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O BERÇO DA HIDRA Alguns arquivos do caso Dreyfus

O BERÇO DA HIDRA

O anti-semitismo contemporâneo, produto da segunda metade do século XIX, foi gerado na Alemanha e Áustria. Em 1873, uma crise financeira que de Viena se estendeu à Alemanha.

Edição 31 - Dezembro de 2000


Um típico "raciocínio" anti-semita

Em janeiro de 1910, o Rio Sena transbordou, alagando boa parte de Paris. Nos bairros ribeirinhos, barcos e mais barcos foram necessários para salvar a população. Num deles, Édouard Drumont, um dos mais paranóicos divulgadores de idéias anti-semitas, fugia de seu apartamento alagado ao mesmo tempo em que levantava a questão: quem seria responsável pela catástrofe? Afinal, para ele, adepto da visão conspiratória da História, todos os desastres, mesmo se ocorridos na natureza, devem ter por detrás uma "mão culpada". O "teórico" anti-semita sempre agira desta forma: acidentes de trem, crises nas bolsas, naufrágios de na-vios etc. provinham da mesma causa: o judeu, sempre o judeu, a encarnação do Mal. Este "Sherlock Holmes de botequim", em suas "investigações", constatou que transbordamentos decorrem, muitas vezes, do descontrole no represamento das águas pluviais. Ora, um dos diretores da empresa municipal que abastecia Paris de água e controlava toda sua estrutura hídrica era primo distante dos Rothschild. Uma "brilhante" conclusão se impunha: a inundação fora provocada pela sabotagem judaica. Por mais inacreditável e hilariante que seja, o caso por nós relatado mostra a maneira pela qual Drumont formulava seus preconceitos anti-semitas.

Drumont e a "França Judia"

O anti-semitismo contemporâneo, produto da segunda metade do século XIX, foi gerado na Alemanha e Áustria. Em 1873, uma crise financeira que de Viena se estendeu à Alemanha, provocou um surto de anti-semitismo no mundo germânico.

Outro tema que empolgava os anti-semitas franceses era o da decadência. Para eles, o mundo ocidental era a vítima da corrupção dos costumes, do afrouxamento dos laços familiares e da proliferação de valores negativos. Tudo isto, como não podia deixar de ser, seria fruto da ação judaica. A tentativa de superação da "decadência ocidental" seria, mais tarde, um dos fundamentos ideológicos do fascismo. De Drumont até Drieu la Rochelle, escritor colaboracionista nos anos 40 deste século, a questão da decadência reuniu praticamente todos os intelectuais direitistas. No entender deles, o anti-semitismo configurava-se como um sistema de explicação da História, uma ação política e a "salvação", do Ocidente. Para Drumont, em especial, é em relação ao judeu, é contra o judeu, que o cidadão define sua identidade francesa, orgulhoso de pertencer a uma raça e cultura superiores. Nacionalismo e anti-semitismo são as duas faces de uma mesma moeda. Ao longo dos anos 30 e 40 do século XX, essas idéias gestadas - no século anterior culminaram na criação de grupos políticos, tal como a "Croix de Feu" (Cruz de Fogo), do coronel de la Rocque - além de ser o principal fator do amplo colaboracionismo francês com o ocupante nazista.

O teórico esquerdista alemão Bebel costumava definir o anti-semitismo como o "socialismo dos imbecis". De fato, o ódio aos judeus se revelou como uma formula política capaz de, de modo irracional, conciliar forças sociais conflitantes e fanatizar as massas tendo em vista a tomada do poder. Inquietante é que também participaram da histeria anti-semita intelectuais de nomeada. Isto prova que o fascismo e o anti-semitismo são, sempre, perigosamente sedutores para setores sociais indigentes, classes médias preconceituosas e intelectuais radicais.

A história das origens do anti-semitismo francês é um alerta a todos nós, um apelo para que permaneçamos vigilantes. O Prof. Luiz César Barreto é formado em filosofia pela USP


Na década de 1880, a França veio a conhecer a primeira grande onda de anti-semitismo. Na ocasião, baseando-se na encíclica papal Humanum Genus, que acusava a maçonaria de ser uma sociedade secreta conspiratória, o conservador jornal católico "La Croix", acusava judeus e maçons de serem inimigos da "verdadeira França". Após algumas manifestações públicas de anti-semitismo, o preconceito, pouco a pouco, diluiu-se. O furor irracional contra os judeus voltaria a aflorar em 1886, quando um até então desconhecido autor - Édouard Drumont - publicou um enorme panfleto, "A França Judia", que após longos meses encalhado nas livrarias, tornar-se-ia um "best seller" do anti-semitismo. No período anterior ao "caso Dreyfus", o livro de Drumont já chegara a 145 edições, multiplicadas várias vezes a part ir do rumoroso "affaire". O livro é, basicamente, o resumo das três características que definem o anti-semitismo francês.

Em primeiro lugar, um antijudaísmo cristão. Para a direita católica gaulesa, o cristianismo implicava o ódio ao judeu. No imaginário conservador, o primeiro grande abalo sofrido pela Igreja Católica na França fora a Revolução iniciada em 1789 e que destruíra o Antigo Regime. Este mesmo processo revolucionário, que dera cidadania aos judeus, só poderia, portanto, ser obra dos judeus. Tal sofisma aparece nas páginas de Drumont quando este adverte "que somente os judeus tiraram proveito da Revolução. Tudo veio do judeu. Tudo volta para o judeu". Consolidou-se, assim, na França, a idéia de que a Revolução fora provocada pelos maçons e judeus que teriam inspirado diabolicamente os jacobinos.

Ainda no século XIX, a sociedade francesa foi bombardeada com um dos mais terríveis libelos anti-semitas: "os protocolos dos sábios do Sião", um documento forjado pela polícia czarista, acusando que, na Suíça, promovera-se uma reunião das lideranças judaicas para elaborar um plano de dominação mundial. Drumont foi um dos mais ativos divulgadores da "obra". Simultaneamente, Charles Maurras, o criador da "Ação Francesa" - uma organização ultra-conservadora e monarquista - denunciava os "perigos" das conspirações judaicas para a sociedade ocidental.

Ao longo do Segundo Império (1852-1870), encabeçado por Napoleão III, centenas de autores se caracterizavam por um anti-judaísmo cristão mesclado com anti-liberalismo. A derrota na Guerra Franco-Prussiana de 1870-1871, a tomada de Roma pelo governo italiano quando da unificação, fato que irritou os católicos pela extinção dos estados pontifícios, o levante Socialista da Comuna e o advento da Terceira República alimentaram a propaganda anti-semita ainda mais. Popularizou-se uma simplista equação: "República = Maçonaria = Judeus".

Outro aspecto do anti-semitismo francês, que também foi alardeado por Drumont, era o que se pode chamar de "anti-semitismo econômico". De fato, o anti-capitalismo é o tema central das obras de Drumont, que identificava judaísmo e capitalismo. Segundo ele, a França, "honesta e trabalhadora" do Antigo Regime fora substituída logo após a Revolução de 1789, por uma nação dominada por improdutivos usurários. Para as camadas populares, descontentes com o capitalismo, esta idéia - aparentemente comprovada pela fortuna dos Rothschild - era especialmente sedutora e veraz. A curiosa mistura de anti-judaísmo e anti-capitalismo repercute até mesmo no seio da intelectualidade de "esquerda", gerando um paradoxal "socialismo anti-semita". Teóricos do porte de Fourier, Proudhon e Michelet defendiam o ponto de vista de que é completa e recíproca a assimilação entre judeus e financistas. Chegaram muitos até a chamar de "judeus" os especuladores protestantes e católicos.

Aliado à fobia anti-germânica provocada pela derrota francesa em 1870, o anti-semitismo defendia a idéia de que os banqueiros judeus alemães queriam destruir a França.

A terceira e última característica do anti-semitismo francês foi o racismo de bases pseudo-científicas. Com efeito, uma leitura deformada dos progressos da ciência biológica durante o século XIX, levou ao nascimento da Eugenia, falsa "disciplina científica", que propunha a possibilidade de "métodos racionais" para o aprimoramento das raças. Drumont e seus seguidores usaram "conceitos eugênicos" para descaracterizar o judaísmo como religião e defini-lo como raça. No livro "A França Judia" justapõe "arianos" e "semitas". Uma enorme contribuição a esta delirante visão das culturas humanas foi dada pela lingüística. Em 1882, o livro "A História Geral e o Sistema Comparado das Línguas Semitas", escrito por Ernest Renan, procura provar que a "chave" para se compreender a História Universal é o eterno conflito entre arianos e semitas. No texto, lê-se que "a raça semítica, comparada à raça indo-européia, representa eternamente uma combinação inferior da natureza humana".

No entender de Renan, a Guerra de Tróia, a invasão da Espanha pelos muçulmanos e as Cruzadas foram clássicos exemplos do confronto ariano-semítico. Por seu turno, Drumont acreditava que estes dois pólos étnicos, cujas origens datam dos primórdios da Humanidade, geraram os traços definidores do ser humano, da sociedade e da cultura. O ariano seria o homem ideal, o ser que sempre se supera, o ente voltado à transcendência; o semita era o homem da matéria, da realidade e do objetivismo. O lugar do ariano é a floresta; o refúgio do semita é o deserto. Na "França Judia", aparecem os estereótipos físicos do judeu: o nariz adunco, os pés chatos, braços de tamanhos diferentes e mãos pouco firmes indicando a sua predisposição para hipocrisia e a traição. Toda esta paranóia era uma forma de mostrar que o semita, ser de "sangue corrupto" é intrigante, mercantil, sutil e covarde. Já o ariano é entusiasta, heróico, cavaleiresco, desinteressado e franco. E Drumont arrematava: "judeus não têm verdadeiramente o mesmo cérebro que nós; a evolução deles é diferente da nossa e tudo que vem deles é excepcional e bizarro".

Uma sociedade disposta ao ódio

Os principais motivos que facilitaram a propagação de idéias anti-semitas na França foram, em primeiro lugar, o custo sócio-econômico que o desenvolvimento do capitalismo impôs às camadas médias e à classe operária. Em suas consciências, tornava-se cada vez mais evidente a aliança entre finanças e judeus. No entender deles, a Revolução Francesa implantara o modo de produção capitalista e libertava os judeus. Ora, o vínculo era claro. Além disso, a proclamação da República, outra "filha" da Revolução, convenceu os setores católicos mais conservadores de que havia um nexo ideológico e político entre republicanos, maçons e judeus. Surge, então, a proposta de que seria possível uma aliança entre classes médias e o proletariado contra o liberalismo, o judaísmo e o capitalismo em defesa da "velha e verdadeira França". Para Drumont, esta ação conjunta seria o futuro da História. Maurras denominava esta "frente ampla" de pequenos burgueses e trabalhadores de "nacional-socialismo", inventando assim o título da hedionda organização que, anos depois, nasceria na Alemanha. Drumont e seus comparsas, agrupando elementos anti-semitas, anti-liberais e anti-capitalistas, visavam edificar uma ideologia e uma ação política de derrubada da República, por meio de uma exótica união entre monarquistas e revolucionários socialistas. A "demonização" do judeu serviu para que as massas marginalizadas, os pequenos comerciantes e os artesãos tradicionais, vitimados pela evolução capitalista, assim como para os operários explorados e os camponeses impelidos ao êxodo rural, explicassem os males que assolava a França. O anti-semitismo oferecia uma preciosa arma para todos os que desejavam manter a ordem social tradicional. Tal concepção anulava a luta de classes, agora encarada como obra de uma minoria de agitadores e especuladores judeus que oprimiam a maioria dos franceses arianos e católicos.