Morashá
Descoberta arqueológica remete ao Tanach

Descoberta arqueológica remete ao Tanach

Pela primeira vez na história, arqueólogos encontraram uma inscrição que data do período dos Juízes da época bíblica. Em escavações realizadas no sopé das montanhas da Judeia, no sul de Israel, foram encontrados fragmentos de um recipiente com tampa que data de cerca de 1.100 A.E.C., ou seja, há cerca de 3.100 anos. Acredita-se que contenha inscrições com o nome “Jerubaal”, usado para se referir a um de nossos juízes, Gideon ben Yoash. TRATA-SE DA primeira vez em que um nome citado no livro dos Juízes – um dos livros dos Profetas – é encontrado em um artefato arqueológico.

Edição 112 - Setembro de 2021


Os pesquisadores disseram que a descoberta oferece importantes insights sobre a conexão existente entre o texto bíblico e a memória histórica.

Os coautores do estudo, Yosef Garfinkel e Sa’ar Ganor, fizeram a seguinte declaração para a revista científica Smithsonian: “O nome Jerubaal somente aparece no Tanach1 no período dos Juízes, no entanto, foi agora descoberto em um contexto arqueológico, em um estrato que remonta a esse período”.

Há um grande significado histórico no fato de um nome idêntico ao mencionado no Tanach ter sido encontrado em uma inscrição resgatada em escavações arqueológicas que remontam a esse mesmo período. Achados arqueológicos como este corroboram a crença de que as tradições bíblicas, além de refletir a realidade, comprovam que as memórias históricas são fiéis ao período ao qual se referem. E demonstram que a História é preservada e transmitida através das gerações.

Livro dos Juízes

O Livro dos Juízes, um dos livros dos Profetas (Nevi’im), narra os eventos ocorridos nos anos que se seguiram à morte de Yehoshua bin Nun, sucessor de Moshé, e vai até o advento da monarquia. Este livro narra a época anterior à dos Reis Saul, David e Salomão.

Após a morte de Yehoshua bin Nun, o Povo Judeu foi liderado por uma série de Juízes (1228-931 a.E.C.). Estes não faziam parte de nenhum governo formal. Tratou-se de um período único na História Judaica, no qual, exceto por um breve período de três anos, os judeus viveram sem um governo central. Carismáticos e destemidos, muitos juízes alcançaram proeminência como líderes locais, organizando e defendendo as Tribos de Israel. Não foram poucos os Juízes que fizeram nome, na época, entre os quais Ehud, Deborah, Yael, Samson, Gideon e Eli.

O Juiz Gideon

A primeira menção a Gideon no Livro dos Juízes se deve ao fato de ter combatido a idolatria ao quebrar o altar de Baal e os postes-ídolos dedicados a Asherá, a divindade feminina. Baal era um ídolo adorado em inúmeras comunidades antigas do Oriente Médio, especialmente entre os canaanitas, que habitavam a Terra de Israel antes de ser conquistada pelos Filhos de Israel.  

Quando Gideon quebra o altar de Baal, ele recebe o nome de Jerubaal. “[Gideon], a partir daquele dia foi chamado de Yrb‘l” (Juízes 6:31–32). Ao que tudo indica, com o passar do tempo, o nome Yerubaal (em hebraico) se tornou o principal nome de Gideon. Provavelmente ele mesmo o adotou devido a seu significado: Aquele que lutou com Baal e destruiu seu altar. Em várias passagens, Gideon é descrito como aquele que triunfou contra os midianitas. Estes eram uma tribo que vivia à leste do Rio Jordão. Durante sete anos eles atacaram, sistematicamente, os assentamentos judaicos, queimando suas plantações e suas casas e matando seu povo. Entre as inúmeras vítimas, estavam os irmãos de Gideon. Devido a essas incursões, os Filhos de Israel, além de empobrecidos, viviam aterrorizados.

Segundo o Tanach, Gideon organizou um pequeno exército de 300 homens e com eles atacava os midianitas, à noite, conseguindo derrotá-los. Após a vitória, os judeus ofereceram uma coroa a Gideon, declarando que seus filhos teriam o direito de sucessão. Ele declinou, afirmando: “D’us há de governá-los”!

Descoberta Arqueológica

O objeto foi recuperado em uma das escavações em Khirbat er-Ra’i, a aproximadamente 70 km a sudoeste de Jerusalém. Este sítio arqueológico localiza-se na floresta de Shahariya e, desde 2015, vem sendo escavado.

As escavações estão sendo conduzidas pelo Prof. Yossef Garfinkel, da Universidade Hebraica de Jerusalém, Sa’ar Ganor, do Departamento de Antiguidades de Israel, e pelos Dr. Kyle Keimer e Dr. Gil Davies da Universidade Macquarie, em Sidney, Austrália. Os achados foram publicados no segundo número do Jerusalem Journal of Archaeology (JJAR), novo periódico online.

As escavações revelaram três fragmentos de um recipiente pequeno, com tampa, talvez um jarro, com cinco letras escritas a tinta. Para datar o artefato como sendo de aproximadamente 1.100 a.E.C., utilizou-se datação com Carbono 14 e tipologia de cerâmica. A inscrição, com as letras hebraicas mais consistentes com o Yud (que devido à quebra do artefato, não aparece integralmente), Resh, Bet, Ayin, Lamed, acrescida de vestígios de outras letras, indica que, em seu original, devia ser mais longa. Essa inscrição parece representar o nome Jerubaal, ou Yeruba’al. Como dissemos acima, este era o pseudônimo usado para se referir ao juiz Gideon no Livro dos Juízes. O recipiente escavado deveria conter algum líquido precioso, como o azeite, um perfume ou medicamento. Ao que tudo indica, seu dono gravou nele o seu nome para confirmar sua propriedade.

Considerando-se a cronologia da peça, é totalmente plausível que tenha pertencido ao Juiz Gideon. No entanto, surge uma dúvida devido à distância geográfica entre o local onde foi encontrada a inscrição e o local onde Gideon atuava – o Vale de Jezreel, localizado ao norte da Terra de Israel.

“Esta inscrição pode referir-se a outro Jerubaal – e não ao Juiz Gideon da tradição bíblica, apesar de não se poder descartar a possibilidade de que o recipiente realmente lhe pertencesse. De qualquer modo, o nome Jerubaal era evidentemente de uso comum à época dos Juízes”, afirmaram os arqueólogos.

São extremamente raras, na arqueologia de Israel, inscrições do período dos Juízes. Somente foram encontradas uma meia dúzia de inscrições da época – e todas elas levam várias letras não relacionadas entre si.

BIBLIOGRAFIA

Five-letter inscription inked 3,100 years ago may be name of biblical judge, artigo de Amanda Borschel-Dan publicado no jornal The Times of Israel em 12 de julho de 2021, http://www.timesofisrael.com