Morashá
A ARTE DE RIR E FAZER RIR Dick Codor-1979

A ARTE DE RIR E FAZER RIR

Ironia e sarcasmo, mesclados à sabedoria, acompanham o humor judaico há séculos, apesar das diferenças e da distância entre os antigos povoados do leste europeu e a agitação das metrópoles americanas.


Ao passear pelas prateleiras de uma livraria, no Brasil ou no exterior, o visitante se depara com títulos como Enciclopédia do humor judaico – Dos tempos bíblicos à era moderna, de Henry Spalding, e The Big Book of Jewish Humor, de William Novak e Moshe Waldoks, entre vários outros. Ou então, quem nunca contou, pelo menos uma vez na vida, uma piada sobre judeus, para outros judeus? Folclore ou manifestação da identidade cultural? Será que existe uma resposta definida?

O que seria exatamente o humor judaico? Será que existe um humor tipicamente judaico? Ou será que o que há é uma pitada de cultura judaica em meio ao humor criado por artistas e comediantes judeus em todo o mundo? Segundo Spalding, existe, sim, um humor judaico, tanto que escreveu um livro sobre o tema. E mais: para ele, o humor judaico espelha a história do povo judeu. É um reflexo de suas alegrias e angústias, anseios e desalentos e dos períodos, tão breves, de bem-estar econômico e social. Reflete, também, a capacidade dos judeus de fazer graça de suas próprias particularidades.

Em sua abordagem sobre o humor judaico, Spalding diz que este não avançou em linha reta desde os tempos primitivos até os mais modernos, mas que procurou sempre transmitir os hábitos e costumes do dia a dia. "Os judeus já eram um povo com senso de humor desde os tempos bíblicos, e a Torá está repleta de todo tipo de humor, charadas e piadas práticas".

Mas o humor judaico retrata, também, a influência das outras culturas, principalmente a partir da destruição do Segundo Templo, no ano 70 da Era Comum. Esta aproximação com outras populações, as perseguições e as injúrias levaram os judeus a fazer do humor um mecanismo de defesa, criando alegorias pelas quais protestavam contra seus carrascos através, principalmente, da ironia. O Talmud é um exemplo deste tipo de expressão, afirma Spalding.

"Os rabinos eram mestres da presença de espírito e réplica demolidora, mas diferiam dos sábios bíblicos por serem mais sutis. A história rabínica é planejada para evocar um sorriso e fazer pensar, mas raramente causa risos hilariantes. Alguns ditos espirituosos talmúdicos, é claro, não têm outra intenção senão fazer graça, tal como a observação do rabino do século três de que a água do mar era salgada porque havia tantos arenques marinados vivendo nele".

A diferença entre a piada judaica e a anti-semita é que a última enfatiza exclusivamente os defeitos, mas nunca as virtudes dos judeus. O alvo verdadeiro da piada não é necessariamente um anti-semita, como muitos acreditam, nem mesmo um governo despótico. Geralmente, o escárnio está voltado para outro judeu.

Outro elemento exclusivo do humor judaico é a propensão a atirar farpas revestidas com mel aos entes mais próximos e queridos. Escarnecem dos amados, de sua religião, dos ideais e da instituição que exalta e enriquece suas almas. A singularidade destas gozações está no fato de irradiarem afeto – um beijo com sal, mas ainda um beijo.

Evolução histórica

Segundo William Novak e Moshe Waldoks, autores de The Big Book of Jewish Humor, a grande maioria das piadas, provérbios e histórias com toques de humor faz parte do folclore popular judaico. Nasceram do cotidiano nas pequenas vilas, aldeias e povoados do leste europeu, no final do século 19; seus autores são anônimos e seu conteúdo é transmitido de geração em geração, assumindo, inconscientemente até, as características de quem as conta.

Os personagens que recheiam as narrativas, tais como os professores de ieshivot, seus alunos, as casamenteiras, os pedintes – schnorrers, os azarados – schlemazels, e muitos outros, renascem sempre que alguém lembra de uma piada. Piadas que, como afirmam os dois autores, não podem ser classificadas apenas como alegres ou tristes, mas que trazem implícita, acima de tudo, a sabedoria, sem deixar de serem divertidas.

O início do século 20 e a crescente emigração da Europa para os Estados Unidos influenciaram também o humor judaico. Os personagens do passado, cujas características eram fortemente marcadas pelo segregacionismo vigente na Europa, diluem-se em meio à sociedade americana, na qual, mesmo que apenas aparentemente, desaparecem as diferenças étnicas.

Mudam os personagens e também os temas. O anti-semitismo, ainda que presente, cede espaço para as piadas sobre assimilação, conversões, mudança de nomes. Os arrecadadores de fundos substituem os schnorrers e as mães passam a ocupar o lugar até então vitalício das sogras do século XIX.

O humor judaico americano, dizem Novak e Waldoks, apresenta mais uma mudança fundamental, quando comparado com o do passado: ainda que seja inspirado no universo popular, passa a ser feito por comediantes e escritores. Muitos ainda recorrem à tradição oral da cultura judaica, mas a maioria busca cada vez mais, na experiência coletiva da sociedade americana, a fonte de suas palavras.

No entanto, mesmo nos Estados Unidos, o humor judaico mantém a capacidade de rir de si mesmo. A afirmação de Freud – "Eu não sei se há muitos outros povos fazendo graça sobre si próprios" – ainda é verdadeira. Para alguns seguidores de Freud, entre eles Theodor Reik, autor do livro Jewish Wit, o humor judaico é uma maneira que os judeus encontraram para lidar com a hostilidade que os cerca, chegando, às vezes, a utilizar este sentimento contra si mesmos.

O showbizz americano está cheio de exemplos de sucesso que mostram o senso de humor mesclado à herança judaica: Woody Allen, Mel Brooks. E também na literatura, como Philip Roth, Bruce Jay Friedman e Wallace Markfield, sem mencionar o seriado de televisão Seinfeld. Novak e Waldkoks mencionam também a influência do desenvolvimento dos meios de comunicação para a maior penetração do humor judaico, colocando-o ao alcance de todos.

"No passado, as piadas e histórias populares corriam de boca em boca e, por mais que fossem contadas, atingiam um número limitado de pessoas. Atualmente, as piadas são transmitidas pelo rádio ou televisão, e até pela Internet, chegando a milhões de pessoas ao mesmo tempo. Ou seja, o humor judaico nunca esteve tão popular. Isto é a sociedade de massa", afirmam Novak e Waldoks.

Definição de humor judaico

• É aquele que gira em torno de todos os aspectos da vida e das características do povo judeu – cultura, valores, símbolos, etc. Mas não se limita apenas às fontes judaicas, inspirando-se também na sociedade em geral

• É aquele que envolve as complexidades da mente, apresentando, ainda, uma lógica interna
• É sarcástico
• Tende a ser anti-autoritário; expõe a hipocrisia e satiriza a pompa e a grandiosidade
• É crítico
• Caçoa de tudo e de todos.

Artigo baseado em Enciclopédia do humor judaico – Dos tempos bíblicos à era moderna, de Henry Spalding – da Editora Sêfer e The Big Book of Jewish Humor, de William Novak e Moshe Waldoks – da Harpel Perennial Editora.