Morashá
SOBRE O ÓDIO AOS JUDEUS Foto Ilustrativa

SOBRE O ÓDIO AOS JUDEUS

Não há ódio que tenha história tão rica e letal quanto o anti-semitismo - "o mais prolongado dos ódios" - como o intitulou o historiador Robert Wistrich.

Edição 44 - Março de 2004


Com efeito, encontrar-se uma causa única parece tarefa bastante desalentadora - a incidência do anti-semitismo é muito freqüente, o espaço de tempo, muito amplo, os lugares, muito numerosos, e as circunstâncias, muito variadas. Certamente, é por isso que alguns estudiosos passaram a ver cada incidente anti-semita como essencialmente único, negando o fato de que se pode traçar uma linha reta desde o anti-semitismo da Antigüidade até o de nossos dias. Quer falemos do ataque aos judeus de Alexandria, em 38 desta era, ou dos que ocorreram 200 anos antes, na antiga Jerusalém; do caso Dreyfus, na França de 1890, ou da Kristallnacht, na Alemanha do final da década de 1930 - cada um desses incidentes é visto como o resultado de um mix específico de forças políticas, sociais, econômicas, culturais e religiosas que excluem a possibilidade de uma causa mais profunda ou recorrente.

Uma versão menos extrema dessa mesma abordagem identifica certos padrões de anti-semitismo, mas apenas dentro de "eras" individuais ou diferenciadas. Em particular, é feita uma distinção entre o ódio de fundo religioso da Idade Média e o ódio de fundo racial dos tempos modernos. A responsabilidade pelas ondas anti-semitas que engoliram a Europa desde o tempo de Constantino até o alvorecer do Iluminismo é depositada, em grande medida, aos pés da Igreja e suas ramificações, ao passo que as convulsões que irromperam durante o curso dos três séculos seguintes são vistas como um subproduto da ascensão de um virulento nacionalismo.

Obviamente, essa separação em incidentes ou eras tem suas vantagens, pois permite que os pesquisadores se concentrem mais intensamente em circunstâncias específicas e examinem irrupções individuais, do começo ao fim. Porém, o que tais análises podem eventualmente ganhar em termos de explicação mais pontual, sacrificam em abrangência. Ademais, se cada um dos incidentes ou eras de anti-semitismo diferem bastante entre si, como explicar a ferocidade cumulativa do fenômeno?

Como que respondendo a essa questão, alguns estudiosos tentaram oferecer explicações mais amplas, trans-históricas. Talvez as duas mais conhecidas sejam a teoria do "bode expiatório", segundo a qual as tensões dentro da sociedade são regulamentadas e liberadas ao se culpar um grupo mais fraco, geralmente os judeus, pelo que quer que esteja incomodando a maioria; e a teoria da "demonização", segundo a qual os judeus foram lançados ao papel de "o outro", em virtude da necessidade, aparentemente perene de rejeitar aqueles que são étnica, religiosa ou racialmente diferentes.

Claramente, nessa abordagem sociológica, o anti-semitismo emerge como um fenômeno judeu apenas no nome. Ao invés disso, é apenas uma das variantes de uma família de ódios que incluem o racismo e a xenofobia, entre outros. Portanto, a violência especificamente anti-judaica da Rússia, na virada do século 20, tem tanto em comum com a limpeza étnica na Bósnia, na virada do século 21, como o tem com os massacres de judeus na Ucrânia, em meados do século 17. Levada à sua conclusão lógica, esta teoria redefiniria o Holocausto - nas mãos de alguns eruditos, de fato redefiniu o Holocausto - como sendo o mais destrutivo ato de racismo da humanidade e não como a campanha mais assassina jamais dirigida contra os judeus.

Há meio século, reagindo a essas tendências universalizantes, Hannah Arendt citou parte de um diálogo de "uma anedota contada após a 1ª.Guerra Mundial": "Um anti-semita alegava que os judeus haviam causado a guerra. Ao que um outro, retrucava: 'Sim, os judeus e os ciclistas'. Aí o anti-semita perguntava: 'Por que os ciclistas?' Ao que rebatia o outro: 'E por que os judeus?"

George Orwell fez uma observação semelhante, em 1944: "Por mais verdadeira que seja, em termos gerais, a teoria do "bode expiatório", ela não explica por que os judeus e não outro grupo minoritário qualquer são os escolhidos, nem tampouco deixa claro o que eles estariam expiando..."

Quaisquer que sejam as falhas dessas abordagens, devo admitir que meu próprio histórico, como teórico, não é melhor. Há três décadas, como jovem dissidente na União Soviética, compilei relatórios secretos sobre o anti-semitismo para jornalistas estrangeiros e diplomatas do Ocidente. À época, eu acreditava piamente que a causa da "doença" era o totalitarismo e que a democracia era a maneira de a curar. Uma vez substituído o regime soviético pelo democrático, imaginava eu, o anti-semitismo estaria fadado a desaparecer. Em seu empenho atrás desse objetivo, o mundo livre, que, na esteira do Holocausto, parecia ter-se vacinado contra a reincidência do ódio assassino anti-judaico, era nosso aliado natural, era a única entidade política que tinha os meios e a vontade de combater o grande mal.

Hoje, sei um pouco mais sobre o assunto. Este ano, após a publicação de um relatório por um fórum do governo israelense encarregado de tratar da questão do anti-semitismo, convidei a vir ao meu escritório os embaixadores dos dois países que tinham superado os demais na freqüência e intensidade de ataques anti-judaicos dentro de suas fronteiras. Os representantes eram da França e da Bélgica - duas democracias maduras, no coração da Europa Ocidental. Era justamente nesses ostensivos baluartes do esclarecimento e da tolerância que os cemitérios judeus estavam sendo violados; as crianças, atacadas; as sinagogas, devastadas.

Que não haja dúvida: o anti-semitismo que hoje permeia a Europa Ocidental é muito diferente do anti-semitismo com o qual convivi, há uma geração, na União Soviética. Este último era alimentado por uma sistemática discriminação contra os judeus, imposta pelo governo. O atual tem sido amplamente condenado e criticado pelos governos do mundo (apesar de que isto se dê de forma muitíssimo menos vigilante do que deveria). Isto, porém, apenas torna mais perturbador o anti-semitismo nas democracias, destruindo a ilusão - que obviamente não era só minha - de que um governo representativo fosse um antídoto infalível para o ódio vivo aos judeus.

Há uma outra ilusão despedaçada ainda mais pertinente à nossa busca. Chocado pelo anti-semitismo visceral que testemunhara no julgamento Dreyfus, na supostamente esclarecida França, Theodor Herzl, fundador do moderno Sionismo, convenceu-se de que a causa primária do anti-semitismo era a condição anômala dos judeus: um povo sem Estado próprio. Em sua obra seminal, O Estado Judeu (1896), publicada dois anos após o julgamento, Herzl tinha a visão da criação de um tal Estado, prevendo que uma maciça leva imigratória de judeus europeus para esse estado significaria o fim do anti-semitismo. Apesar de seu tratado político, aparentemente utópico, ter-se tornado um dos livros mais previdentes do século 20, nesse ponto a história não foi amável com Herzl. Nenhuma pessoa séria argumentaria, hoje, que o anti-semitismo se viu interrompido com a fundação do Estado de Israel. Pelo contrário, esta ilusão fechou um círculo completo, voltando ao ponto de partida: enquanto Herzl e a maioria dos sionistas que o sucederam acreditavam que o surgimento de um estado judeu poria fim ao anti-semitismo, hoje, um número cada vez maior de pessoas, entre as quais alguns judeus, estão convencidos de que o anti-semitismo somente acabará com o desaparecimento do Estado judeu.

Deparei-me pela primeira vez com essa idéia há bastante tempo, ainda na União Soviética. Durante a Guerra dos 6 Dias, de junho de 1967, bem como no período que a antecedeu e sucedeu - época em que eu e muitos outros vivenciávamos um impetuoso renascer de nossa identidade judaica - a mídia soviética estava tomada por ataques mordazes a Israel e ao Sionismo , tendo-se desencadeado uma deliberada campanha de anti-semitismo oficial para sustentá-los. E, para um número considerável de judeus soviéticos que vinham tentando, de todas as formas, diluir-se na vida soviética, eis que, de repente, Israel se torna um desagradável lembrete de seu verdadeiro status no "paraíso dos 'operários'": a condição de presos na armadilha de um mundo onde não eram livres para viver abertamente como judeus nem tampouco para escapar do estigma de serem judeus. Para eles, Israel parecia ser parte do problema e não - como o era para mim e para outros - parte da solução. Expressando o que era, com certeza, um sentimento de muitos, um parente distante gracejou: "Se, ao menos, Israel não existisse, tudo estaria bem...".

De lá para cá, e especialmente nos últimos três anos, a noção de que Israel é uma das causas primárias do anti-semitismo, senão "a" causa primária, ganhou aceitação muito mais ampla. O mundo, dizem-nos os amigos e os inimigos, odeia cada vez mais os judeus pelo fato de odiar, cada vez mais, Israel. Certamente era isso que o embaixador belga tinha em mente quando me informou, durante sua visita, que o anti-semitismo em seu país cessaria quando os belgas não mais tivessem que ver, pela televisão, imagens de judeus israelenses oprimindo os árabes palestinos. Obviamente, o Estado de Israel não pode ser a causa de um fenômeno que o antecede em mais de 2.000 anos. Mas, seria apropriado vê-lo como a causa do anti-semitismo contemporâneo? O certo é que, em todas as partes, o Estado judeu parece estar no centro da tempestade anti-semita - e, mais do que em nenhum outro lugar, isto é válido para o Oriente Médio.

O aumento das matérias de vil conteúdo anti-semita divulgadas em toda a mídia estatal árabe é assustador e tem sido intensamente documentado. Os marqueteiros, jornalistas e acadêmicos árabes que, hoje, usam regularmente os métodos e o vocabulário em voga durante séculos para "demonizar" os judeus europeus - chamando-os de assassinos de Jesus, culpando-os de envenenar os não-judeus, inventando libelos de sangue e coisas do gênero. Numa região em que a fé cristã tem poucos adeptos, um anti-semitismo cristão, sombrio e erodido pelo tempo, alardeia um enorme cortejo de seguidores. Tomemos apenas um único exemplo: em fevereiro de 2003, o governo egípcio, formalmente em paz com Israel, achou por bem transmitir em sua televisão estatal uma série de 41 capítulos baseada na infame armação czarista acerca de uma suposta conspiração mundial judaica que pretendia dominar o mundo, os Protocolos dos Sábios de Sion. Para garantir altos índices, a série primeiro foi ao ar em horário nobre, exatamente na hora em que milhões de famílias árabes quebravam o seu tradicional jejum do Ramadã. Posteriormente, a televisão árabe via satélite retransmitiu o seriado para outras dezenas de milhões de pessoas mais, em todo o Oriente Médio.

Na Europa, a ligação entre Israel e o anti-semitismo é igualmente evidente. Basta observar que o timing e a natureza dos ataques aos judeus europeus, quer físicos quer verbais, revolveram sempre sobre Israel. A própria onda anti-semita, iniciada logo após o lançamento da campanha terrorista palestina contra o Estado judeu, em setembro de 2000, tinha chegado a um pico (até então) quando Israel deslanchou a sua Operação "Escudo da Defesa", no final de março de 2002 - mês em que 125 israelenses tinham sido mortos por terroristas.

 

Apesar de a maioria dos ataques físicos na Europa terem sido perpetrados por muçulmanos, a maioria dos ataques verbais e culturais vieram das elites européias. Por exemplo, o jornal italiano La Stampa publicou uma charge de um menino Jesus, aos pés de um tanque israelense, a implorar: "Não me venha dizer que eles querem me matar de novo...". As freqüentes e infelizes comparações - entre Ariel Sharon e Adolf Hitler, entre israelenses e nazistas e entre palestinos e as vítimas judias do Holocausto - não foram arte de vândalos que grafitaram com tinta spray as paredes de uma sinagoga, mas de professores universitários e sofisticados colunistas. Aí está para todos lerem a declaração do Prêmio Nobel, escritor José Saramago, sobre o tratamento dado por Israel aos palestinos: "Podemos compará-lo ao que ocorreu em Auschwitz".

 

A centralidade de Israel para a revitalização de um anti-semitismo mais generalizado faz-se também evidente na arena internacional. Praticamente um ano depois de iniciada a atual rodada de violência palestina e depois de terem sido mortos centenas de israelenses em ônibus, discotecas e pizzarias, foi realizada uma assim-chamada "Conferência Mundial contra o Racismo", em Durban, na África do Sul. Esta foi logo transformada em um circo anti-semita, no qual o Estado judeu era acusado de tudo, de racismo e apartheid a crimes contra a humanidade e genocídio. Nesse teatro do absurdo, os próprios judeus foram transformados em perpetradores de anti-semitismo, enquanto Israel era denunciado por "suas práticas sionistas contra o semitismo" - ou seja, o semitismo dos árabes palestinos.

 

Naturalmente, ao se buscar, então, a "causa raiz" do anti-semitismo, o Estado judeu aparentava ser o principal suspeito. Mas, que fique bem claro, Israel não tem culpa. O Estado judeu não é, nem mais nem menos, a causa do anti-semitismo, hoje, do que o era a ausência de um Estado judeu, há um século.

 

Para entender o porquê, primeiro temos que ver que a sempre enganosa linha entre o anti-sionismo e o anti-semitismo se tornou, agora, totalmente embaçada: Israel, de fato, se transformou no "judeu do mundo", ou seja, no que o judeu representa para o mundo. Das mesquitas do Oriente Médio o grito que se ouve, fazendo gelar o sangue, não é "morte aos israelenses" - mas "morte aos judeus!" Em círculos mais civilizados, um colunista do Observer, de Londres, anunciou, orgulhoso, que ele não lê as cartas em apoio a Israel assinadas por judeus. [O fato de que a comissão que analisa as queixas contra a imprensa britânica não tenha encontrado nada de errado nessa declaração serve, apenas, para mostrar o quanto as coisas mudaram, na Grã-Bretanha, desde que Orwell, em 1945, escreveu que "não existe a possibilidade de, no presente, o anti-semitismo se tornar respeitável"] Quando, nos elegantes banquetes europeus, o assunto passa para o Oriente Médio - contam-nos fontes confiáveis - o ar chega a ficar azulado de tanto ranço anti-semita...

 

Não menos revelador é o que poderia ser chamado de 'a mecânica da discussão'. Durante séculos, um sinal claro do impulso anti-semita em vigor foi o uso de dois pesos e duas medidas: hábitos sociais que, nos outros, passariam desapercebidos ou mereceriam um simples comentário, tornam-se pretexto para uma denúncia grupal, generalizada, quando exibidos por judeus. E esse mesmo tipo de reação diferenciada é hoje empregado, impunemente, ao Estado judeu. É ao democrático Israel - e não às dezenas de tiranias representadas na Assembléia-Geral das Nações Unidas - que esse organismo escolhe para condenar em mais de duas dezenas de resoluções, a cada ano. É contra Israel - e não contra Cuba, Coréia do Norte, China ou Irã - que a comissão de direitos humanos da ONU, recentemente presidida pela "pura e virginal" Líbia, direciona cerca de um terço de sua ira oficial. Foi de Israel o alegado "comportamento inadequado" que provocou a única sessão conjunta jamais realizada pelos signatários da Convenção de Genebra. É Israel, solitário entre as nações, quem tem sido ultimamente alvo das campanhas ocidentais de retirada de investimentos. É apenas ao Maguen David Adom de Israel, solitário entre os serviços de socorro e resgate, no mundo, que tem sido negada a filiação à Cruz Vermelha Internacional. Somente aos acadêmicos israelenses, solitários entre os acadêmicos do mundo, tem sido vetada a concessão de bolsas e a publicação de seus artigos na literatura acadêmica de prestígio. E esta lista continua, indefinidamente...

 

A idéia de que Israel se tornou o que o judeu é para o mundo, ou seja, 'o judeu do mundo", e o anti-sionismo um substituto para o anti-semitismo, certamente não é novidade. Anos atrás, Norman Podhoretz observou que o Estado judeu "tinha-se tornado a pedra de toque de atitudes relacionadas ao povo judeu, enquanto que o anti-sionismo se tinha tornado a forma mais relevante de anti-semitismo". E bem antes disso, o Dr. Martin Luther King Jr. tinha sido ainda mais inequívoco: "O amigo declara não odiar os judeus, mas apenas ser "anti-sionista". E eu lhe digo: deixe a verdade ecoar do alto das montanhas, deixe-a ecoar pelos verdes vales desta terra Divina; quando as pessoas criticam o Sionismo, têm em mente os judeus - esta é a verdade de D'us". Mas, se Israel nada mais é do que o judeu do mundo, dizer-se, então, que o mundo, a cada dia, odeia mais os judeus pelo fato de, a cada dia, odiar mais Israel, significa a mesmíssima coisa que dizer que o mundo odeia os judeus pelo fato de odiar os judeus. De qualquer maneira, ainda há que se saber por quê?

 

Este talvez seja o ponto certo para deixar que os anti-semitas falem por si sós. Vejamos a razão invocada por Haman, infame vice-rei da Pérsia no livro bíblico de Esther, para convencer seu rei a ordenar a aniquilação dos judeus: "Há um determinado povo espalhado e disperso entre as nações, em todas as províncias de vosso reino, e suas leis são diferentes das dos outros povos, e não seguem os decretos reais, não havendo, portanto, benefício algum para Vossa Majestade em tolerá-los. Se for do vosso agrado, que seja decretada a sua destruição!"

 

Não se pode dizer que esta seja a única fonte antiga que aponta para a incorrigível auto-separação dos judeus ou para o seu desprezo pelos costumes e conceitos morais majoritários como razão para a hostilidade contra eles. Séculos após a disseminação geral dos valores helenísticos para além do Mediterrâneo, o historiador romano Tácito dissera: "Para os judeus, é profano tudo o que consideramos sagrado; por outro lado, lhes parece permissível tudo o que, para nós, é imoral... Afrontam o resto do mundo com o ódio reservado aos inimigos. Não alimentam nem se casam com os gentios... Introduziram a circuncisão para mostrar que diferem dos demais... Para eles, constitui crime matar qualquer recém-nascido".

 

Filostrato, escritor grego que viveu um século mais tarde, ofereceu análise semelhante: "Pois que, há muito, estão os judeus em luta não apenas contra os romanos, mas contra a humanidade; é uma raça que construiu sua vida de forma separada e irreconciliável; que não pode compartilhar com o restante da humanidade os prazeres da mesa nem se unir em libação ou oração ou sacrifício; tem a separá-la de nós um golfo muito maior do que o que nos separa, seja Sura ou Bactra, das mais distantes Índias".

 

Será que os judeus, de fato, rejeitaram os valores que predominavam na Antigüidade, ou teria sido apenas uma fantasia de seus inimigos? Embora fossem espúrias muitas das alegações contra os judeus - em seus rituais jamais matam não-judeus, como afirmou o escritor grego, Apion - algumas de fato se baseavam em fatos verídicos. Os judeus se opunham ao casamento misto. Negavam-se a oferecer sacrifícios a deuses estranhos. E, com toda a ênfase possível, consideravam crime matar um recém-nascido.

 

Naquele então, alguns ou talvez muitos judeus optaram por engrossar a [sedutora] corrente do helenismo; a maioria não o fez. Ainda mais importante, os judeus foram o único povo a seriamente desafiar o sistema moral dos gregos. Não eram "um outro" no mundo antigo; eram "o outro". Eram ademais, inabaláveis em sua convicção de que o Judaísmo representava não apenas uma forma diferente de vida mas, em uma só palavra, a verdade. A tradição judaica alega que Abraham foi eleito o patriarca do que viria a ser a Nação Judaica somente depois de ter destruído os ídolos da casa de seu pai. Seus descendentes continuariam a se opor ao mundo pagão circundante, defendendo a idéia de um único D´us e, diferentemente de outros povos da Antigüidade, recusando-se a sujeitar sua crença à de seus conquistadores.

A percepção [correta, de modo geral] de que os judeus rejeitam o sistema de valores do mundo antigo dificilmente justificaria o anti-semitismo que é dirigido contra eles; tira, porém, o anti-semitismo do reino da fantasia, transformando-o em um genuíno conflito de ideais e valores. Com a entrada do Cristianismo no palco mundial, esse mesmo conflito - novamente fundamentado na alegação de rejeicionismo judaico - ver-se-ia aumentado em mais de mil vezes. A recusa por parte do povo do "pacto ancestral" em aceitar o "novo pacto" foi, então, considerada uma ameaça à própria legitimidade do Cristianismo - ameaça esta que exigia uma resposta mobilizada.

Estigmatizando os judeus como "assassinos de Jesus" e "filhos dos demônios", a Igreja deslanchou uma campanha sistemática para denegrir a religião que dera à luz o Cristianismo, bem como seus seguidores. Ao longo dos anos seriam agregadas acusações de violação da hóstia, assassinato ritual e envenenamento dos poços d'água, aumentando ainda mais o barril de pólvora do ódio. Com o crescente poder da Igreja e a disseminação global da cristandade, tais sentimentos potencialmente explosivos foram levados aos pontos mais longínquos do mundo, fazendo chegar o anti-semitismo a lugares onde jamais tocara o solo um pé judeu.

 

Segundo alguns pensadores cristãos, a perseguição aos impotentes judeus era justificada como o "troco" que recebiam dos Céus por terem rejeitado Jesus. Este carimbo celestial de aprovação seria invocado inúmeras vezes ao longo dos séculos, especialmente por aqueles que tinham tentado - em vão - convencer os judeus a admitir a verdade superior do Cristianismo. O caso mais famoso pode ter sido o de Martim Lutero: de início, extremamente amigo dos judeus - quando jovem ele se queixara do mau tratamento que a Igreja lhes dava - Lutero tornou-se um de seus inimigos mais ferozes assim que percebeu que os seus esforços para atraí-los à sua nova forma de Cristianismo jamais dariam frutos.

 

Nem tampouco era exclusivo da religião cristã tal padrão. Maomé, também, tivera esperanças de atrair as comunidades judaicas da Arábia, tendo, a princípio, incorporado elementos do Judaísmo à sua nova fé (orar em direção a Jerusalém, jejuar no Yom Kipur e outros do gênero). Mas, quando os judeus se recusaram a aceitar seu código de leis, Maomé avançou, vingativo, sobre eles, amaldiçoando-os com palavras que eram uma assombrosa reminiscência dos patriarcas dos primórdios da Igreja: "Humilhação e desgraça estavam estampadas em seu rosto, e foram visitados pela ira de Alá. Isto por terem desacreditado na revelação de Alá e maldosamente destorcido as palavras dos profetas".

 

Nas situações acima, também, poderíamos perguntar se foi acertada a percepção do rejeicionismo judaico. Naturalmente, os judeus nunca drenaram o sangue de criancinhas, nunca envenenaram os poços, não tentaram mutilar o corpo de Jesus, nem cometeram nenhum dos crimes bestiais dos quais a Igreja os acusava. Além disso, como muitos dos ensinamentos do Cristianismo e do Islamismo se originavam diretamente dos do Judaísmo, mal se podia dizer que os judeus os tivessem negado. Mas, se a rejeição ao mundo cristão ou islâmico significava rejeição ao credo cristão ou islâmico, os judeus que se agarravam à sua própria fé e maneira de vida, distintas, eram, com certeza, rejeicionistas.

 

Isto nos leva a um ponto de aparente diferença entre o anti-semitismo pré-moderno e o moderno. Para muitos judeus, ao longo de dois milênios, havia, ao menos em teoria, uma maneira de escapar da discriminação e perseguição institucionalizadas: os mundos greco-romano, cristão ou muçulmano ficavam extremamente felizes de receber em seu seio os que se convertiam ao seu modus vivendi. Na era moderna, essa opção sempre se mostrou ilusória. Tanto os judeus assimilados quanto os não assimilados, religiosos e seculares, foram igualmente vítima de pogroms, perseguições e genocídio. De fato, os atos de terror contra os judeus assimilados da Europa Ocidental levaram à conclusão de que longe de acabar com o anti-semitismo, a assimilação, em verdade, contribuía para o despertar.

 

O que justificava isso? No mundo pré-moderno, os judeus e gentios estavam quase sempre de acordo quanto ao que definia o rejeicionismo judaico e, portanto, quanto ao que poderia constituir um alívio temporário para o mesmo: era, a bem dizer, uma questão de crenças e conceitos morais e do comportamento social decorrente dos mesmos. No mundo moderno, apesar de continuar sendo relevante a questão de um judeu comer a comida ou adorar o D'us de seus vizinhos, era, sem dúvida, menos relevante do que antes. Em vez disso, o judeu moderno era visto como tendo nascido em uma nação ou raça judaica, cujos valores coletivos estavam profundamente arraigados na própria essência de seu ser. A assimilação, com ou sem conversão à fé majoritária, poderia ter algum sucesso em mascarar seus matizes naturais; jamais, no entanto, obliterá-los, definitivamente.

 

Apesar de tais idéias não serem completamente inexistentes em períodos anteriores, o ônus da prova enfrentado pelo judeu moderno para convencer os outros de que ele poderia transcender sua "judeidade" era muito maior do que o enfrentado por seus antepassados. Apesar do crescente secularismo e abertura da sociedade européia, que deveriam ter acalmado as perspectivas de assimilação, muitos judeus modernos achariam mais difícil se tornar franceses ou alemães "de verdade" do que, para seus ancestrais, teria sido tornarem-se gregos ou romanos, cristãos ou muçulmanos.

 

A novidade do anti-semitismo, portanto, não é o fato de que os judeus eram vistos como inimigos da humanidade. Em verdade, o comentário de Hitler, no Mein Kampf, de que "onde quer que eu fosse, começava a ver judeus, e, quanto mais os via, mais nitidamente eles se distinguiam, a meus olhos, do restante da humanidade", não soa em nada diferente do que o registrado por Filostrato, 1.700 anos antes. Não, a novidade do anti-semitismo moderno é apenas o fato de que, para o judeu, era muito mais difícil - às vezes, até impossível - deixar de ser inimigo da humanidade.

 

Num exame mais atento, então, o moderno anti-semitismo começa a aparecer como uma continuidade do anti-semitismo pré-moderno - só que pior. Talvez os judeus modernos não acreditassem estar rejeitando a ordem prevalente em seu redor, mas isso não significava, necessariamente, que seus inimigos estivessem de acordo com eles. Quando se tratava do judeu, o nacionalismo europeu, do tipo sangue-e-território, conseguia apenas adicionar uma outra camada de ódio, ainda mais assassina, aos alicerces sedimentados por um ancestral preconceito religioso. Como no mundo antigo, os judeus do mundo moderno continuavam sendo "o outro" - rejeicionistas inveterados, não importa quão separados ou quão assimilados fossem.

 

Haveria algum núcleo de verdade factual nessa alegação? É degradante ter que assinalar o fato de que sempre que lhes foi dada a oportunidade, a maioria dos judeus modernos esforçaram-se para ser cidadãos-modelo, demonstrando, acima de tudo, um talento exemplar para a aculturação; a idéia de que, por força de seu nascimento, raça ou religião, eram inimigos implacáveis do estado ou da nação lhes era ridiculamente absurda. Isto se aplica, da mesma forma, a outros libelos modernos dirigidos contra os judeus, todos com tanto ou tão pouco de verdade em seu seio quanto os antigos. Os judeus não controlam nem nunca controlaram os bancos. Não controlam nem nunca controlaram as comunicações. Não controlam nem nunca controlaram os governos. E não estão tramando assumir o controle de absolutamente nada!

 

O que, de fato, alguns fizeram, em várias partes e sob circunstâncias específicas, foi demonstrar - com ardor e tenacidade que talvez remetam à sua longa experiência nacional - um apego a grandes causas, de um matiz ou de outro, inclusive, às vezes, até mesmo a causa de seu próprio povo. Isso teve o efeito [obviamente, não em toda parte, mas notadamente em sociedades altamente estratificadas e/ou intolerantes] de colocá-los em posição visivelmente adversária aos valores e ideologias prevalentes, e, desse modo, despertar o sempre alerta dragão do anti-semitismo. A esse respeito, é particularmente instrutivo o caso do judaísmo soviético.

 

O que o torna instrutivo é - em grande parte - o fato de que o propósito confesso do comunismo era abolir todas as nações, povos e religiões - todos grandes vetores da exclusão - a caminho da construção de um novo mundo e de um novo ser humano. Como se sabe, um número razoável de judeus, contando emancipar a humanidade e "normalizar" a sua própria condição no decorrer do processo, atrelaram seu destino a essa ideologia e aos movimentos a ela associados. Após a revolução bolchevista, esses judeus mostraram estar entre os servos mais devotos do regime soviético.

 

No entanto, mais uma vez a percepção de um inextirpável sentimento judaico de ser "o outro" mostrou ser letal. Aos olhos de Stalin e seus carrascos, os judeus, a começar pelos fiéis comunistas entre eles, sempre foram suspeitos - "imigrantes ideológicos", expressão que fala por si só. Mas a animosidade foi bem além dos comunistas judeus. O regime soviético declarou guerra contra as mais de cem nacionalidades e religiões que viviam sob sua mão de ferro; povos inteiros foram deportados, classes inteiras destruídas, milhões de pessoas dizimadas pela inanição enquanto outras dezenas de milhões eram mortas. Sofriam todos, não apenas os judeus. No entanto, décadas mais tarde, muito depois de a repressão staliniana ter cedido lugar ao "degelo" de Krushchev, apenas um idioma nacional - o hebraico - continuava banido na União Soviética; apenas a um único grupo - o dos judeus - era vedada a construção de escolas para seus filhos; apenas no caso de um grupo - o dos judeus - o termo "quinta linha", referindo-se ao espaço reservado para a nacionalidade nos documentos de identificação dos cidadãos soviéticos, tornou-se o código para a discriminação oficialmente permitida. Estava claro, pois, que, na União Soviética, nenhum outro grupo era tão suspeito quanto o dos judeus. Por mais que estes tentassem se igualar aos demais, acabavam percebendo que engrossar as fileiras da humanidade pela via da grande causa socialista do Leste não era mais fácil do que se filiar ao estado-nação do Ocidente. Mas, isto nem mesmo era a história completa. Reduzir o que restava da mesma, não apenas seria cometer uma injustiça com os judeus soviéticos enquanto atores históricos, mas também seria deixar escapar algo essencial sobre o anti-semitismo, que, mesmo funcionando segundo suas próprias definições destorcidas e sua própria lógica insana, provém, quase sempre, de alguma qualidade genuína nas vítimas que escolhe.

 

Como sói ocorrer, apesar de os judeus terem representação desproporcional nas fileiras dos primeiros bolchevistas, a maioria dos judeus russos estavam longe de ser bolchevistas - e nem mesmo simpatizantes. Mais importante, ainda, foi o fato de que os judeus, com o tempo, iriam desempenhar um papel fora de proporção no ocaso do comunismo. Em meados da década de 1960, época em que sua participação na população do país havia encolhido drasticamente, os judeus soviéticos constituíam um elemento significativo na "oposição democrática". Um visitante do Gulag, naqueles anos, teria descoberto que os judeus também eram proeminentes entre os dissidentes políticos e aqueles condenados pelos chamados "crimes econômicos". Ainda mais revelador é o fato de que, na década de 1970, os judeus foram os primeiros a desafiar o regime soviético enquanto grupo nacional e a fazê-lo publicamente, em massa; eram dezenas de milhares de pessoas que exigiam abandonar para sempre esse regime totalitário.

Sob essa óptica, então, não era totalmente infundada a alegação dos anti-semitas soviéticos de que "o pensamento judaico" e os "valores judaicos" opunham-se às normas prevalecentes. E, por essa mesma óptica, o anti-semitismo soviético professava a mesma característica essencial de qualquer outra forma de anti-semitismo. Dificilmente isto serve para atenuar a sua monstruosidade. Novamente, apenas o retira do reino da fantasia.

Eis-nos pois, de volta aos dias de hoje e ao ódio que tem por alvo o Estado de Israel. Esse estado - que é o judeu do mundo - tem a distinção de desafiar, simultaneamente, duas ordens político-morais: a ordem do Oriente Médio árabe e muçulmano e a ordem que prevalece na Europa Ocidental. O caso mesoriental é o mais fácil de se perceber; o europeu ocidental talvez seja o mais agourento.

Os valores em alta no Oriente Médio de hoje são moldados por duas forças: o fundamentalismo islâmico e o autoritarismo estatal. Aos olhos do primeiro qualquer potência soberana, não muçulmana, na região - a bem dizer, qualquer potência muçulmana secular - é um anátema. Especialmente exasperadora é a soberania judaica numa área delineada como sendo "dar-al-Islam", o local onde o Islamismo está destinado a desfrutar de domínio exclusivo. Uma tal violação não pode ser comprometida; nada bastará a não ser a sua extirpação.

Aos olhos dos regimes árabes seculares, os judeus de Israel igualmente são uma afronta, nem tanto no aspecto ideológico quanto no da sociedade que construíram: livre, produtiva, democrática, uma reprovação vívida aos regimes corruptos e autocráticos que a cercam. Em resumo, o Estado judeu é o derradeiro guerreiro da liberdade - a personificação das liberdades subversivas que ameaçam igualmente a civilização islâmica e o domínio autocrático árabe. Por esta razão tanto na mídia árabe, controlada pelo estado, quanto nas mesquitas, os judeus foram transformados em símbolos de tudo o que há de ameaçador no Ocidente, democrático e materialista, como um todo, e são considerados uma força insidiosa que manipula os Estados Unidos para se confrontar com o Islamismo.

A dinâmica específica do anti-semitismo na órbita do Oriente Médio, hoje, talvez ajude a explicar por que - de modo diferente, como veremos adiante, do que ocorre na Europa - não houve queda no nível de incitação anti-judaica na região após o início do processo de paz de Oslo. Muito pelo contrário. E a razão é simples: na medida em que Oslo deveria ter tido êxito em promover uma verdadeira reconciliação com Israel ou em facilitar a disseminação da liberdade política, nessa mesma medida teria frustrado o objetivo supremo de erradicar o "mal" judaico do coração do Oriente Médio e/ou de preservar o poder autocrático dos regimes árabes.

Assim sendo, enquanto na década de 1990 o mundo democrático, inclusive a democrática sociedade israelense, celebrava a promessa de um novo amanhecer [ilusoriamente, como se viu a posteriori no Oriente Médio, as escolas em Gaza, os livros-texto em Ramallah, os jornais no Egito e os canais de televisão na Arábia Saudita projetavam um retrato mais verdadeiro do estado de espírito no mundo árabe. Portanto, não devia ser surpresa o fato de que, no Egito, tenham sido impressas cópias-pirata do livro "Um Novo Oriente Médio", de Shimon Peres, que anuncia uma era messiânica de livres mercados e livres idéias, com uma introdução, em árabe, explicando que esta bíblia da paz no Oriente Médio comprovava, na verdade, tudo o que fora escrito em Os Protocolos dos Sábios de Sion sobre um plano judaico de governar o mundo.

Já na Europa Ocidental, a reputação de Israel e dos judeus passou por uma infinidade de altos e baixos, com o decorrer das décadas. Antes de 1967, a sombra do Holocausto e a percepção de Israel como um país pequeno em luta por sua existência face à agressão árabe, funcionaram, juntas, para assegurar, senão o favor das classes políticas européias, pelo menos a dispensa da crítica ferrenha.

Mas, tudo isso mudou, em junho de 1967, quando o Estado judeu conseguiu uma vitória aparentemente milagrosa, contra seus inimigos árabes, na Guerra dos 6 Dias, e a vítima por excelência foi transformada, da noite para o dia, em agressor. Uma história, provavelmente apócrifa, sobre Jean-Paul Sartre resume a mudança no mood europeu. Antes da guerra, enquanto Israel jazia isolado, diplomaticamente, e os líderes árabes já trombeteavam sua morte certa, o famoso filósofo francês assinou uma declaração de apoio ao Estado judeu. Após a guerra, ele teria repreendido o homem que lhe solicitara a assinatura: "Mas você me garantiu que Israel sairia perdedor..."

Décadas antes de "ocupação" se tornar uma palavra corriqueira, o mood nas chancelarias européias e nas fileiras da esquerda se tornara declaradamente hostil. Certamente havia interesses venais em jogo, desde a necessidade percebida de carrear favores junto aos países produtores de petróleo do mundo árabe até, anos mais tarde, a necessidade percebida de se prestar atenção especial às crescentes populações muçulmanas dentro da própria Europa. No entanto, havia também outras correntes em jogo na medida em que sentimentos anti-"imperialistas", pacifistas e pró-liberacionistas, acalentados e, muitas vezes, subsidiados pela URSS, apossavam-se da avançada cultura política da Europa e da diplomacia internacional. Por trás da nova hostilidade contra Israel jazia a nova ortodoxia ideológica, segundo a qual o Estado judeu emergira no cenário mundial com as credenciais de potência "colonialista" e imperialista", "hegemonizadora" e "opressora".

Antes de 1967, as resoluções anti-sionistas nas Nações Unidas, apadrinhadas pelos árabes e seus patronos soviéticos conquistaram pouco ou nenhum apoio entre as democracias. Após 1967, um número cada vez maior de países ocidentais unia-se ao coro que clamava por punição. Em 1974, Yasser Arafat, cuja organização abertamente abraçava o terrorismo e a destruição de um estado-membro da ONU, foi convidado a falar perante a Assembléia Geral. No ano seguinte, o mesmo organismo aprovou a infame resolução que equiparava o sionismo ao racismo. Em 1981, o ataque israelense ao reator nuclear do Iraque foi condenado pelo mundo inteiro, inclusive os Estados Unidos. E, na década de 1990, as coisas começaram novamente a mudar. A despeito do fluxo constante de resoluções preconceituosas da ONU, a despeito da continuidade prática do sistema de dois pesos e duas medidas, registraram-se, também, algumas ocorrências positivas: a resolução "sionismo é racismo" foi invalidada e mais de 65 estados-membros estabeleceram ou reataram relações diplomáticas com Israel.

O que teria acontecido: secara o petróleo árabe? Teriam os muçulmanos subitamente se tornado uma força política menos potente, no continente europeu? Pouco provável. O que mudara tinha sido o fato de, em Madri e Oslo, Israel ter concordado, a princípio com relutância e, a seguir, com otimismo auto-induzido a se adaptar ao caráter, em alta, da política internacional. Ao estender a mão a uma organização terrorista ainda comprometida com sua destruição, Israel concordava com a criação de um regime ditatorial e repressivo, bem na porta de casa, para assim sustentar o seu compromisso com o chamado processo de paz, sem levar em conta quantos israelenses inocentes estavam sendo mortos e feridos em nome de sua causa fraudulenta.

A recompensa por assim se conformar ao modelo dos moralistas do mundo - cosméticos e temporários como se tinham comprovado - fluiu, como era de se esperar, não apenas para Israel mas para o povo judeu todo. Obviamente, os índices mundiais de anti-semitismo na década de 1990 caíram a seu nível mais baixo, desde o Holocausto. Enquanto os judeus do mundo se beneficiavam da crescente tolerância que era estendida ao "judeu do mundo", as organizações ocidentais especializadas em combater o flagelo do anti-semitismo puseram-se, cautelosamente, a cantar vitória e a redirecionar o seu enfoque a outras partes da pauta comunal judaica.

Mas, naturalmente, tal situação não duraria muito tempo. No verão de 2000, em Camp David, Ehud Barak ofereceu aos palestinos praticamente tudo o que se supunha sua liderança estivesse exigindo. A oferta foi sumariamente recusada, Arafat iniciou o seu "levante", Israel assumiu a sua própria defesa - e a Europa parou de aplaudir. Para muitos judeus, à época, isso parecia extremamente incompreensível: não teria Israel dado todos os passos que faltavam, em direção à paz? Mas tudo era compreensível até demais. A Europa se mantinha fiel à forma: o judeu do mundo, ao se recusar a aceitar sua parcela de culpa pelo "ciclo de violência", era quem estava fora da linha... E assim o estavam, também, os judeus do mundo, que, por definição e quer apoiassem Israel ou não, eram prontamente associados com o Estado judeu em sua audácia e desfaçatez.

Para os americanos, o processo que estou descrevendo pode soar assustadoramente familiar. E deveria. Eles, também, tiveram inúmeras oportunidade, em anos recentes, de ver seu país no banco dos réus da opinião mundial pelo crime de rejeitarem os valores da assim-chamada comunidade internacional e, mais do que nunca, durante a histeria generalizada que saudou o anúncio do plano do Presidente Bush de desmantelar o tirânico regime de Saddam Hussein. Em dezenas de países, os manifestantes enchiam as ruas vocalizando sua fúria por essa recusa dos Estados Unidos de se conformar ao molde que "todos" esperavam que seguisse. A julgar pelos cartazes empunhados nesses protestos, o Presidente Bush, líder do mundo livre, era pior como inimigo da humanidade do que o açougueiro de Bagdá...

À primeira vista, também isso deve ter parecido incompreensível. Saddam Hussein era um dos ditadores mais brutais do mundo, um homem que levara seus próprios conterrâneos a mortíferas câmaras de gás, invadira o território de seus vizinhos, desafiara as resoluções do Conselho de Segurança e era amplamente tido como possuidor de armas de destruição em massa. Mas nada disso importava: os protestos tinham menos a ver com a virtude iraquiana do que com o vício americano; e as queixas vociferadas por um sortimento de anti-capitalistas, anti-globalização, ambientalistas radicais, pretensos anti-imperialistas e muitos outros que se agrupavam para vituperar contra a guerra, tinham muito pouco a ver com as eventuais desvantagens de uma operação militar no Iraque. Tinham, pelo contrário, muito a ver com um genuíno conflito de valores.

Na medida em que o conflito era entre os Estados Unidos e a Europa - pois que há, também, um grande contingente de opinião "européia" dentro dos Estados Unidos - este foi bem diagnosticado por Robert Kagan em seu best-seller, Of Paradise and Power. Para os propósitos de nossa análise, basta observar o quão rapidamente o debate inicial sobre "por-que-eles-nos-odeiam", na esteira dos acontecimentos de 11 de setembro, enfocando o sentimento anti-americano existente no mundo muçulmano, foi suplantado por um outro debate sobre "por-que-eles-nos-odeiam", centrado dessa vez no sentimento anti-americano na "Velha Europa".

 

De modo geral, viu-se que os dois ódios emanavam de impulsos divergentes: em um caso, da percepção da ameaça que as democracias ocidentais representavam para a civilização islâmica e, no outro, da percepção da ameaça que uma América confiante e poderosa representava para a idéia européia pós-moderna de um mundo regulamentado não pela força, mas pela razão, pela concessão e pela ausência de idéias pré-concebidas.Na Europa de hoje - declaradamente pacifista, pós-nacionalista, anti-hegemônica - uma expressão como "Eixo do Mal" não conquista muitos amigos e a idéia de um confronto real com esse eixo, ainda menos. Contudo, apesar das diferenças entre eles, o anti-americanismo do mundo islâmico e o anti-americanismo da Europa estão, de fato, interligados, tendo, ambos, uma sinistra semelhança com o anti-semitismo. Pois, afinal de contas, há certa dose de razão para os Estados Unidos serem detestados e temidos por déspotas e fundamentalistas do mundo islâmico, bem como por muitos europeus. Assim como Israel, mas de forma muito mais poderosa, a América personifica uma idéia diferente - não-conformista - do bem e se recusa terminantemente a abandonar sua transparência moral acerca do valor objetivo dessa idéia ou dos hábitos e instituições livres aos quais deu vida. Pelo contrário: ao empreender sua guerra contra o flagelo do terrorismo, o povo americano demonstrou sua determinação não apenas de lutar para preservar as bênçãos da liberdade para si próprios e seus descendentes, mas para levá-las a regiões do mundo que se mostravam mais resistentes à sua influência benigna.

 

Neste sentido, também positivo, Israel e o povo judeu compartilham algo muito essencial com os Estados Unidos. Afinal de contas, os judeus vêm dizendo, há muito, que foram escolhidos para desempenhar um papel especial na história, o de ser aquilo que seus profetas chamaram de "uma luz entre as nações". O significado preciso da frase tem dado margem a discussão e eu seria a última pessoa a negar a maldade causada, em certas ocasiões, mesmo em nome do mais sincero interesse judaico, por pessoas que usaram este moto como sua bandeira. Mesmo assim, ao longo de quatro milênios, a visão universal e os preceitos morais dos judeus serviram não apenas para assegurar a sobrevivência do próprio povo judeu, mas constituíram uma força poderosa em favor do bem, no mundo, inspirando milhares e milhares a lutar pelo que era certo ainda que em outras pessoas tivessem despertado rivalidade, inimizade e um ressentimento implacável.

 

Ocorre algo semelhante com os Estados Unidos - uma nação que, há muito, se sente incumbida de uma missão de ser aquilo que John Winthrop chamou, no século 17, de uma "cidade numa colina" e que Ronald Reagan, no século 20, interpretou como uma "brilhante cidade numa colina" - ou seja, uma nação exemplar, nas alturas, em direção à qual os olhos das outras se ergueriam, em busca de modelo. O que se depreende, precisamente, dessa frase, também é tema de discussão, mas os americanos que vêem seu país nesses termos, certamente entendem o avanço dos valores americanos como primordial para o propósito americano. E, apesar de os Estados Unidos ainda serem uma nação jovem, não pode haver controvérsia quanto ao fato de que tais valores também constituíram uma imensa força para o bem no mundo - ainda que tenham carreado para a América a inimizade e o ressentimento de muitos. Ao resolver enfrentar a inimizade e o ódio, a lição que se tira contemplando o exemplo de outros constitui importante fonte de força. De Sócrates a Churchill a Sakharov, houve indivíduos cujas vozes e cujo heroísmo pessoal reforçaram nos outros a determinação de não vacilar na defesa do bem. Mas a história, também, foi generosa o bastante de oferecer, nos judeus, o exemplo de um povo ancestral inflamado pela mensagem da liberdade dos homens neste mundo de D'us e, nos americanos, o exemplo de um povo moderno que, apenas no século passado, agindo em lealdade com suas mais íntimas convicções, confrontaram-se e venceram as maiores tiranias jamais vistas pelo homem.

 

Felizmente para a América - e felizmente para o mundo - os Estados Unidos foram abençoados pela Providência com o poder de fazer jus a seus ideais. O Estado judeu, em contraste, é uma ilha minúscula perdida num mar excessivamente perigoso, e seus cidadãos irão necessitar de todas as partículas de força que possam reunir para afrontar as provações que têm pela frente. É a estarrecedora perseverança de seu próprio povo, a despeito de séculos de sofrimento em mãos de diferentes credos, ideologias, povos e indivíduos que os odiavam e se dispunham a liquidá-los, o que nos inspira a confiança de que os judeus irão, uma vez mais, sobreviver a seus inimigos.

 

(traduzido por L. Wachsmann)

 

Fonte :

 

"On Hating the Jews" de Natan Sharansky, publicado na revista Commentary de novembro de 2003.

 

Natan Sharansky, ex-dissidente soviético e prisioneiro político, serve atualmente no Governo de Israel como Ministro dos Assuntos de Jerusalém e da Diáspora.Este artigo baseia-se em parte nas idéias apresentadas na Conferência sobre o Anti-semitismo em Paris, em maio de 2003, e no Fórum Mundial do American Enterprise Institute, em junho seguinte.