MECENAS DA ARTE MODERNA

Peggy Guggenheim foi uma das mais importantes mecenas e colecionadoras de arte do século XX. O nome Guggenheim é sinônimo de arte em todo o mundo.

Edição 47 - Dezembro de 2004


A simples menção do nome remete imediatamente ao Museu Guggenheim de Nova York, cuja fundação leva o nome de seu tio, Salomon. O que nem todo mundo sabe, no entanto, é que o amor à arte estava presente em outros ramos da família deste, e, em especial, no coração de sua sobrinha.

Ao longo dos anos, Peggy organizou uma das mais importantes coleções de arte moderna do mundo e patrocinou inúmeros artistas nos Estados Unidos e na Europa, entre os quais, Jackson Pollock. Escreveu dois livros sobre sua tumultuada vida pessoal: Out of This Century, de 1946, e Confession of an Art Addict, de 1960. Em 1970, nove anos antes de sua morte, ela reuniu as duas obras em uma só, postumamente publicada em 1980.

Peggy passou grande parte de sua vida na Europa, apesar de ter nascido em Nova York, em 26 de agosto 1898. Filha de Benjamin e Florette Seligman Guggenheim, Peggy, originalmente chamada de Marguerite, tinha mais duas irmãs. Apesar de sua riqueza, teve uma infância infeliz. Vivia isolada estudando em casa e não teve contato com outras crianças. A grande fortuna que herdou tanto do lado paterno quanto materno, no decorrer de sua vida, foi destinada à arte. Seu avô materno, Seligman, era proveniente de uma família de fazendeiros e apesar de ter iniciado sua vida como pedreiro, logo prospera e se torna um grande banqueiro. O avô paterno, Meyer Guggenheim, por sua vez, nasceu na Suíça alemã e se tornou proprietário da maioria das minas de cobre do mundo, garantindo uma imensa fortuna para sua família, por muitas gerações. Segundo estudiosos, no entanto, o patrimônio que Peggy herdara poderia ser ainda maior se o pai não se tivesse retirado dos negócios familiares em 1910, passando a morar na Europa. Dois anos mais tarde, em 1912, morreu no trágico naufrágio do transatlântico Titanic. Foi justamente dele que ela herdou o amor pela arte.

Foi este sentimento que a levou à Europa ao receber sua herança, em 1919. Até então, havia estudado inicialmente com tutores e, aos 15 anos, freqüentara a Jacobo School, uma escola judaica para meninas, em Nova York, de onde se formou, em 1915. Quando decidiu partir para a Europa, pretendia, a princípio, apenas fazer uma curta visita, que acabou transformando-se em uma estadia de 21 anos. Foi na Europa, mais especificamente em Paris, que ela se casou com o pintor Laurence Vail, em 1922. Tiveram dois filhos: um menino e uma menina. O casamento, no entanto, acabou em divórcio, em 1930. Através do marido, ela passou a se interessar pela arte e a se aprofundar na arte italiana e européia. Influenciada por amigos artistas, como Marcel Duchamps, começou a enveredar pela arte moderna - que pouco conhecia - e abriu sua primeira galeria, a Guggenheim Jeune, em Londres, em 1938. A vernissage de inauguração trazia obras de artistas de vanguarda, como Jean Cocteau e Vassily Kandinsky. De cada autor que expunha, Peggy sempre comprava uma obra. Assim iniciaram-se uma grande coleção e uma carreira que iriam influenciar profundamente a arte do pós-guerra.

Seu entusiasmo crescia a cada dia e, dentro de pouco tempo, fazia planos para transformar sua galeria em museu de arte moderna. A eclosão da Segunda Guerra Mundial, no entanto, acabou com o seu projeto. Ela, porém, não desistiu do objetivo de montar uma grande coleção e foi à França, em busca de novas obras. A chegada das tropas alemãs ao território francês, em 1941, forçou-a a retornar aos EUA. Com o avanço da tropas nazistas, Peggy reuniu, em alguns meses, umas cinqüenta obras importantes, entre as quais Klee, Miró, Dali, Maigritte, com o intuito de preservar esses maravilhosos testemunhos de uma época, inestimável patrimônio cultural. Mas como salvar a coleção das mãos dos nazistas? Peggy esperava que o Louvre fizesse um gesto neste sentido, mas o Museu considerou que as obras eram muito recentes para serem salvas juntamente com os "tesouros nacionais". Finalmente, escondida na granja de um castelo próximo a Vichy, a coleção de Peggy Guggenheim escapou da destruição. A coleção é, em seguida, enviada para Nova York, disfarçada no meio de seus vestidos e casacos, onde estava marcado "objetos pessoais". Nessa época conturbada da guerra, Peggy não se concentrou apenas na arte, dando, também, considerável apoio aos artistas em dificuldades ou em perigo de vida. Graças a ela, dez artistas judeus escaparam dos nazistas. Entre eles, o grande pintor, Max Ernst, que se refugiou nos Estados Unidos. Ernst e Peggy acabam tornando-se muito próximos, em Nova York, e se casam em 1941. Mas definitivamente, ela não foi feliz em sua vida particular: acaba divorciando-se novamente, em 1946.

Tornou-se conhecida como uma das mais importantes incentivadoras do expressionismo abstrato da escola nova-iorquina. Nova York foi também a cidade que Peggy escolheu para abrir a Art of the Century, uma galeria de vanguarda na qual montou um acervo permanente com a coleção que já possuía e onde realizava também outras mostras especiais. Na agenda, incluíam-se nomes como Jackson Pollock, Robert Motherwell, Mark Rothko e outros pintores modernos. De todos os artistas que patrocinou, Peggy manteve uma relação mais especial com Pollock. Confiante no seu talento, dedicou-se de 1943 a 1947 à promoção de sua carreira, tendo assinado um contrato com o artista que lhe garantia inclusive um salário fixo mensal.

Seu amor pela Europa, onde passara duas décadas, levou-a de volta ao velho continente ao término da Segunda Guerra Mundial. Dessa vez, escolheu Veneza para morar, comprando o Palazzo Venier dei Leoni, construído no século XVIII, para ser seu novo lar. Foi lá que ela montou uma exposição permanente das obras que colecionara, mantendo-a aberta ao público. Esporadicamente, realizava mostras em outras cidades européias. Para os italianos, Peggy era L'Ultima Dogaressa, a mecenas de inúmeros artistas do país, entre os quais, Trancredi Parmeggiani. Sua coleção era considerada única por especialistas europeus, seja pela perspectiva histórica das obras, seja por ser uma das mais representativas manifestações do expressionismo abstrato norte-americano.

Peggy morreu em 23 de dezembro de 1979 na cidade de Camposampiero, sendo enterrada em Veneza, cidade que considerava seu verdadeiro lar. Curiosamente, Veneza está localizada a poucos quilômetros da cidade suíça onde seus avós, Meyer e Bárbara, nasceram. Foi como se um círculo se completasse.

Nos últimos anos de sua vida, pouco acrescentou às obras de sua coleção, dizendo que a arte contemporânea tinha-se tornado apenas "um negócio" e que os artistas produziam "obras que não mereciam sequer esse nome". Com sua morte, deixou sua casa e a coleção de arte para a Fundação Solomon R. Guggenheim, que, assim, passou a dirigir a Coleção Peggy Guggenheim de Veneza.

A Fundação Solomon Guggenheim

Criada em Nova York, em 1937, a Fundação Guggenheim tinha como objetivo promover a arte contemporânea, ao mesmo tempo em que administrava a coleção do mecenas de origem suíça, Solomon Guggenheim (1861-1949), tio de Peggy.

Em 1943, a Fundação confia ao arquiteto Frank Lloyd Wright a concepção da estrutura em forma de espiral de seu primeiro museu, em Nova York. Com o passar dos anos e, inclusive com as doações de Peggy Guggenheim, a coleção da Fundação continua enriquecendo-se com novas aquisições e outros fundos. Contando com cerca de dez mil obras, representa atualmente a mais importante coleção moderna e contemporânea do mundo, com obras cubistas, expressionistas, surrealistas, futuristas, dadaístas e outras, de autoria de Kandinsky, Picasso, Chagal, Léger, Dali, Giacometti... ou seja, extremamente eclética.

A originalidade dessa Fundação é sua proposta de formar uma rede de locais de exposição, em diferentes pontos do planeta. Mesmo sediada em Nova York, a ausência deliberada de um centro nevrálgico preciso lhe permite reduzir os custos das exposições temporárias, aumentar suas receitas através de doações e fazer com que as obras circulem tanto quanto possível. Este sistema de gestão de coleções, próprio da Fundação Guggenheim, foi qualificado de "museu de franquia" despertando tanto a admiração de uns como a crítica de outros.

Atualmente a Fundação Solomon Robert Guggenheim dirige não apenas a coleção Peggy Guggenheim, mas também o Museu Salomon R. Guggenheim e o Museu Guggenheim Soho de Nova York, o Deutsche Guggenheim de Berlim, o Guggenheim Hermitage de São Petersburgo, o Guggenheim Museum de Las Vegas e o Guggenheim Museum de Bilbao, aberto há dez anos, na Espanha.

 

Bibliografia:

Lyman, Darryl, Great Jewish Families

Wigoder, Geoffrey, Dictionary of Jewish Biography

Gregory, Alexis, Families of Fortune, Life in the Gilded Age

Slater, Elinor & Slater, Robert, Great Jewish Women Artigo publicado por Arthur Georges em Euro J Magazine, nº 31