Morashá
Levantado o véu da chacina nazista na Ucrânia Foto Ilustrativa

Levantado o véu da chacina nazista na Ucrânia

Percorreram em silêncio um descampado nas redondezas do vilarejo ucraniano de Rava-Ruska, até que Olga Kushta indicou um lugar ao homem de batina que a acompanhava. ‘É aqui que os judeus foram mortos a tiros, eu assisti as matanças’...

Edição 60 - Abril de 2008


Na floresta perto desse mesmo vilarejo, há oito anos, o padre francês Patrick Desbois iniciou a busca pelos locais onde, há mais de 60 anos, os nazistas haviam fuzilado e enterrado os judeus. Ao se aproximar do sítio onde 1.500 judeus haviam sido executados, disse para si mesmo: "D'us, se eu encontrar aqui uma cova comum, removerei pedra por pedra desta terra maldita até encontrá-las todas". E assim foi.

Padre Desbois, figura central nas relações judaico-católicas, Secretário do Comitê episcopal para as relações com o judaísmo da Conferência dos Bispos da França e Consultor junto ao Vaticano nas Relações com o Judaísmo, pediu e recebeu o aval e as bênçãos do Rabino-chefe de Kiev, Rabi Yaakov Bleich, para a sua investigação. Em 2004, a busca se transformou no "Projeto Ucrânia", a cargo da Yahad-In Unum ('Juntos, em união', tradução livre de hebraico e latim), organização que Desbois ajudou a fundar para estreitar o relacionamento entre cristãos e judeus. A Fundação para a Memória da Shoá forneceu grande parte da verba necessária para a execução do projeto, e até o final de 2007, um terço do território ucraniano fora coberto, 750 locais de chacina mapeados. Pe. Desbois acredita que ainda haja outras 1.800 valas comuns, de localização desconhecida, espalhadas por toda a Ucrânia.

Ao iniciar, por conta própria, aquilo que ele chama de "uma verdadeira investigação policial", o religioso não tinha noção da magnitude e complexidade da tarefa. Os historiadores acreditam que 2,4 milhões de judeus ficaram presos nas áreas da União Soviética conquistadas em 1941 pelo exército alemão. Deste total, 1,5 milhão foram assassinados, a maioria executados pelos Einsatzgruppen, esquadrões da morte nazistas, e enterrados em covas comuns. No entanto, até agora, não havia sido possível confirmar esses números. Não se sabia quantos judeus, de fato, haviam conseguido fugir para o Leste ou tinham sido evacuados pelos soviéticos, nem quantos tinham sido alistados pelo Exército Vermelho.

Os dados sobre as execuções em massa se baseavam nos relatos de sobreviventes, nos testemunhos de nazistas sob julgamento e nos arquivos nazistas e soviéticos. Com poucas exceções - entre estas o terrível massacre de quase 34 mil judeus no vale de Babi Yar, Kiev, em 1941 - não havia informações suficientes sobre o que hoje se conhece como a "Shoá dos tiros" ou a "Shoá das balas". Durante décadas, a política soviética ignorou o fato de que a maioria das vítimas dos massacres eram judeus. E isto contribuiu para que o genocídio perpetrado pelos nazistas na região não fosse revelado em sua total brutalidade.

Holocausto na Ucrânia

A invasão da União Soviética, em junho de 1941, foi um momento decisivo no Holocausto, pois foi em território soviético que o genocídio sistemático de judeus se tornou operacional, antes que, no início de 1942, as câmaras de gás fizessem suas primeiras vítimas.

A função dos esquadrões da morte móveis das SS (Einsatzgruppen), que entravam em ação logo após as forças avançadas do exército alemão, era executar todos os judeus e comunistas que encontrassem em seu caminho. Além do apoio dos Batalhões da Polícia e do próprio exército alemão, os nazistas contavam com a ativa colaboração de ucranianos e lituanos. Sem tal participação, teria sido impossível as matanças atingirem tão grande escala. Na Ucrânia, a primeira das repúblicas soviéticas a ser ocupada, um anti-semitismo endêmico permeava todos os setores da sociedade. Milhares de judeus foram mortos em pogroms executados pela população local, e muitos foram os ucranianos que se voluntariaram para ajudar os nazistas na chacina ou para trabalhar como guardas em campos de extermínio.

Assim que o exército alemão conquistava uma região, a ação dos Einsatzgruppen era rápida e sistemática. Como a maioria dos judeus vivia nas cidades, com a ajuda da policia ucraniana era fácil identificá-los e reuni-los em grandes grupos que, a seguir, eram conduzidos para locais ermos, fora dos centros. Obrigados a se despir, eram então levados até a beira de barrancos ou fossos recém-escavados, onde, um a um, família após família - homens e mulheres, velhos e crianças - eram mortos a tiros. Em certos casos, os judeus eram obrigados a se deitar de bruços sobre os corpos inanimados de outros, para serem fuzilados. Numa das mais atrozes execuções do gênero, 12 nazistas mataram 13 mil judeus. Uma das covas comuns localizada por Padre Desbois continha 97 mil corpos.

Os moradores das aldeias e vilarejos próximos viam as levas de judeus sendo arrastados até as valas e ouviam, por intermináveis horas a fio, os gritos das vítimas, que se sobrepunham ao tiroteio. Em muitos casos, esses aldeões eram usados pelos nazistas para cavar e fechar as valas comuns, ou para distribuir e receber parte dos pertences das vítimas. O fato de ajudarem, de certa maneira, nas execuções - voluntariamente ou não - e de receberem os pertences dos mortos, talvez explique o muro de silêncio que se ergueu por mais de seis décadas.

Uma jornada em busca da verdade

Patrick Desbois nasceu em 1955, em Chalon-sur-Saen, na França, em uma família marcada pela ocupação alemã. A jornada que o levaria até os bosques da Ucrânia iniciou-se quando, ainda criança, ouvia de seu avô relatos dos anos em que ficara preso no campo de concentração alemão, no vilarejo de Rava-Ruska, na Ucrânia. Seu sofrimento nada representava, dizia-lhe o avô, se comparado ao "tratamento especial" reservado aos "outros" - os judeus. Com pouco mais de 20 anos, Patrick decidiu ser padre. Algum tempo após sua ordenação, foi escolhido pelo Cardeal de Lyon como elemento de ligação entre a Igreja e a comunidade judaica. Desbois, que visitara Israel várias vezes, estudava o judaísmo e a língua hebraica.

Entre suas múltiplas atividades, ele organizava conferências e viagens para estudo do Holocausto. Numa destas, em 1997, foi até Rava-Ruska, ao campo onde seu avô ficara preso, para assistir a um serviço in memoriam. Ao término da cerimônia, perguntou ao prefeito do vilarejo onde haviam sido enterrados os judeus. Ele respondeu que não sabia. Pe. Desbois não se conformou com a resposta, pois sabia que mais de 10 mil judeus haviam sido assassinados na região, e nos anos seguintes em que passou a ir a Rava-Ruska, pressionava o prefeito por uma resposta. Esta só viria após a mudança na direção da prefeitura local.

Em uma de suas visitas anuais à cidade, o padre foi procurado pelo novo prefeito, Yaroslav Nadyk. "Venha, quero lhe mostrar algo", disse. Levou-o à floresta de Borowe, onde 110 moradores da aldeia desmatavam um pequeno bosque, arrancando as árvores pela raiz. Nadyk queria mostrar ao padre a vala comum onde, em novembro de 1943, 1.500 judeus fuzilados por uma unidade dos Einsatzgruppen haviam sido enterrados. Naquele momento, Desbois tomou a decisão que nortearia sua vida dali em diante. Vasculharia toda a Ucrânia à procura dos sítios onde nazistas haviam enterrado os judeus. O prefeito Nadyk se dispôs a levá-lo a centenas de vilarejos como aquele, e, com efeito, durante mais de um ano o acompanhou nas buscas.

Procurando por valas comuns

Não é simples a tarefa de Pe. Desbois e sua equipe. O primeiro passo é decidir onde procurar. Estudantes judeus, alemães e ucranianos pesquisam relatórios enviados pelas Einsatzgruppen a Berlim, atrás de informações sobre os locais de execução e o número de mortos. As informações são em seguida cruzadas com dados recolhidos em 1944-45 pelos soviéticos.

A cada dois meses, Desbois vai à Ucrânia acompanhado por uma equipe de campo que inclui intérpretes, um fotógrafo, um cinegrafista, um historiador, um arqueólogo e um técnico em mapeamento. Sempre presente está um perito em balística encarregado de recolher, datar e analisar a origem dos cartuchos encontrados nas sepulturas. Os cartuchos recolhidos são a prova física de que o massacre foi perpetrado nos anos de 1941-43 pelos Einsatzgruppen e não pelos soviéticos - como os revisionistas do Holocausto e os ucranianos ultranacionalistas querem fazer-nos acreditar. Desbois frisa que não se encontrou, até hoje, um único cartucho sequer de proveniência soviética nos locais de execução.

Ao chegar a um local onde os documentos indicam ter havido uma execução, a equipe procura um mínimo de três testemunhas oculares, não relacionadas entre si, para confirmar os acontecimentos. Desbois confessa que o fato de ser padre ajuda muito: "Às vezes, quando alguém hesita, outros o encorajam, dizendo, 'Ele é padre, você pode lhe falar sem medo'. Eu procuro usar palavras simples e ouvir as histórias das atrocidades - sem fazer qualquer julgamento, sem reagir aos horrores que brotam. Se eu mostro alguma reação, as histórias são interrompidas". Cada testemunha é entrevistada, fotografada e filmada e, através de seus relatos, os massacres são reconstruídos.

Detectores de metais são utilizados para descobrir o local exato da sepultura e quando os primeiros restos mortais são encontrados, o local é demarcado. A equipe procura balas ou outra evidência física, enquanto se estima o número de mortos. Em muitos casos, debaixo da superfície só restam pó e cinzas. Isto porque antes de se retirar os alemães procuraram destruir as provas dos massacres. Em tais casos, o número de vítimas é calculado com base na documentação nazista.

Os despojos das vítimas não são tocados. Desde o início de sua busca, Pe. Desbois exigiu que tudo fosse feito conforme a Halachá, a Lei judaica. Quem o orientou nas diretrizes para esta parte do trabalho foi o Rabi Bleich e rabinos Lubavitcher da Ucrânia. A partir de 2006, Rabi Elyokim Schlesinger, do Conselho Rabínico do Comitê para a Preservação de Cemitérios Judaicos na Europa, passou a acompanhar os trabalhos.

Ao se deparar com uma destas covas, não há quem não se abale, emocionalmente, e, por isso, Desbois diz que ele é o único de sua equipe que participou de todas as viagens. Para se ter uma idéia, em 2006 uma cova comum contendo 1.800 corpos foi encontrada na floresta perto de Lvov. Haviam-se juntado à equipe de Desbois oito membros da Zaka - a organização israelense que realiza a busca e identificação de vítimas em atentados e grandes acidentes. Entre eles, estava Yehuda Meshi-Zahav, fundador da organização, que disse: "Devíamos estar preparados, mas ao bater com as pás naquelas pilhas de ossos, não houve quem resistisse ao choque". Quando a equipe dá por concluída a investigação em determinado sítio, colocam, dentro da cova, um sistema GPS de localização por satélite, para marcar o local. Só então a sepultura é novamente fechada e camuflada para impedir profanações. Entrevistas, documentos, fotografias tiradas no local e todas as provas físicas obtidas são processadas para posterior disponibilização em pesquisas e exibições.

Depoimentos

Todos os depoimentos obtidos por Desbois foram registrados em vídeo. Em sua maioria, os depoentes eram crianças ou adolescentes quando dos massacres. Olga Kushta - uma das primeiras a contar sua história - lembra que ficava parada, com as amigas, à beira da estrada, dia após dia, vendo os nazistas conduzirem milhares de judeus ao vale, onde os assassinavam. Um dia, em dezembro, viu passar uma amiga de sua mãe, que lhe pediu ajuda. "Fiquei apenas olhando; eu era pouco mais do que uma criança, o que podia ter feito para salvá-lá?"

Na cidade de Lvov, Adolf Wislowski, levou Desbois à floresta Lisinichi, fora do perímetro urbano. Contou-lhe como, subindo em uma árvore viu, pela primeira vez, os nazistas matarem os judeus. Diariamente, durante seis meses, Wislowski e seus colegas de classe subiam nas árvores para observar a chacina judaica. Em 1944, com os exércitos soviéticos se aproximando, os nazistas fizeram prisioneiros judeus abrirem as valas e queimar os corpos, para apagar evidências dos massacres. "Colunas de fumaça subiam da floresta em direção ao céu, dificultando a respiração dos moradores das redondezas", conta Wislowski. Seu depoimento confirma a estimativa de que, na floresta Lisinichi, estão enterrados cerca de 90 mil judeus, em mais de 40 covas coletivas. Acredita-se que haja, também, centenas de soldados italianos mortos pelos nazistas depois que a Itália se rendeu aos Aliados, em 1943.

Em Vysotsk, um vilarejo no norte da Ucrânia, está uma das provas da política soviética de pretender ignorar que durante a ocupação alemã as vítimas de massacres eram, na maioria, judeus. Em 1942, os nazistas levaram milhares destes para um vale, onde os assassinaram. Em um único dia, 1.864 foram fuzilados. Os soviéticos ergueram um memorial no local, cuja placa, em russo, informa o ocorrido. No entanto, fala de 1.864 "soviéticos" assassinados, sem qualquer menção a serem judeus...

Quando chegou em Vysotsk, Desbois foi, de porta em porta, perguntando se alguém vira o ocorrido, no local, em 1942. Hanna Dvurinska lhe contou o que via da janela de sua casa. "Eram grupos de judeus, arrastados pelas estradas até as covas recém-abertas. Via-se, em seu semblante, que sabiam o que os esperava. Os tiros duravam horas", lembra Hanna. Poucas casas adiante, Iarino Hanitko disse lembrar-se claramente daquele dia de 1942, pois seus pais esconderam um menino judeu que conseguiu fugir e sobreviver à guerra. Padre Desbois confessa que muitas vezes pede que o entrevistado volte no dia seguinte. Apesar da violência e o sadismo perpetrado já serem conhecidos e os macabros detalhes terem sido revelados no final da 2a Guerra Mundial, as revelações são por demais terríveis. Ele revela que um fato, em especial, o marcou profundamente. Todas as testemunhas descrevem as sepulturas coletivas como algo vivo. "Demorou algum tempo", afirma, "até compreender o que queriam dizer. Aparentemente, eram necessários três dias para um túmulo coletivo "morrer". Durante esse tempo, os movimentos das vítimas faziam o chão se mover, porque, para economizar munição, os nazistas enterravam os judeus ainda vivos. Principalmente crianças eram jogadas vivas dentro das covas...".

Resultados do Projeto Ucrânia

O Projeto Ucrânia despertou grande interesse do público e da mídia internacional sobre o Holocausto dos Tiros - que aconteceu com os judeus nas áreas da União Soviética em poder dos nazistas, de 1941 a 1944.

Para os historiadores, as covas comuns descobertas e os depoimentos colhidos por Pe. Desbois revelam a ocorrência de um genocídio sistemático, nos povoados ucranianos, sem que ninguém quisesse ou pudesse fazer algo em favor das vítimas. Além do mais o fato de terem sido localizadas, fossas comuns cuja existência era totalmente ignorada, pode levar a uma revisão do total de judeus mortos no Holocausto.

As descobertas de Desbois são importantes, também, para as novas gerações de ucranianos. Embora o estudo do Holocausto faça parte do currículo escolar, a maioria dos jovens continua desinformada sobre os eventos trágicos que ocorreram em seu país e da participação e responsabilidade ucraniana nos massacres.

Parte do material coletado pelo Projeto Ucrânia - entrevistas em vídeo, fotografias, balas e cartuchos de munições oxidados e objetos pessoais das vítimas - foram exibidos, pela primeira vez, em uma exposição realizada de junho de 2007 até janeiro deste ano, no Memorial do Holocausto, no Marais, em Paris. Numa das salas, via-se, por exemplo, os oito estágios do processo de exterminação, segundo reconstrução da equipe da Yahad-in Unum. Podia-se, também, consultar inúmeros documentos alemães e soviéticos e fotografias dos arquivos, inclusive uma série de imagens de judeus sendo removidos de Lubny, rumo aos sítios de execução, nos arredores da cidade, e um policial alemão atirando em mulheres judias despidas, em uma ravina na região de Rivne.

Padre Desbois lançou um livro sobre sua busca: "Porteur de mémoires: Sur les traces de la Shoah par balles" (Portador de lembranças: Nos rastros da Shoá dos tiros). Nele, o autor conta como recolheu provas e reconstituiu as condições daqueles milhares de assassinatos de rara selvageria. A importância do trabalho e das descobertas de Padre Desbois na Ucrânia tem sido reconhecida por todos os centros de estudos e pesquisa sobre o Holocausto. Em 2006, recebeu o Prêmio B'nai B'rith de Direitos Humanos, da França. Em maio de 2007, em sua reunião anual, o American Jewish Committee lhe concedeu o "Prêmio Jan Karski". Em abril deste ano de 2008, o Museu do Holocausto, em Washington, vai homenageá-lo com um jantar e, em maio, o Centro Simon Wiesenthal lhe outorgará a sua Medalha de Valor.

Em dezembro de 2007, Yaroslav Nadyk inaugurou, na floresta de Borowe, no primeiro lugar que indicara a Desbois, um memorial com a Estrela de David. Neste mesmo local, na semana seguinte, um grupo de judeus de Lvov recitou o Kadish para reverenciar os 1.500 judeus lá assassinados. Para Desbois, este momento foi o ponto mais significativo de sua jornada. "É importante que todas as vítimas tenham uma sepultura digna e, de alguma forma, sintam que a verdade sobre sua morte não foi enterrada com eles".

Bibliografia:

Artigo de Vivienne Walt, Genocide's Ghosts, Time,16 de janeiro de 2008

Artigo de Elaine Sciolino, A Priest Methodically Reveals Ukrainian Jews' Fate, New York Times, 6 de outubro de 2007

Artigo de Roey Cohen, Saint Patrick, Haaretz, 5 de janeiro de 2006

http://www.memorialdelashoah.org/

http://www.ushmm.org

http://yahadinunum.org/