Morashá

Notícias do Brasil

27/01/2022

Aprender com o passado para proteger o futuro

Por Claudio Lottenberg, presidente da Confederação Israelita do Brasil (Conib)

Já faz algum tempo que os judeus do mundo inteiro vêm constatando uma tendência preocupante: a cada ano, o grau de ignorância das gerações mais jovens acerca do Holocausto parece aumentar. Hoje, oito décadas após o genocídio de seis milhões de judeus pelo regime nazista, uma parcela ampla da sociedade desconhece informações básicas a seu respeito. Não sabem o que foi, quem o causou, por que ocorreu.

Segundo uma pesquisa recente, quase dois terços dos entrevistados — americanos de 18 a 39 anos — não sabiam o número de vítimas do Holocausto, e quase metade não soube citar o nome de nenhum campo de concentração.

No Brasil, a situação não é muito diferente. Uma pesquisa feita em 2019 pela Anti-Defamation League, uma das organizações de maior importância histórica no combate ao antissemitismo, mostrou que 22% dos entrevistados nunca haviam ouvido falar no Holocausto, e 15% acreditavam que o número de mortos teria sido exagerado.

Aqui como lá, a ignorância generalizada é terreno fértil para o ódio. À medida que a memória coletiva do Holocausto esmaece, grupos mal-intencionados vêm preenchendo o espaço que ela ocupava de forma metódica e intensiva, com banalizações, negacionismo e discursos violentos.

Em 2022, é possível ver os frutos dessa ignorância em todo lugar. Na Europa, partidos com claras inclinações neonazistas, como a AfD (Alternativa para a Alemanha), proliferam e conquistam adeptos, aproximando-se perigosamente dos espaços de poder.

Nos EUA, são cada vez mais frequentes os ataques a sinagogas e outras formas de violência — física ou simbólica — direcionada a judeus. Os mesmos grupos antissemitas que organizam esses ataques têm a erosão e a manipulação da memória como projeto prioritário, e conseguem propagar suas mensagens com um grau de penetração surpreendente. É grande a quantidade de jovens americanos que já declararam ter visto posts negando ou distorcendo o Holocausto na internet. Muitos deles também foram expostos a símbolos nazistas nas redes sociais.

Já o Brasil vive uma explosão de grupos extremistas, dos quais a maioria é abertamente neonazista. Segundo a antropóloga Adriana Dias, essas células teriam crescido 270% entre 2019 e 2021, chegando a 530 grupos — cerca de dez mil pessoas. Gestados em fóruns on-line, eles têm dado sinais alarmantes de que não pretendem se limitar a propagar mensagens de ódio na internet, mas a efetivá-las na vida real, adquirindo armas e organizando treinamentos paramilitares.

Essas circunstâncias não atestam outra coisa senão a falência coletiva da sociedade em educar seus jovens. Enquanto não fizermos um esforço concreto para atestar como essa falência se deu — como nos permitimos chegar a esse ponto — e o que podemos fazer para revertê-la, daqui em diante, corremos riscos sérios, que se estendem muito além da comunidade judaica.

O antissemitismo contemporâneo, afinal, é a manifestação de um mal muito mais profundo, que é a intolerância. No Brasil, os mesmos grupos que pregam a violência contra os judeus já se organizam ativamente para praticá-la contra as demais minorias, como negros, nordestinos e LGBTQIA+.

Nesse sentido, lembrar o Holocausto e trabalhar ativamente contra a sua banalização é crucial não apenas para os judeus, mas para a nossa sobrevivência enquanto civilização. Ao falar do Holocausto, estamos lutando também contra outros genocídios.

À medida que nos distanciamos temporalmente do Holocausto, e poucos dos seus sobreviventes permanecem, é crucial preservar sua memória, reforçar a sua dimensão enquanto evento histórico e trauma coletivo, e repudiar quaisquer tentativas de apagá-lo. Não podemos ficar em silêncio outra vez. No 27 de janeiro, Dia Internacional da Lembrança do Holocausto, que lembremos do óbvio: aprender com o passado é a única forma de proteger o futuro.