Morashá
Tisha b'Av e o Holocausto

Tisha b'Av e o Holocausto

Tisha b’Av, o 9º dia do mês judaico de Menachem Av, é o dia de luto nacional para o Povo Judeu. Através de sua história milenar, muitas tragédias ocorreram nessa data.
No 9º dia de Av do ano de 423 A.E.C, os babilônios destruíram o Primeiro Templo de Jerusalém. No ano de 70 E.C., também em
9 de Av, os romanos destruíram o Segundo Templo Sagrado.

Edição 88 - Junho de 2015


Em Tisha b’Av do ano de 133 E.C, a cidade judaica de Betar, local da batalha final entre Roma e Jerusalém, caiu em mãos dos romanos, que, na ocasião, assassinaram milhões de judeus, avançaram sobre o Monte do Templo, exilando nosso povo de nossa pátria.

Muitas gerações depois, no ano de 1290, em Tisha bAv, a Inglaterra expulsou todos os seus judeus. Em 1492, Isabel de Castela e seu esposo, Fernão de Aragão, ordenaram a expulsão de todos os judeus da Espanha. Assinaram o edito de expulsão em 31 de março de 1492, dando aos judeus exatamente quatro meses para abandonar o país. A data judaica da partida de nosso povo da Espanha foi 9 de Av.

Outro evento trágico de implicações de longo alcance ocorreu em Tisha b’Av do ano de 1914: a Alemanha declarou Guerra contra a Rússia, desencadeando, assim, a 1a Guerra Mundial. Muitos historiadores afirmam que a 2a Guerra Mundial foi a conclusão prolongada da  1a Guerra. Isso significa que o conflito mais sangrento da história da humanidade, o surgimento do Nazismo e o Holocausto não se iniciaram em 1939 – mas em 1914, no 9º dia de Av.

Tisha b’Av é uma data historicamente significativa  e de profundo simbolismo. Mencionamos apenas  alguns dos trágicos eventos ocorridos nessa data.  Há muitos outros. O intervalo entre uma tragédia e outra é, por vezes, curto; outras vezes, longo; mas a sua correlação é evidente.

O período entre a queda do Primeiro Templo Sagrado  e a construção do Segundo foi relativamente curto  – 70 anos. No entanto, durante esse breve espaço de tempo no qual os judeus viveram fora da Terra de Israel, eles tiveram uma amostra dos perigos de serem apátridas. Foi durante esse curto exílio que ocorreram os eventos que celebramos em Purim. Esse capítulo de nossa história teve um final feliz – com o enforcamento de Haman e de seus dez filhos. Mas deveria ter servido de lição para o Povo Judeu acerca dos perigos de viver no exílio, sem um país e sem um exército. Os judeus viveram no exílio por menos de um século após a queda do Primeiro Templo e quase pereceram na Solução Final arquitetada por Haman para nosso povo. Ele pereceu na forca, mas ressurgiu dois milênios mais tarde. Novamente, estávamos no exílio – sem uma pátria e sem um exército – quando a criatura mais maligna que já pisou na face da Terra subiu ao poder e empregou vastos recursos para conseguir o que Haman não conseguira realizar. Pouco após a 2ª Guerra Mundial, os historiadores estimaram que a Alemanha Nazista houvesse exterminado entre 5 e 6 milhões de judeus. Hoje, estima-se que esse número tenha chegado  perto de 7 milhões.

Quando realmente começou o Holocausto? Terá começado quando o povo alemão democraticamente elegeu Hitler e o Partido Nazista? Terá começado em Tisha b’Av de 1914? Pode-se argumentar que começou com a queda do Segundo Templo Sagrado de Jerusalém. Começou quando Roma venceu Israel. Começou quando os romanos nos exilaram de nossa Terra e, para humilhar ainda mais os judeus e cortar nossos laços com nossa Pátria Eterna, mudaram seu nome para “Palestina”, como a dizer que a Terra então pertencia ao inimigo histórico dos Filhos de Israel – os filisteus.

Se o Templo não tivesse caído, se tivéssemos vencido em Betar, se os romanos não nos tivessem exilado de nossa Pátria, se as nações que ocuparam a Terra de Israel não nos tivessem proibido de para lá retornar, a maior parte das tragédias que se abateram sobre os judeus teriam sido evitadas. As expulsões não teriam ocorrido, nem tampouco as Inquisições ou o Livro Branco do Mandato Britânico, a ocupação da Terra de Israel e de Jerusalém por outras nações – que continuam sendo um problema para o Estado Judeu – e, sobretudo, o Holocausto.

Não tivessem caído os reinos de Israel e de Judá,  talvez tivéssemos que ter enfrentado muitos inimigos – como o Estado de Israel faz, hoje – mas, pelo menos, teríamos um país e um exército a nos defender.  Não teríamos perdido um número incontável de  judeus ao longo das gerações – milhões e milhões  deles – seja aniquilados, seja assimilados – perante o genocídio físico e espiritual. A gênese de dois mil anos de sofrimento é o dia de Tisha b’Av. No dia em que caiu o Templo de Jerusalém, iniciaram-se as nossas atribulações.

Tisha b’Av, portanto, é o ponto focal através do qual todos os problemas do Povo Judeu se concentram e são recordados. Esse dia celebra não apenas eventos ocorridos na própria data, mas episódios de luto, em geral, que se abateram sobre nosso povo, pois sua origem são os trágicos eventos ocorridos nessa data. O 9º dia de Av se tornou um dia de lembrança para as atribulações do Povo Judeu ao longo das gerações.

Em Tisha b’Av, como em Yom Kipur, jejuamos por mais de 24 horas. Muitos judeus vão à sinagoga para sentar-se no chão – como os enlutados – e recitar o Livro das Lamentações. É uma obrigação religiosa fazê-lo. O Talmud nos ensina que jejuar em Tisha b’Av é tão importante quanto em Yom Kipur; mas, será que este dia de jejum e recordação tem qualquer significado real para nós? Em Tisha b’Av, podemos jejuar e comportar-nos como enlutados e, ainda assim, permanecer emocional e espiritualmente desligados do tema do dia. Pois é inegável que quase todos os lutos – especialmente quando é um luto coletivo, não pessoal – tende a diminuir, com o tempo.

Quase 2 mil anos se passaram desde a queda do Templo Sagrado de Jerusalém. Hoje em dia, o pesar pela sua destruição somente é sentido entre aqueles que entendem as consequências de sua falta – e não apenas para o Povo Judeu, mas também para o mundo todo, sem distinção. Aqueles que realmente sentem a ausência do Templo – aqueles que entendem que muitas das desgraças do mundo se devem à sua queda – podem chorar a sua destruição em Tisha b’Av. Estes anseiam por sua restauração porque o Terceiro Templo Eterno e Sagrado de Jerusalém anunciará a tão esperada utopia pela qual a humanidade sempre esperou. Quando o Mashiach vier e erguer o Terceiro Templo, a humanidade finalmente conhecerá a verdadeira paz, e o sofrimento deste mundo – tanto individual quanto coletivo – cessará, por completo. No entanto, obviamente, é difícil despertar em nós mesmos tais sentimentos. Estes requerem um extraordinário refinamento espiritual. Quantos judeus realmente derramam lágrimas em Tisha b’Av porque o Templo Sagrado foi destruído nessa data?

Contudo, Tisha b’Av continua a ser muito relevante em nossos dias. Em 9 de Av, não precisamos encontrar em nosso íntimo a capacidade de chorar por eventos que ocorreram há dois milênios. Devemos, sim, derramar lágrimas por eventos ocorridos há menos de um século, praticamente em nosso tempo.

Recordando o Holocausto

O Holocausto é incomparável a qualquer tragédia na história, pois foi o extermínio monstruoso, sádico e sistemático de um povo. Nele, os judeus não tombaram em batalha nem morreram vítima de uma praga terrível. Sofreram praticamente todas as formas de tortura e violência – física, psicológica, emocional e espiritual. Como declarou Emil Fackenheim – renomado filósofo judeu alemão –, o Holocausto foi a maldade pela maldade. Os romanos foram cruéis e sanguinários – eles, também, assassinaram milhões de judeus – mas a maioria deles não praticou a maldade pela maldade.  Eles matavam para conquistar; os nazistas matavam para matar. Os romanos lutaram para conquistar os judeus, ao passo que os nazistas queriam exterminar todos nós. O que é particularmente revoltante sobre o Holocausto não é apenas o fato de ter sido cruel e covarde e sádico – as ações dos serial killers mais eficazes e sádicos da história – mas o fato de ter sido completamente sem motivo, político ou militar. Diferentemente dos franceses, o Povo Judeu não venceu a Alemanha nem lhe impôs o Tratado de Versalhes. Diferentemente dos ingleses, não governávamos um império. Diferentemente dos soviéticos, não tínhamos tendências imperialistas. Éramos um povo desarmado e indefeso que vivia no exílio há quase 2 mil anos. Não possuíamos estado nem exército próprio. Não ameaçávamos nem prejudicávamos ninguém. A maioria dos judeus, particularmente aqueles que viviam na Europa Oriental, eram extremamente pobres e religiosos. Viviam para constituir família, preservar o Povo Judeu, estudar a Torá e cumprir seus mandamentos. Sonhavam não em conquistar o mundo, como os ingleses, os soviéticos e os alemães, mas com a redenção – com uma era na qual os seres humanos desfrutariam de paz e prosperidade. Inesperadamente, mais de 2 mil anos após o fracasso do plano de Haman de extermínio de todo o Povo Judeu, um novo Haman, mais eficaz, se ergueu. O homem mais maligno que já existiu sobre a Terra – responsável pela morte de dezenas de milhões de pessoas – inclusive de milhões de seus compatriotas – decidiu que seu principal objetivo na vida era exterminar o Povo Judeu. Ele estava tão obcecado com a morte de todo judeu existente, que até desviou recursos para este fim durante a guerra. Para ele, o extermínio dos judeus era mais importante do que vencer a guerra e conquistar o mundo.

Apesar de negociarem e se sujeitarem a ele, e se aliarem e até lutarem contra ele, nenhum país prestou muita atenção ao que ele fazia aos judeus. Nunca fomos parte da equação... A Grã-Bretanha e a França entraram na guerra por causa da Polônia. Jamais teriam feito isso por causa dos judeus. Os nazistas exterminaram quase 7 milhões de judeus e, excetuando-se umas poucas almas nobres e valentes, o mundo não emitiu um som sequer de protesto.

O episódio mais escuro e cruel na História Judaica – um evento sem paralelo na História da Humanidade – clama por nós. O Holocausto nos ensinou que muito homens são maus e a maioria deles é indiferente. Portanto, nós, judeus, só podemos depender de nós mesmos. Devemos recordar-nos do Holocausto – e de suas lições extremamente dolorosas e importantes – sempre, e senão todos os dias do ano, pelo menos em um único dia.  Não há dia, no calendário judaico, que seja mais apropriado para prantear o Holocausto do que  Tisha b’Av – o dia de luto nacional, que, com todos  os seus costumes e em toda a sua essência, tornou-se  um dia de luto particular.

Em Tisha b’Av, seguimos o costume dos enlutados. Nesse dia, devemos prantear não apenas a queda do Templo Sagrado de Jerusalém, mas também os 7 milhões de judeus que os nazistas, imach shemam, que seus nomes sejam banidos, tiraram de nós.

Não basta recordar o Holocausto no Yom HaShoá ve HaGuevurá (Dia do Holocausto e da Bravura), porque o tema desse dia, como seu nome indica, é o heroísmo e a rebeldia judaicos diante do mal. Podemos celebrar os heróis judeus tombados no Yom HaShoá, como o fazemos no Yom Hazikaron, mas nosso povo necessita ao menos um dia para chorar. O Yom HaShoá é um dia para se contar histórias sobre o Holocausto e daí se tirar as lições adequadas. É o dia em que todos os judeus se erguem e prometem proteger esta e todas as gerações futuras de nosso povo. O Yom HaShoá não é um dia de lágrimas  – e nós precisamos chorar. E o dia para isso é Tisha b’Av.

O Talmud nos ensina que não transcorre um dia sem que o Todo Poderoso não chore pela destruição de Seu Templo e o exílio do Povo Judeu. Nós não precisamos prantear todos os dias, mas podemos e devemos fazê-lo ao menos um dia por ano, porque apesar do heroísmo e do martírio de nosso povo – apesar da Santificação do Nome de D’us, Kidush Hashem,de todos eles, que morreram por serem judeus, e a despeito de sua coragem, bravura e dignidade – foram mortos quase 7 milhões de judeus, incluindo 1,5 milhão de crianças. Muitos deles sofreram horrores indescritíveis – dia após dia, mês após mês, ano após ano. A maioria de nós nem pode imaginar o que eles passaram. Em Yom HaShoá é perfeitamente aceitável postar-se bravamente perante o mundo – para reafirmar a eternidade do Povo Judeu, com orgulho de ser parte de um povo que se reergueu das cinzas do Holocausto.

Em Tisha b’Av, no entanto, devemos transportar-nos  de volta no tempo e lembrar-nos de nossos irmãos  que tombaram. O Povo Judeu é uma alma coletiva  que se incarna em diferentes corpos. Isto significa que estivemos todos nos campos de concentração. Todos estivemos nas câmaras de gás. Sofremos o frio lancinante, a fome, os pelotões de fuzilamento, a tortura e as diabólicas experiências médicas. A dor permanece  na alma de todos os judeus, mesmo daqueles cujas famílias não pereceram nem sobreviveram ao Holocausto. Todo judeu necessita chorar pela parte de nossa alma coletiva que foi roubada pelo mal encarnado. Em Tisha b’Av, se um judeu não consegue chorar pela queda do Templo, ele deve ao menos fazê-lo pelos  7 milhões de seus irmãos. 

Se alguém lhe perguntar: “Para que chorar, afinal?  Por que não enterrar o passado e celebrar o presente? ”,  a resposta é que recordando o Holocausto em Tisha b’Av, podemos abrir o coração de muitos judeus, especialmente dos mais jovens, ao estudo da História Judaica, para que possam melhor entender quem são, de onde vieram e o que os últimos 2 mil anos de nossa História têm a lhes ensinar. Isso instilaria neles um maior apreço pelo Estado de Israel: o que representa e qual a sua importância suprema. Recordar o Holocausto em Tisha bAv ensinaria às gerações mais jovens que a História, particularmente a judaica, é uma cadeia de eventos – e o que fazemos hoje afeta as gerações futuras. Finalmente, recordar o Holocausto no 9º dia de Av nos faria lembrar que o Holocausto não se iniciou quando um homem diabólico subiu ao poder na Alemanha, mas, sim, quando outras nações conquistaram a nossa Pátria, de lá nos expulsando. Se há uma lição que nenhum judeu pode esquecer, é esta aqui: enquanto estávamos no exílio, sem nossa terra, estávamos ameaçados de cair em mãos dos Hamans que surgem de tempos em tempos. Portanto, a principal tarefa do Povo Judeu tem que ser assegurar que a Pátria Judaica jamais seja vencida. Não podemos arriscar sua segurança de maneira alguma. Devemos pagar qualquer preço, fazer qualquer sacrifício e qualquer coisa em nosso poder, física e espiritualmente, para garantir sua segurança e existência eterna.

Há uma razão adicional para que nos lembremos do Holocausto em Tisha b’Av. Os lampejos e vislumbres  da redenção inerentes à data – há uma tradição que  diz que Tisha b’Av é a data da Redenção Messiânica – dão-nos a esperança de que talvez um dia possamos superar o sofrimento causado pelo Holocausto. 

Nossos Sábios ensinam que quando vier a Era Messiânica, Tisha b’Av, o dia da redenção, será o dia mais feliz do nosso calendário. Talvez seja porque com o advento da Era Messiânica haja tanta alegria no mundo que todas as tragédias passadas sejam esquecidas. Talvez, quando todos os mortos ressuscitem, não choremos mais por aqueles que sofreram e morreram – porque eles estarão reunidos conosco, outra vez. Talvez, na Era Messiânica, D’us responda todas as nossas perguntas, inclusive aquelas sobre o Holocausto. Até esse dia, no entanto, temos que recordar, temos que prantear, e temos que tirar as conclusões e lições necessárias.

Em Tisha b’Av, todos os judeus devem jejuar e ir à sinagoga para rezar e chorar – se não pela ausência do Templo, então pelo Holocausto e pelas outras tragédias na História Judaica. Todo judeu deve jejuar e se enlutar em Tisha b’Av – se não for por D’us, então que seja por nosso povo. Pode ser que não muitos de nós pranteemos em Tisha b’Av o exílio da Shechiná, a queda de Jerusalém e a destruição da Morada Divina na Terra, mas todo judeu pode e deve chorar pelos que tombaram, cujo grito continuará a reverberar até a vinda do Mashiach. Se nos juntarmos a seus gritos – se gritarmos do fundo de nosso coração – talvez nossas vozes subam aos Céus e D’us “ouça” e “se recorde”, e finalmente traga a redenção não apenas ao Povo Judeu, mas a todos os seres bons e decentes que anseiam por um mundo melhor.

Em Tisha b’Av, prantearemos e oraremos pelo cumprimento do que o Rei David, o homem que fundou a Cidade de Jerusalém, escreveu em um de seu famosos Salmos: que quando D’us levar todo o nosso povo de volta à Terra de Israel, nossa boca estará cheia de risos e nossa língua exultará. “Os que ora semeiam em lágrimas”, ensinou o Rei David, “hão de chegar à colheita com alegria. Os que a chorar vêm trazendo as sementes, em júbilo retornarão, carregando os frutos da colheita, tão esperada”. (Salmo:126)

 Amen, ken yehi ratson.

BIBLIOGRAFIA
Rabi Steinsaltz, Adin (Even Israel), Change & Renewal: The Essence of the Jewish Holidays & Days of Remembrance, Maggid Publisher